Cursos Pré-Universitários Populares e o pensamento crítico contra as desigualdades do sistema educacional brasileiro. Entrevista especial com Carmo Thum e com educadores do curso Alternativa de Santa Maria

Arte do 4º andar do Prédio de Apoio-Comunitário e Extensao da UFSM | Arte: Práxis Coletivo de Educação Popular

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 30 Maio 2019

Depois dos ataques do governo Bolsonaro às universidades públicas, manifestações em defesa da educação emergiram em todos os estados do Brasil. Entretanto, a luta por investimentos em educação e pela qualidade e igualdade de oportunidades não é novidade. A universalização do acesso à educação é um projeto inacabado no Brasil. Enquanto o acesso ao ensino superior é restrito por provas como o vestibular ou o Enem, a desigualdade existente no sistema educacional brasileiro se evidencia.

Devido à restrição do direito à educação superior, a partir dos anos 1980 foram criados pelos movimentos sociais os cursos Pré-Universitários Populares, com o intuito de “acolherem e assumirem a demanda social pela democratização do acesso ao ensino superior público, bem como tecerem a crítica à elitização das universidades públicas”, explicam os educadores do curso Pré-Universitário Popular Alternativa, vinculado à Universidade Federal de Santa Maria.

Com a perspectiva de que o “acesso à universidade é um direito a ser conquistado”, Carmo Thum expõe a necessidade de se reconfigurar a educação básica e superior no Brasil para superar as desigualdades. Deste modo os cursos populares se “propõem a uma ação que rompa com a apropriação indébita do conhecimento produzido e ensinado na universidade”, destaca.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Carmo Thum e o coletivo de educadores populares do Alternativa destacam que o sistema universitário exclui “trabalhadores e camadas populares”, porém preparar essas pessoas apenas para o vestibular ou o Enem, é insuficiente. “O conteúdo sistematizado nestas experiências vai muito além do instrumental necessário para a aprovação no vestibular, ele percorre os campos da formação política, da cultura e da análise crítica”, destaca Thum.

Para os educadores do Alternativa, a educação popular cria um “elo entre os jovens de camadas populares, periféricos, que também nos ensina a viver em comunidade”. E Thum ressalta o caráter formativo para a transformação social: “a ação formativa dos Pré-Universitários Populares coloca-se como um lugar onde conteúdos programáticos e luta política se relacionam intensamente com a perspectiva da transformação social”.

Uma iniciativa semelhante está sendo organizada pela organização, liderada por alunos e professores, Engenheiros sem Fronteiras - Núcleo da Unisinos. Trata-se do Curso Popular Preparatório do ESF Unisinos , um projeto em debate.

Carmo Thum (Foto: Projeto Pampa)

Carmo Thum é graduado em Pedagogia pela Universidade Federal de Pelotas - UFPel, mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e doutor em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Thum é um dos organizadores do 1º Encontro Nacional de Cursos Pré-Universitários Populares, realizado em 2000, na UFSC. Atualmente é Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Educação da Universidade Federal do Rio Grande - FURG e faz estágio pós-doutoral na Universidade Federal do Espírito Santo - UFES.

Educandos e Educadores (Foto: Alternativa UFSM)

O Pré-Universitário Popular Alternativa é um curso preparatório popular criado no ano de 2000 e acolhido como projeto de extensão, com sua vinculação à Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Sua criação partiu da iniciativa de universitários ligados ao movimento estudantil e oriundos do Centro de Ciências Rurais - CCR/UFSM. Inicialmente as atividades do Alternativa ocorreram de forma itinerante, passando por várias escolas de Santa Maria, visto que a UFSM não dispunha de espaço físico para acolher o projeto. Em 2007, o Alternativa teve definido um local fixo para funcionar, no Prédio de Apoio da UFSM, na região central de Santa Maria. Em 2018, a sede do Pré-Universitário Popular Alternativa mudou de endereço novamente, para a Antiga Reitoria da UFSM, no centro da cidade. Auxiliaram na construção da entrevista o professor Guilherme Corrêa, coordenador institucional, Eduardo Adirbal Rosa, educador de Filosofia, e Anderson Proença de Andrade, educador de Literatura.

