Um novo jeito de fazer a educação. Entrevista especial com Ana Inês Souza

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15 Junho 2007

“Paulo Freire não idealizou uma escola; ele experimentou um novo jeito de fazer educação” é o que afirma a mestre em educação e trabalho Ana Inês Souza durante a entrevista cedida, por e-mail, à IHU On-Line. Nela, Ana fala de sua pesquisa sobre educação popular e os movimentos sociais, das lutas sociais através dos jovens e das escolas atuais. Ao refletir sobre os desafios dos movimentos sociais hoje, Ana diz que eles são compostos pela articulação das lutas econômicas e a construção de novas propostas.

Ana Inês Souza, atualmente, é coordenadora Pedagógica do CEFURIA – Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo. Graduou-se em Bioquímica e Farmácia na Universidade Federal de Santa Catarina e em Ciências Sociais pela PUC-PR. Tem especialização em Elaboração, análise e avaliação de projetos para o Setor Público, pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social Fundação Edison, e em Organização do Trabalho Pedagógico, pela UFPR. Seu mestrado em Educação e Trabalho foi realizado na UFPR e intitulado “Educação Popular: possibilidades e limites num mundo fetichizado”. É autora de Paulo Freire: vida e obra (São Paulo: Expressão Popular, 2001) e Irmã Araújo: vida e obra (Curitiba: Gráfica Popular/CEFURIA, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as principais relações entre educação popular e os movimentos sociais que a senhora percebeu na realização da sua pesquisa?

Ana Inês Sousa - Minha pesquisa mostrou que a educação popular é um  instrumento de conscientização, na perspectiva da transformação social. Seu objetivo é a organização popular, voltada à conquista de direitos sociais, culturais e políticos. É impulsionadora e, ao mesmo tempo, resultante dos movimentos sociais, que lutam por justiça e por uma vida digna para todas as pessoas, o que lhe confere uma perspectiva humanizadora, libertadora e não doutrinária. Dentro desta perspectiva, tão importante quanto os conteúdos transmitidos, são as relações que se estabelecem entre os sujeitos envolvidos no processo educativo e os horizontes perseguidos por esses sujeitos, o que inclui reflexão e ação coletivas.

Este conceito inclui não apenas os chamados cursos de formação política, mas todo o processo de preparação, realização e avaliação de atividades mobilizadoras - marchas, greves, ocupações, negociações coletivas, passeatas, encontros, assembléias -, que se constituem espaços de convivência, ação e aprendizados coletivos. Os conteúdos deste aprendizado, então, não são transmitidos por um professor aos alunos, mas socializados, trocados  ou construídos numa relação dialógica entre pessoas que têm experiências e saberes diferentes - ainda que impulsionadas pela figura do "intelectual orgânico" ou educador popular -, porém tendo em comum a marca da opressão e da exploração e, como horizonte,  o objetivo de se libertar desta opressão.

Minha pesquisa mostrou, também, que a escola não educa, apenas transmite conhecimentos, porque não tem vivência, ao contrário dos movimentos sociais, que se constituem em verdadeiros sujeitos coletivos pedagógicos. Por fim, minha pesquisa mostrou que educação popular e os movimentos sociais são dois lados de uma mesma moeda. Se a primeira não se colar ao segundo, vira palavrório. Se o segundo não se colar à primeira, vira ativismo.

IHU On-Line - Paulo Freire dizia que era necessário realizar o possível de hoje para viabilizar amanhã o impossível de hoje. Em relação aos movimentos populares, quais são os principais anseios e conquistas a serem realizados no futuro?

Ana Inês Sousa - Eu diria que o grande desafio dos movimentos populares, hoje, é a articulação das lutas econômica e política e a construção de propostas a partir de experiências concretas. Por conta do alto nível de empobrecimento das famílias, a partir do final dos anos 1990, a temática do trabalho e da economia popular tornou-se central. Nos últimos 10, 15 anos, os problemas sociais agravaram-se muito, especialmente por conta do desemprego estrutural. Além das reivindicações tradicionais, centro da ação dos Movimentos Populares nos anos 1980 - moradia, saúde, transporte, educação -, cresceram as questões da violência e ausência de trabalho digno, vulnerabilizando ainda mais as famílias empobrecidas, especialmente mulheres e jovens.

