Cardeal Schönborn: uma “espiral do silêncio” está no cerne dos abusos sexuais clericais em curso

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09 Julho 2019

O cardeal Christoph Schönborn, o terceiro cardeal mais ativo da Igreja em todo o mundo, pediu que os bispos e outras autoridades católicas se empenhem mais em ouvir as vítimas dos abusos sexuais clericais.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 08-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma palestra no mês passado na capital austríaca, Viena, onde ele é arcebispo desde 1995, Schönborn disse que escutar as vítimas foi essencial para romper a “espiral do silêncio” que permitiu que tais abusos continuassem por tanto tempo.

“As vítimas precisam superar um limiar enormemente alto mesmo para começar a falar”, disse o cardeal de 74 anos em uma conferência sobre “Sexo e crime” no Instituto de Religiosidade em Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade de Viena.

Ele compartilhou sua própria experiência daquilo que descreveu como o “doloroso processo de aprendizagem de 25 anos” da Igreja austríaca sobre os abusos sexuais clericais.

Schönborn, um teólogo dominicano que se tornou um bispo auxiliar da Arquidiocese de Viena em 1991, relembrou que só quando ele realmente se encontrou e ouviu as vítimas é que ele foi capaz de superar seus reflexos defensivos iniciais, corrigir suas suposições erradas e mudar completamente a sua consciência sobre os abusos sexuais clericais.

Rompendo o silêncio

Mas ele disse que é extremamente difícil conseguir que as vítimas falem sobre o abuso que sofreram.

O cardeal disse que várias vítimas disseram a ele: “Se pelo menos eu não tivesse começado (a falar sobre o abuso)”, dizendo-lhe que eles acreditavam que a supressão da memória do trauma doloroso poderia poupá-los de um sofrimento ainda maior.

Ele disse que o medo de falar sobre o abuso é compreensível, já que “todo o cenário de abuso depende das vítimas permanecerem caladas, isto é, da estratégia de uma espiral de silêncio”.

Schönborn disse que seu primeiro contato com a realidade do abuso ocorreu nos anos 1980, quando ele lecionava teologia na Universidade de Friburgo, na Suíça.

Uma freira com fortes tendências suicidas, a quem ele vinha oferecendo orientação espiritual por um período prolongado de tempo, em certo momento, teve uma rememoração súbita de como seu pai abusara dela há anos.

“As lembranças dela estavam tão fortemente trancadas que era como se um teto de concreto tivesse sido colocado sobre elas, e, quando esse teto desabou, isso causou um imenso trauma”, disse Schönborn.

Foi algo com o qual ele nunca tinha entrado em contato antes. Foi quando ele se deu conta de que a recuperação de uma memória reprimida significava revivê-la, o que às vezes é ainda pior do que a experiência inicial.

Ele disse que as vítimas frequentemente acham que elas são culpadas pelo abuso, especialmente quando os perpetradores persuadem a si mesmos de que não são culpados e jogam a culpa sobre as vítimas.

“O fato de que os padres que dedicaram suas vidas a Deus, seu trabalho pastoral e a cura das pessoas se recusavam a reconhecer sua própria culpa foi a experiência mais angustiante para mim durante a crise dos abusos de 2010”, disse.

“O fato de que tais casos existam é tão avassalador que a Igreja como comunidade – mas, acima de tudo nós, bispos e padres – merecemos nos envergonhar profundamente, até mesmo aqueles que podem dizer: ‘Não fui eu, foi outra pessoa’”, enfatizou.

O cardeal disse estar convencido de que o abuso da religião é, de longe, a pior forma de abuso na Igreja.

Karadima e Groer: padres carismáticos que abusaram espiritual e sexualmente

Ele disse que isso ficou muito claro no escândalo em torno de Fernando Karadima, um ex-padre (agora laicizado) do Chile.

Ele assinalou que o carismático Karadima persuadira muitos jovens a se tornarem padres, “reuniu seus discípulos à sua volta como um guru e era seu líder espiritual indiscutível, para quem o mundo era formado por aqueles que eram seus discípulos e ‘os outros’”.

Schönborn disse que, durante as visitas ao Chile, ele experimentou pessoalmente o “cisma” causado por Karadima. Ele disse que a concentração em uma figura havia sido o ponto de partida do abuso espiritual.

“O abuso sexual normalmente começa com o abuso espiritual”, insistiu o cardeal, ressaltando que Karadima passou a abusar sexualmente de seus “discípulos” jovens adultos que permaneciam em silêncio.

Ele disse que havia muitos paralelos no caso Karadima e no caso do falecido cardeal Hans Hermann Groer, que foi arcebispo de Viena entre 1986 e 1995. Groer foi o primeiro cardeal a ser publicamente acusado de abusar sexualmente de um menor em 1995.

Schönborn, que foi nomeado arcebispo coadjutor de Groer e depois seu sucessor no mesmo ano, disse: “A razão pela qual eles permaneciam em silêncio era a gratificação de pertencer ao grupo de Karadima e o medo de serem excluídos do ‘círculo dos escolhidos’. Da mesma forma, Groer primeiro reunia jovens ‘discípulos’ ao seu redor e depois abusava deles”.

Schönborn admitiu que ele também havia, em princípio, respeitado Groer.

Assim, quando Groer foi publicamente acusado de abusar de um menor, a primeira reação de Schönborn foi defendê-lo.

Em uma declaração pública na televisão, ele declarou que as acusações eram falsas e as comparou com os “métodos nazistas”. Mas ele rapidamente teve que retirar sua defesa do cardeal.

Três anos depois – em 1998 – vários outros que haviam sido vítimas de Groer se pronunciaram. Schönborn disse que seu encontro com um deles teve um profundo impacto sobre ele e foi quando ele percebeu como era importante dizer à vítima que acreditava nele.

“Eu não estava atuando como juiz em um tribunal, mas sim expressando abertamente a minha convicção pessoal de que eu acreditava naquilo que a pessoa com que eu estava conversando me contava”, explicou o cardeal.

Em março de 1998, poucas semanas depois de se tornar cardeal aos 53 anos, ele e outros três bispos austríacos declararam publicamente ter “certeza moral” de que as acusações contra Groer eram “essencialmente” verdadeiras.

Eles continuaram dizendo que o trabalho pastoral da Igreja não deve “ser sobrecarregado com a suspeita paralisante de que a reputação de um cardeal é mais importante do que o bem-estar dos jovens”.

Isso, disse ele, levou a um conflito com Roma.

Roma não quis dar atenção ao meu alerta de que o abuso ocorreu, acima de tudo, no contexto da direção espiritual e provavelmente também durante a confissão (uma vítima de Groer foi abusada durante a confissão). A minha exigência por sanções rigorosas não foi ouvida”, disse Schönborn.

Mas ele disse que o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, era o “refúgio” dos bispos austríacos. Ele disse que foi Ratzinger quem, em 2001, persuadiu o Papa João Paulo II a estabelecer um tribunal para crimes graves (delicta graviora).

Schönborn disse que o “caso Groer” deu à Áustria uma “dolorosa vantagem inicial” no processo de aprendizagem da Igreja sobre os abusos, que já haviam começado a se espalhar por toda a Igreja.

Portanto, ela foi vista como exemplar nos círculos eclesiais pelo modo como lidou com o abuso clerical, concluiu o cardeal.

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