 

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como se criaram cursos pré-vestibulares universitários? Existem diferenças entre cursos pré-vestibulares e pré-universitários?

Carmo Thum — Os cursos Pré-Universitários se constituíram dentro dos Movimentos Sociais, mais especificamente no Movimento Estudantil, na luta por direito à Educação para Todos. Nos inícios da década de 1990, essas iniciativas ganham forma em diferentes locais do Brasil. A luta pelo direito à Educação em todos os níveis, desde a Educação básica ao superior. O acesso de trabalhadores à universidade, a ampliação do ensino superior, o financiamento das condições de permanência. Essa experiência é uma das expressões dos novos sujeitos das lutas populares.

Analisando os tempos históricos, vimos que na década de 90 do século passado, houve mudanças na base técnica do processo de trabalho; uma aceleração na ideia espacial do mundo e suas relações. Os novos modos de gerenciamento do trabalho (toyotismo e outros) e modelos de gestão política do mundo do trabalho (neoliberalismo) impactam a realidade e as condições de vida da juventude. Na atualidade, quase 2020, os princípios do neoliberalismo ganharam instrumentalização e regulamentação. E isso agrava a perda de direitos comuns. Portanto, a luta por direito à educação continua na pauta.

Experiências de Pré-Universitários Populares

De fundo, não existe diferença de significado entre as palavras Pré-Vestibulares Populares e Pré-Universitários. São palavras utilizadas em diferentes tempos, mas referem-se à mesma situação: o acesso à universidade é ainda um direito a ser conquistado. E o será a partir da luta política dos trabalhadores: operários, comerciários, empregadas domésticas, dos agricultores familiares, da construção civil, dos povos e comunidades tradicionais etc. É uma luta por direitos de cidadania plena.

Essas experiências foram forjadas tendo percebido a importância do processo educacional, como um dos elementos capazes de contribuir com o rompimento do “ciclo marginalizador” imposto às classes populares. Essas têm buscado a ampliação dos espaços educativos com a finalidade de possibilitar uma maior formação política, cultural e instrumental para o processo seletivo de ingresso à universidade, seja o vestibular ou o Exame Nacional do Ensino Médio - Enem, bem como contribuir no desenvolvimento da autoestima, da autonomia, da solidariedade, do sistema coletivo de organização e participação de pessoas que, descapitalizadas econômica e culturalmente, não estão em pé de igualdade na disputa pela vaga na universidade.

Estas experiências possuem uma dinâmica de organização diferenciada da empresarial, isto é, se organizam através de agentes sociais, que propõem ações educativas visando uma formação integral. O conteúdo sistematizado nestas experiências vai muito além do instrumental necessário para a aprovação no vestibular, ele percorre os campos da formação política, da cultura e da análise crítica.

PUP Alternativa — Os cursos preparatórios, em geral, têm uma larga história no país. Em específico, os cursos preparatórios populares surgiram nos anos 1980 e vieram a se consolidar na década de 1990, como uma reação ao contraditório sistema educacional brasileiro, ou seja, um sistema que havia expandido o ensino básico público, mas que mantinha processos dificultosos para acesso nas universidades públicas pelas camadas popular e trabalhadora. Nesse sentido, os cursos acolhem e assumem a demanda social pela democratização do acesso ao ensino superior público, bem como tecem a crítica à elitização das universidades públicas.

Entendemos que um cursinho pré-vestibular tem foco no ensino de conteúdos cobrados nos exames vestibulares e nas provas que dão acesso à universidade. Um pré-universitário, por sua vez, assim se denomina pelo interesse em ultrapassar essa restrição a repasse e fixação de conteúdo do ensino médio. Denominar-se pré-universitário é um modo de anunciar um projeto que põe para si o desafio de funcionar como uma introdução à vida universitária no que tange, principalmente, ao debate de questões atuais a partir de grupos de estudos, rodas de conversa, palestras, seminários etc. Parece-nos que isso se fez sentir mais intensamente, em um Programa como o Alternativa, a partir de 2014, com o fim do vestibular e a possibilidade de ingresso via Enem.