São temas novos, com os quais os movimentos populares não estavam acostumados a lidar. Talvez o possível de hoje sejam as pequenas experiências em economia popular solidária, por exemplo, cuja dimensão pedagógica vai muito além da simples geração de renda. O possível de hoje talvez seja as experiências de agroecologia nos assentamentos da reforma agrária e agricultura familiar. Tais experiências permitem denunciar o modelo de desenvolvimento capitalista, destruidor dos recursos naturais e humanos e apontar para novas possibilidades de produção material e espiritual da vida. Permitem desconstruir verdades e necessidades construídas artificialmente pela mídia irresponsável a serviço dos capitalistas, e refletir sobre o que, de fato, pode nos fazer felizes.

Talvez amanhã possamos viabilizar o impossível de hoje, ou seja, a produção coletiva e solidária de tudo o que precisamos para viver com dignidade. Sem patrões, supervisores, gerentes, mas de forma associada, cooperativa e sem comprometer a vida das gerações atual e futura. Vejo, aqui, a possibilidade de uma forte aliança de classe, entre a economia popular solidária e a agroecologia, por exemplo. Ou seja, entre os trabalhadores do campo e da cidade. Precisamos romper com esta dicotomia. A Reforma Agrária é urgente e necessária, não apenas para quem trabalha na terra, mas para todas as pessoas, pois depende disso a garantia da segurança alimentar de toda a população. Temos que promover trocas de experiência, colocar os trabalhadores empobrecidos em contato uns com os outros, para que eles se reconheçam como companheiros da mesma caminhada e luta por um mundo melhor, e para que ampliem suas visões de mundo, enfrentem preconceitos e parem de fazer juízo uns dos outros a partir do que a mídia burguesa diz.

IHU On-Line - Freire, desde jovem, sempre preocupou-se com a educação popular e com os movimentos sociais que lutaram por uma sociedade mais justa. Como a senhora percebe, atualmente, a participação dos jovens nas lutas sociais e na preocupação com a educação?

Ana Inês Sousa - Eu tenho uma grande preocupação com a juventude atual, porque ela é a principal vítima da sociedade consumista e individualista. Além de ser seduzida pelos meios eletrônicos de comunicação, que distanciam, cada vez  mais, as pessoas umas das outras. Se os meios informatizados permitem a comunicação entre todas as regiões do mundo, ao mesmo tempo, essa comunicação se faz cada vez mais intermediada por objetos - um computador, um celular. A TV mostra tudo e esconde tudo ao mesmo tempo. O jovem é jogado num emaranhado de opções e, paralelamente, é privado de tudo o que a sociedade valoriza. Os projetos e os sonhos são restritos ao ter. E os jovens correm atrás disso, lançando mãos de meios nem sempre lícitos. Ora, numa sociedade onde adultos dizem que a regra é comprar e vender, onde o "corpo sarado" é exposto como modelo cotidianamente, onde a destruição do outro é apresentada como espetáculo, o que esperar da juventude?

É verdade que têm jovens inseridos em alguns movimentos sociais. Temos o exemplo mais recente da mobilização dos estudantes da USP e em outras universidades. Com certeza, isto é importante, mas a grande maioria continua excluída, também das formas de organização populares. Elas não são atrativas para a juventude. A educação, incluindo a popular, precisa repensar seus conteúdos e metodologias a fim de que a juventude se reconheça neles.

IHU On-Line – A escola contribui para as transformações sociais? Quais são as diferenças da educação através da sala de aula e a educação através dos movimentos sociais?

