Esquizofrenia social: "loucura que assola a humanidade". Entrevista especial com Elza Pádua

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13 Junho 2007

Mais comum do que se pensa, a esquizofrenia social foi pesquisada pela doutora em Psicologia Social Elza Pádua. Utilizando a obra “O alienista”, de Machado de Assis, Elza investiga, na realidade, o que seria uma psicologia normal. Ela fala ainda da loucura que assola a humanidade e mostra o papel da mídia e das relações sociais na construção da personalidade esquizofrênica. Assim, o trabalho de pesquisa da psicóloga transformou-se no livro “Esquizofrenia social: Ensaio sobre a ética da sobrevivência” (Porto Alegre: Editora Zouk, 2007), no qual defende que a ética é a cura para o mal. A IHU On-Line a entrevistou por e-mail.

Ao longo da conversa, ela fala do desenvolvimento da pesquisa, tendo sido a primeira pessoa no Brasil a utilizar o conceito de "esquizofrenia social", estudando, ao mesmo tempo, a criação de um novo “eu” dentro da pós-modernidade. “Devemos tentar conviver com ‘A parte do diabo’ nossa e com a dos outros, como algo que  todos temos e somos, sem grandes espantos e julgamentos densos”, aconselha.

Elza Pádua é graduada em Comunicação Social pela PUC – Rio e em Administração de Empresas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas. Concluiu mestrado em comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde trabalhou com temas como feminismo e sociologia. Concluiu o doutorado em Psicologia Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde iniciou sua pesquisa sobre esquizofrenia social. Elza também é autora do Seminário “Nós - os canibais”, apresentado na Universidade Federal Fluminense, e do artigo “O descaminho da mulher”, publicado pelo Departamento de Estudos da Mulher de Washington, nos Estados Unidos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como foi seu trabalho de pesquisa até chegar ao seu novo livro "Esquizofrenia social"?

Elza Pádua – “Esquizofrenia Social” não é um livro convencional. Ele foi evoluindo gradualmente, a partir de observações pessoais, estudos e pesquisas. Há cerca de seis anos, apresentei  uma proposta para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro - dentro de um trabalho para minha tese de doutorado, na área de Psicologia Social -, cujo tema era esquizofrenia social. Naquele momento, não havia consenso sobre a possível analogia entre a doença esquizofrenia e o que eu percebia como fenômeno social. Foi, mesmo, difícil fazer-me entender. Nestes últimos anos, foi ficando mais evidente - na imprensa, em conversas e debates -, muitas vezes sendo mencionado, este sentimento de perplexidade que temos vivido, sem entender totalmente. É até meio assustador!

Durante o trabalho de tese, fiz uma pesquisa -  com a ajuda do Centro de Documentação da Abril (1) - sobre o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, colecionando as manchetes das reportagens da revista Veja (2), procurando analisar incoerências, que geralmente passam despercebidas. Considero que a imprensa não é uma entidade autônoma, mas a representação da sociedade em que está inserida.

IHU On-Line - A senhora disse que na esquizofrenia a personalidade da pessoa tem sua unidade fractalizada em muitas partes. Como chegou ao conceito de Fractalidade?

Elza Pádua - O conceito de Fractalidade foi exposto por Baudrillard (3). Uma personalidade  fraturada seria uma personalidade que se “perde” em cacos, sem  integração nem contato com as suas partes divididas do todo.  A diferença é que o ser fractal contém, em cada parte fraturada, o todo.

Esta situação confunde - e complica - o entendimento, à medida que podemos estar falando com alguém que nos parece absolutamente “normal”, porque a sua anomalia ocorre em outras esferas. Meu estudo é uma análise de comportamento social, não da doença mental. Hoje me considero como uma “etóloga”, alguém que estuda os movimentos sociais sob a ótica dos comportamentos.

IHU On-Line - Como a senhora relaciona a ética da sobrevivência e a esquizofrenia social?