O popular é político

Quando acrescentamos à expressão pré-universitário a palavra popular, mostramos nossa intenção em oferecer uma introdução à vida acadêmica a pessoas provenientes das camadas menos favorecidas da nossa sociedade, especialmente aos trabalhadores que veem os cursos universitários como oportunidade para melhorar de vida e para contribuir com sua comunidade e com a sociedade como um todo. É importante, aqui, acrescentar que o caráter popular do Alternativa se estende à sua equipe de docentes e gestores caracterizados, majoritariamente, por sua proveniência de camadas populares.

Além disso, o acréscimo da palavra popular indica a assunção à concepção pedagógico-política de Educação Popular, a qual tem como princípios estruturantes a promoção de uma educação emancipadora, contrariando as práticas tradicionais de educação bancária, o reconhecimento de que todas as pessoas são sujeitos em um processo educativo, processo este que consiste na troca dialógica e respeitosa de conhecimentos de vida e científicos entre educadores e educandos, bem como o entendimento de que a educação não é um processo que pode ser qualificado pela neutralidade, mas pela politicidade. O aspecto político nos conecta à metaquestão: como viver juntos numa sociedade como a que vivemos, ou seja, está relacionado ao entendimento e à discussão das diferenças e à promoção de fóruns para o debate de questões públicas.

IHU On-Line — Como se desenvolvem as atividades de um cursinho pré-universitário popular? Quem são os protagonistas no processo de educação?

Carmo Thum — Marcadamente as ações educativas dos Pré-Universitários Populares apontam para o exercício do diálogo entre quem ensina e quem aprende. Portanto, exercitam uma relação horizontal entre docentes e estudantes. Mas, mais profundamente, o que caracteriza a ação pedagógica-educativa é a problematização da realidade dos próprios sujeitos envolvidos no processo aprendente. Nas experiências que vivenciei e conheci, a ação pedagógica, de ensino, tinha base em processos interdisciplinares e nas relações horizontais entre os sujeitos do processo.

Protagonismo estudantil pela popularização do conhecimento

Os protagonistas são os sujeitos dessas experiências: estudantes universitários e comunidade envolvida. Há uma correlação direta entre a consciência do direito à educação para todos e a ação política para interferir na lógica excludente e seletiva do acesso ao ensino superior. Para além do acesso ao ensino superior, o Movimento de Pré-Universitários Populares reivindica políticas de educação pública, desde o acesso à permanência.

A luta por acesso e permanência na Universidade é uma luta por acesso ao bem comum não partilhável. Ao participar do que deveria ser ‘não partilhável’ em nossa sociedade, os Pré-Universitários Populares propõem uma ação que rompa com a apropriação indébita do conhecimento produzido e ensinado na universidade.

PUP Alternativa — Cada curso preparatório popular é uma iniciativa bastante singular. Isso significa que existem diversas nomenclaturas, estruturas organizacionais, trabalhos pedagógicos, locais de funcionamento e apoios. Nessa linha, há também uma multiplicidade de sujeitos participantes. Alguns grupos optam por atender um público misto ou voltam-se para um público mais específico (negros, transexuais etc.), com ou sem distinções de idade. O Alternativa, que por si só é resultado da ação autônoma de estudantes que decidiram interferir no modo elitista como se dava o ingresso ao ensino superior, por exemplo, atende um público misto, oriundo das camadas popular e trabalhadora de Santa Maria e municípios ao redor, onde a adesão dos(as) educandos(as) ocorre através de Processo Seletivo, sempre no início de cada ano. As pessoas selecionadas recebem os materiais didáticos e as aulas de forma totalmente gratuita. Por outro lado, a adesão como gestor e docente é totalmente voluntária e não implica em nenhuma forma de restrição quanto à modalidade de escolaridade superior (graduandos, pós-graduandos, egressos), orientação política, religiosa ou de pertencimento a estratos sociais, raça, gênero ou orientação sexual.

Os educadores possuem autonomia para a construção de materiais didáticos, para gerir suas aulas e proposição de atividades diversas. Contudo, é uma autonomia em um sentido muito estrito, a da Educação Popular, priorizando a dialogicidade, a escuta e o respeito aos saberes dos educandos e a politicidade envolvida no processo educativo. Tanto o educador quanto o educando passam pelo mesmo processo de formação. Talvez se deveria falar em conhecimento ao invés de saber. Conhecimento quer dizer cum nascere, ou seja, nascer com, e tanto educador e educando são protagonistas nesse processo.