Ana Inês Sousa - Como me referi na primeira questão, a educação formal carece de vivência, de aproximação entre os conteúdos e a prática da vida. Não basta transmitir conteúdos revolucionários; é preciso revolucionar a escola em todos os seus níveis. É necessário que educadores reconheçam que os educandos não são uma página em branco, mas sim pessoas com experiências de vida diferentes da sua, e também têm conhecimentos. Esses conhecimentos e experiências concretas precisam ser ponto de partida para uma educação que realmente queira ser construtora de sujeitos. Nos últimos anos, muitos militantes dos movimentos sociais têm ido para a universidade, e têm se decepcionado muito com ela. A sala de aula engessa o conhecimento e as pessoas. A forma como a educação formal está organizada fragmenta o conhecimento, não permite que os estudantes estabeleçam nexos entre as diversas áreas de conhecimento ou descubram para que elas servem. Isto não significa dizer que os conhecimentos científicos não sejam necessários para a luta social. Ao contrário. Mas eles não podem ser tratados burocraticamente.

IHU On-Line - Uma das pessoas que a senhora entrevistou afirma que "nós falamos de Paulo Freire, mas suas idéias não são aplicadas na escola". A senhora concorda com essa afirmação? A escola idealizada por Paulo Freire um dia existirá?

Ana Inês Sousa - Eu concordo, sim, que as idéias de Paulo Freire estão bem longe da escola, desde a sua organização física, o recorte dos conteúdos, até as formas de relação entre as pessoas. Mas reconheço que muitos educadores fazem a diferença. Mesmo nadando contra a maré, conseguem imprimir uma dinâmica diferente. Envolvem os estudantes em pesquisa, discutem questões atuais, Relacionam-nas com a vida concreta, desconstroem preconceitos, problematizam explicações limitadas da realidade, colocam seus conhecimentos a serviço do outro, contribuindo com transformações nas visões de mundo. Eu diria que aqui estão os germes de uma outra escola e, portanto, de alguma forma, as idéias de Paulo Freire já estão sendo experimentadas.

Paulo Freire não idealizou uma escola; ele experimentou um novo jeito de fazer educação. Os Círculos de Cultura não são uma idealização, mas uma proposta concreta que provou dar certo. Tanto assim que a ditadura militar de 64 procurou cortá-la pela raiz. Mas a proposta permanece viva. Muitas organizações populares trabalham com ela ainda hoje. Muitos educadores buscam, na metodologia freireana, inspiração para práticas inovadoras mesmo dentro da escola. Mas a revolução na educação não se dá isoladamente. Ela é parte de um processo de transformação social mais amplo, do qual ela é, ao mesmo tempo, impulsionadora e resultante. Eu sonho sim com um tempo em que não haverá mais duas educações: a bancária e a popular. E trabalho todo dia para que isto aconteça, junto com milhares de pessoas espalhadas pelo Brasil, pela América Latina, pelos continentes africano e asiático e, quem sabe, pelo mundo todo.

IHU On-Line - A que a senhora atribui a "decadência" do ensino no Brasil? As escolas não estão preparadas para lidar com os alunos e utilizam métodos de ensino muito antigos ou o problema está na "seriação" em que eles estão dispostos, o que, segundo especialistas, contribui para que os estudantes sejam preparados apenas para desenvolver atividades técnicas?

Ana Inês Sousa - Minha experiência na educação escolar é muito pequena. Confesso que me sinto sufocada dentro dela. A dinâmica da escola contraria tudo o que eu acredito deva ser um processo educativo e não tenho a mesma força que outros educadores têm para, apesar disso, conseguirem fazer a diferença. Optei por trabalhar com educação popular em outros espaços. Entretanto, do que tenho observado, estudado e refletido, vejo que nas sociedades fundadas na desigualdade social tudo o que se universaliza se precariza. Quando os bens e serviços chegam para todos, eles chegam precarizados. Foi assim com a saúde, com a educação, com a cultura, com os transportes.

Eu não diria que a degradação da escola se dá porque os estudantes estão sendo preparados para exercer atividades técnicas. Até porque elas não preparam mais para isto também. Isto era verdade para a escola moderna que foi universalizada para atender as exigências do sistema capitalista nascente. Mas o capitalismo atual não precisa mais de técnicos, na mesma proporção que precisava há 50 anos atrás, por exemplo. Então a escola, hoje, já não serve mais para nada. Para as classes dominantes, a função da escola já se esgotou, porque emprego hoje existe para muito poucos e, sua função ideológica é cumprida com muito mais eficiência pela mídia. Agora, é verdade que houve um abandono do ensino nos últimos anos. Assim como houve o abandono do sistema de saúde. O Estado, desde a sua origem, teve a função de organizar a vida social em função dos interesses econômicos.

Quando investir em políticas públicas e em infra-estrutura significou ganhos para os capitalistas, isto foi realizado. E, neste momento, os trabalhadores também tiveram sua parcela de conquistas. Foi a experiência dos chamados Estados de Bem-Estar Social que os países ricos conheceram. No Brasil, entretanto, isto nunca existiu. Assim eu diria, que a "decadência" dos sistemas públicos de educação na atualidade tem o agravante do ideário neoliberal: Estado mínimo, privatizações, "responsabilidade" fiscal etc. Tudo o que pode gerar lucro deve ser deixado à mercê do mercado, inclusive a educação. E, portanto, existe para uma minoria. Assim reproduz-se o ciclo das desigualdades sociais.

IHU On-Line - O que significa o que a senhora chama de "uma relação orgânica" da escola com os movimentos sociais? Essa relação pode levar ao que Paulo Freire idealizou como modelo de educação popular?

Ana Inês Sousa - Os movimentos sociais são a única força viva na sociedade atual. São eles que pautam os temas mais importantes que dizem respeito aos interesses do povo brasileiro: reforma agrária, reforma urbana, economia solidária, passe livre para trabalhadores e estudantes, auditoria da dívida externa, revisão das privatizações de empresas estatais etc. Se a escola quer, de fato, servir para emancipar as pessoas, colocar os conhecimentos a serviço da humanização, precisa trazer os movimentos sociais para dentro dela e fazer com que as pessoas envolvidas no processo educativo se aproximem deles. Uma relação orgânica pressupõe cumplicidade nas ações, na identidade na visão de mundo, no compromisso social com as mesmas causas e na indignação contra todas as formas de injustiça social. Uma relação orgânica da escola com os movimentos sociais pressupõe que o ponto de partida da educação são os problemas concretos vividos pela sociedade, e que os conhecimentos científicos, a serem acessados, devem estar a serviço da superação desses problemas.

IHU On-Line - De que maneira a pedagogia do oprimido pode colaborar para a educação nos movimentos populares?

Ana Inês Sousa - A pedagogia do oprimido é a pedagogia que desvela a realidade. Apropriando-se de seus pressupostos, os militantes dos movimentos populares podem ampliar sua base, contribuindo para que um número cada vez maior de pessoas se insira na luta por um mundo mais humano. A pedagogia do oprimido tem como ponto de partida a realidade concreta, que inclui os dados objetivos e as explicações que as pessoas dão a esta realidade. O diálogo, na perspectiva “freireana”, inicia quando os educadores-militantes, ou militantes-educadores, vão a campo "ouvir" as pessoas. Um educador popular não vai às comunidades para dizer o que elas precisam fazer, mas saberá de suas urgências e de como interpretam seus problemas.

É a partir daqui que ele vai captar o "tema gerador" da ação educativa. O educador então, vai buscar os conhecimentos que ele precisa ter para contribuir num processo de problematização que leve as pessoas a superarem seus limites explicativos. Vai voltar às comunidades, estabelecer relações e, num processo de troca de saberes, "aprender e ensinar" que o sofrimento das pessoas não é culpa delas mesmas, mas de um sistema social injusto que se alimenta das desigualdades sociais. Nesta troca de saberes, conhecimento popular (tese) e conhecimento sistematizado (antítese) se fundem num novo conhecimento (síntese), através do qual ambos, educador-educando, liderança-base,  já não serão  mais os mesmos e, juntos, descobrirão o que precisam fazer para transformar a realidade. A pedagogia do oprimido não é uma didática. São princípios e valores que, se apreendidos, servem para todos os espaços e dimensões da vida. É um jeito de estar no mundo, com o mundo e com as pessoas.

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