Gestão da educação e a conquista da autonomia

Podemos dizer que uma das grandes tarefas que se colocam a nós, no Alternativa, é que os educandos se reconheçam como protagonistas em sua educação, que possam pronunciar suas palavras e ideias sem medo, sejam autônomos. Muitas vezes a experiência dos mesmos nas escolas não colaboraram o suficiente para isso. É perceptível, para citar exemplos muito básicos, mas bem ilustrativos, que nos primeiros meses de aula os educandos solicitam permissão para sair da sala de aula para atenderem telefone ou irem ao banheiro. É preciso desconstruir estas atitudes e comportamentos.

Por outro lado, é de se destacar que são realizadas reuniões com participação dos educandos a respeito das aulas e atividades realizadas. Ou seja, não cabe a eles somente assistir e participar das aulas, mas contribuírem com feedbacks críticos sobre o processo educativo em que estão inseridos. Isso é uma diferença fundamental. Assim, todo o trabalho realizado no Alternativa tem em vista a criação de espaços e condições para a promoção da autonomia, ou melhor dizendo, a conquista dessa autonomia enquanto estudantes e, esperamos, como pessoas.

IHU On-Line — Em que se fundamentam e como se desenvolvem metodologias de Educação Popular?

Carmo Thum — As metodologias de Educação Popular vivenciadas nesses espaços se fundamentam na perspectiva gramsciana, de que todos podemos ser governantes. Todos temos o direito de sermos sujeitos. Para tanto, o ato educativo é compreendido como um ato político. Não é uma ação ingênua. É uma ação interessada, comprometida com a transformação da realidade opressora.

Educação para transformação social

Nesses espaços, ensaiamos formas que produzem, com certa potência, a compreensão da realidade. Esse movimento reflexivo é emancipador. Em diferentes momentos desses quase 30 anos (1993-2019), localizamos situações que geraram impactos nas condições do protagonismo dos sujeitos envolvidos, seja na vida social, seja na relação com o conhecimento, seja na luta política. Na fala de Paulo Freire (1996, p. 124-125) se explicita essa ideia: “A raiz mais profunda da politicidade da educação se acha na educabilidade mesma do ser humano, que se funda na sua natureza inacabada e da qual se tornou consciente. Para que a educação não fosse uma forma política de intervenção no mundo era indispensável que o mundo em que ela se desse não fosse humano”.

Essas experiências apontam para uma dimensão pedagógica dos Movimentos Sociais, o aprender a intervir, o produzir a capacidade e o desejo de mudança. Compreendendo que somos, todos, seres inacabados, é a consciência deste inacabamento que nos coloca numa ação necessária para a superação dos condicionantes sócio-culturais-políticos que negam o direito ao acesso dos trabalhadores à Universidade. Compreender que a pedagogia da política do processo formativo aponta para a práxis. A ação formativa dos Pré-Universitários Populares coloca-se como um lugar onde conteúdos programáticos e luta política se relacionam intensamente com a perspectiva da transformação social.

PUP Alternativa — A educação popular, no que tange à questão das metodologias para a promoção de processos educacionais, tem uma contribuição histórica num país marcado pela escravidão, pela desigualdade, e que chega ao século XXI com, segundo os dados do IBGE, 50 milhões de pessoas vivendo na linha de pobreza. Nesse contexto, a educação popular tem produzido práticas educacionais que põem em ação o diálogo e a construção do conhecimento em favor da ampliação da leitura de mundo de todos os envolvidos nos processos educacionais que promove. É pela prática do diálogo que apreendemos, juntos, o mundo e nele agimos.

Educação popular como ponte entre o ensino médio e a universidade

Em um curso Pré-Universitário Popular temos que dar conta de ministrar os conteúdos das matérias que fazem parte das provas de acesso ao ensino superior. Isso implica, por si só, num grande esforço que envolve seleção de conteúdo, elaboração de apostilas, preparação de aulas e a gestão de um grupo de educadores e educandos bastante flutuante. A metodologia utilizada para o ensino dos conteúdos necessário para que nossos estudantes possam ter acesso ao ensino superior tem como base aulas formais. O emprego de aulas em que se ensina conteúdo é consciente e claro para a equipe do Alternativa, faz parte da necessidade de criar condições de competitividade a quem recorre à formação que oferecemos. O curso Pré-Universitário Popular tem a função de ponte entre dois pontos de educação formal: o ensino médio e o curso superior. É natural que tenha que lançar mão de estratégias educacionais correspondentes aos códigos estabelecidos pela escola pública brasileira e pela universidade.

Todavia, a educação popular é a linha mestra da proposta do Alternativa e não há, aí, nenhuma contradição na medida em que a comunidade de educadores e educandos é proveniente dos estratos populares e usa de estratégias formais de educação como para combater a desigualdade social que vivemos e sentimos na pele. Nesse sentido, a metodologia de educação popular norteadora do Alternativa só pode ser compreendida se tomamos o processo como um todo: uma perspectiva educacional popular que se utiliza de estratégias formais de ensino para a promoção de igualdade social.

E aí, uma perspectiva de educação popular não é apenas uma abstração ou uma ideia. O Alternativa é, em si, resultado de debates populares e de uma análise da desigualdade em que as formas de acesso ao ensino superior desponta como ícone do corte entre pobres e ricos. A clareza em relação a isso nos coloca simultaneamente como efeito e agente promotor de debates públicos, de problematização do contemporâneo, de uma escuta sensível das questões que atravessam as vidas dos jovens e trabalhadores que vivem nas periferias pobres, da promoção de uma cultura de diálogo e apoio mútuo.

IHU On-Line — Por que apostar em uma metodologia de Educação Popular para inserir trabalhadores em universidades que seguem o modelo da Educação Formal?

Carmo Thum — Primeiro, porque, na atualidade, formação é uma necessidade. Qualificação para a ação é um requisito da lógica social vigente. Então, se a estrutura atual só reconhece e valoriza os saberes certificados, chegar à certificação é uma condição para exercitar a vida profissional. Contudo, o processo educativo baseado na pedagogia tradicional tende a não ser potencializador de um sujeito criativo. Nós educamos para a emancipação. Desejamos que todos exerçam sua condição de sujeito político. Para tanto, compreender a realidade, a partir de um processo problematizador que produza instrumentos do raciocínio reflexivo, é uma necessidade.

A produção de um novo mundo, de uma nova realidade, e a superação das estruturas opressoras e excludentes passam por vivências capazes de aportar a produção de consciência histórica das relações que produziram o presente e de ensaios criativos de um mundo novo a partir de experiências problematizadas.

Em um sentido amplo, estou a dizer que as ações das experiências de Pré-Universitários Populares estão a produzir, a nível interno, uma competência didático/política necessária para ser aprendiz e ensinante do ato de desembrulhar o enredo das relações sociais.

E a nível externo, se pensarmos isto numa ideia longitudinal e em profundidade, veremos que os movimentos populares produzem um enfrentamento que questiona a estrutura vigente, e que tem conquistado espaços como o da universidade. Estes fatos não se dão por acaso, surgem das conjunturas sociais. O desejo de transformação da realidade opressora potencializa os movimentos sociais a pensarem estratégias de fortalecimento, tanto de ordem organizativa quanto instrumental, para maximizar o enfrentamento, e o acesso à universidade é uma das estratégias. Olhando para a luta por direitos vemos que as mesmas, na atualidade, são de múltiplas formas de expressão, e justamente nas suas diversidades “trançam” suas caminhadas por um sentido comum. O êxito desse processo é alcançado na luta política.

A ideia de pertencimento de classe, de pertencimento ao movimento social, de pertencimento aos grupos explorados são elementos-chaves na compreensão dos significados possíveis da ação política dessas experiências. Portanto, quando falo em processo educativo, falo em atitudes coerentes à consciência de classe à qual pertence o sujeito da ação.

PUP Alternativa — Antecipamos parte da resposta na pergunta anterior, mas gostaríamos de ressaltar que auxiliar esses trabalhadores e trabalhadoras no ingresso ao Ensino Superior, via SiSU e ProUni, é um desafio por si só. E entendemos que não bastaria apenas oferecer um Programa de Extensão Universitária que oportuniza a aprovação em um desses processos seletivos. É necessário permitir a iniciação a um modo mais complexo de pensar enquanto educando pré-universitário, a fim de que ao adentrar o Ensino Superior, esse educando, agora já universitário, prime pela criticidade e seja sensível às problemáticas sociais próximas de si e o modo como essas problemáticas se conectam a aspectos mais amplos da realidade brasileira e mundial. Esse é um desafio ainda maior quando percebemos muitas vezes a ênfase exagerada da ação educacional tanto da escola quanto da formação universitária na preparação para o mercado de trabalho. Mas parece-nos que esse é o desafio da Extensão, essa sensibilidade à comunidade, às problemáticas sociais que a permeiam e à abertura para sociabilidades mais igualitárias e livres.

Nos últimos quatro anos, 2015 a 2018, uma média de 30% dos estudantes que ingressam nos cursos do Alternativa têm obtido aprovação no ensino superior (Gráfico 1). Em 2018, especificamente, dentre os 61 educandos(as) que concluíram a formação, 51 foram aprovados em um ou mais cursos e instituições de ensino superior, ou seja, um índice de 84% de aprovados (Gráfico 2). Isso mostra uma correlação bastante forte entre a conclusão do curso preparatório e a consequente obtenção da aprovação em curso de nível superior. Esses dados, por si só, nos dão a certeza da importância do trabalho que realizamos e do esforço coletivo inspirado pela educação popular.

Índices de Aprovados 2015-2018* (Fonte: Relatório do Pré-Universitário Popular Alternativa -2018)
*Dados de aprovação do ano de 2018 são preliminares

 

Índices preliminares do Corpo Discente em 2018 (Foto: Fonte: Relatório do Pré-Universitário Popular Alternativa - 2018)

IHU On-Line —Na atual conjuntura, quais os desafios e possibilidades de um cursinho pré-universitário popular?

Carmo Thum — O movimento de Pré-Universitários Populares produziu impactos significativos no cenário das políticas públicas. Dentro do campo da luta de Educação para todos, nossas ações incidiram sobre a Ampliação do Acesso ao Ensino Superior nas últimas décadas; na compreensão que não só o acesso é uma necessidade, mas a permanência é um processo que precisa de financiamento público, portanto, impactamos as Políticas de Permanência e Assistência Estudantil. Impactamos também o ingresso de trabalhadores na Universidade; de um modo geral, os impactos na ampliação do direito ao ensino superior são significativos. Seria o caso de uma pesquisa contemporânea debruçar-se sobre isso.

Os desafios postos são o atrofiamento do financiamento para a educação. Em tempos em que se compreende a educação como um produto, dentro da lógica de mercado, o financiamento da educação é considerado gasto e não investimento. O recente anúncio dos cortes de verbas para as universidades é um exemplo disso. O não investimento em editais públicos de Extensão e Pesquisa no campo das Ciências humanas é outro. Talvez, na atualidade o maior desafio seja o de permanecer lutando pela educação como algo de direito; o conhecimento como também participante do partilhável socialmente.

As possibilidades estão justamente na potência da ação política dos sujeitos envolvidos. Ação política derivada da consciência das relações sociais, da realidade sócio-política-econômica, que dá forma à sociedade atual. Possibilitar vivências capazes de ensaiar um mundo novo é apostar no humano e na sua condição humanizadora.

A universidade é usufruível socialmente, ela participa da ideia de não partilhável, isto quer dizer: a universidade é uma instituição inapropriável individualmente. No que se refere à socialização do Conhecimento, a universidade deve ser instrumento para que o conhecimento acumulado/produzido pela humanidade seja de acesso para todos. O ideal de indissociabilidade permanece como uma dimensão a ser alcançada. A garantia de “acesso” na condição de estudantes possibilita, em algum grau, ampliar o exercício de socialização do conhecimento produzido. Mas se faz necessário um alargamento da concepção de indissociabilidade e de direito à educação. Neste mesmo tom, a ideia de retorno do público, que é o conhecimento, para o público, que é a sociedade, só se concretiza plenamente se o direito à educação seja concreto em todos os níveis, inclusive ao ensino superior.

PUP Alternativa — Em um cenário político e econômico instável, com a possibilidade de redução de investimentos, a Extensão pode ser afetada. O coletivo de um Pré-Universitário Popular deve primar para que a sua Extensão não se restrinja a preparar educandos ao Enem. Há nessa Extensão um ensino crítico, reflexivo e complexo que deve ser cada vez mais qualificado e reiterado por meio da pesquisa também (ver pesquisas realizadas no projeto). Essa sinergia com o Ensino e a Pesquisa podem enriquecer a Extensão e torná-la mais visível e valorizada no meio universitário.

A respeito dos desafios, também é preciso observar que as condições socioeconômicas e familiares, fora do alcance de muitas ações dos Pré-Universitários Populares, impactam de modo substantivo estas iniciativas. Referimo-nos, principalmente, à falta de segurança pública, falta de horários de transporte coletivo no período noturno, jornadas de estudo e/ou trabalho extenuantes, problemas de saúde na família etc., elementos que em conjunto colaboram para que os estudantes não tenham mais condições econômicas e biopsicológicas de comparecimento às aulas, o que acarreta a completa desistência de concluir o curso. Uma conquista significativa obtida em 2006, em Santa Maria, pelo Alternativa e pelo Práxis, outro Pré-Universitário Popular da UFSM, foi o reconhecimento de que todos os educandos participantes de ambos os cursos tenham direito à compra da meia passagem para uso do transporte coletivo. Ações desta natureza não extinguem os problemas, mas são capazes de minimizar o impacto dos mesmos.

IHU On-Line — Desejam acrescentar algo?

Carmo Thum — Os encontros de Pré-Universitários, iniciados no ano de 2000, foram retomados a partir de 2015. Esse é um espaço potente para impactar o cenário político, de sistematizar experiências e de fortalecer os princípios de Educação Popular e da luta política por direito à educação.

No ano de 2000, realizamos o 1º Encontro na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, o 2º foi no Rio de Janeiro.... Passaram-se bons anos, e em 2015, na Universidade Federal do Rio Grande - FURG, retomamos essa iniciativa de problematizar a experiência para ampliar sua potência política. Depois foi realizado o 4º Encontro, em 2015, em Santa Maria, e o 5º em Florianópolis, em 2017... A história continua porque os direitos ainda estão por ser alcançados.

PUP Alternativa — Os cursos Pré-Universitários não somente voltam-se para as camadas populares com o intuito de fornecerem uma preparação às provas de ingresso às Instituições de Ensino Superior em conjunto à formação crítica e cidadã, mas vêm se consolidando como espaços que oportunizam o contato de jovens docentes com o chão da sala de aula, práticas didáticas e ambientes educativos, enquanto assumindo a responsabilidade de educadores. Nesse sentido, os pré-universitários favorecem a complementação e qualificação profissional de docentes.

Julgamos interessante sublinhar também a socialização fora de sala de aula que um pré-universitário proporciona, ou seja, a enriquecedora interconexão de identificações que comungam, seja pelo esporte, pela música ou quaisquer outros traços identitários. O espaço de um pré-universitário cria um elo entre os jovens de camadas populares, periféricos, que vivem o desafio de ingressar no ensino superior. Esse espaço fora de sala também nos ensina a viver em comunidade.

Um dos aspectos mais importantes da produção do Alternativa, considerando sua trajetória de quase vinte anos, é a formação de uma rede de pessoas, educadores e educandos, que começa a funcionar em práticas solidárias de apoio e fortalecimento da educação popular. Nessa rede estão incluídas todas as pessoas que passaram pelo Alternativa, educadores, educandos, gestores e simpatizantes que, em variadas ocasiões, têm mostrado sensibilidade quanto ao debate de questões atuais e quanto à promoção de modos de vida solidários. Isso acrescenta uma tonalidade nova e bonita à noção de educação popular que praticamos, defendemos e queremos fortalecer.

Também agradecemos muitíssimo o convite para essa entrevista. As perguntas nos deram a oportunidade de nos reunir para formular respostas e optamos por um texto coletivo. Foi divertido. Ao mesmo tempo nos colocou em debate, permitiu uma revisão de toda a trajetória do projeto Alternativa e nos colocou a pensar o futuro.

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