Elza Pádua - A ética da sobrevivência é o antídoto para a situação que procurei expor. Considerando o fenômeno da globalização, a informação  mundializada, a perda dos espaços públicos, a exposição constante na mídia, a única saída é tentarmos ser escandalosamentes coerentes - se não vamos, rapidamente, perder a credibilidade. A esquizofrenia social que estamos vivendo não é um fenômeno novo, mas,  historicamente, trata-se da  primeira vez em que ela é exposta, devassada, sem hipocrisia, e isto é assustador. Olhamos ao redor e o que vemos é um mundo muito feio.

IHU On-Line - Somos todos esquizofrênicos ou nos utilizamos, lucidamente, de outras personalidades para cada situação?

Elza Pádua - Isto de sermos ou não “doentes” é uma questão de saber quem  estabeleceu as referências para a normalidade. No meu trabalho, considerei como  “normalidade” um estado de satisfação e felicidade: a visão de um ser lúcido-lúdico, em comunhão com os seus iguais neste mundo, considerando-o como uma  passagem.  Olhando de frente o que estamos vivendo, o que se percebe é uma sociedade com aspectos muito nebulosos na demonstração de sua sanidade. Uma alegria verdadeira é o que parece acontecer muito raramente. Estamos, de fato, todos, muito comprometidos.

É por isso que aposto nas crianças -  que ainda não foram maculadas –, no despertar dos pais e, mesmo, nas autoridades dos governos, que têm a capacidade de intervir, para que as crianças nasçam, em nosso país, com outras expectativas e possam vir a montar uma nova sociedade, com novos padrões.

IHU On-Line - Qual é a relação entre mídia, esquizofrenia e ética que a senhora faz no livro?

Elza Pádua - Ao retratar a sociedade em que está instalada, a mídia torna-se tão esquizofrênica quanto a própria sociedade. Portanto, é absolutamente  necessária uma reflexão profunda sobre o seu papel na formação das nossas identidades, já que, no meu trabalho, retrato o Brasil, com as  suas especificidades. É importante que os responsáveis pela mídia saibam que não podem - ou não devem - difundir valores distorcidos. É fundamental que possamos desenvolver o senso crítico, que vem com a educação e que nos capacita a avaliar o que vemos, ouvimos e sentimos e, assim, nos proteger. A  ética entra como a base da mudança. Quem quiser sobreviver nestes novos  tempos terá que se acostumar a ser honesto, “nem que seja por malandragem”, como na letra daquela música do Jorge Benjor (4). Este viés, que pode ser visto até como negativo, já que não surge nem da religião nem da moral, será referencial deste novo comportamento.

IHU On-Line - Você fala num novo "eu". Michel Maffesoli, no prefácio de seu livro, fala que o trabalho desenvolvido encaixa-se na pós-modernidade. De que formas esse novo “eu”, inserido nesse contexto, pode "resolver" os problemas do mundo, como aqueles que prejudicam o meio ambiente e a sociedade, como a poluição e a violência?

Elza Pádua – Este novo EU, que começa a surgir, é fruto da exaustão, de uma saturação, na qual nos encontramos, como que submersos. Acho que um novo olhar é necessário. Não confio nem nos vitimosos nem nos rebeldes em excesso, mas sim no equilíbrio. Eu diria: “Vamos parar de chorar o que poderia ser, parar de ser niilistas, só pensando em preto-e-branco, em bom e mau”. Devemos tentar conviver com “A  parte do diabo” nossa e com a dos outros, como algo que  todos temos e somos, sem grandes espantos e julgamentos densos. Trabalhemos a arte do  possível, passando batido pelas coisas que não podemos resolver. Isso parece-me saudável, sem confundir com conformismo e sem perder o nosso  centro. Já que nos sabemos em processo, vamos iniciar uma nova construção. Esta vida não é um ensaio. Também não porque sejamos “bonzinhos”, mas por não termos escolha. E, como eu acredito que estas ações não mais pertencem à esfera do indivíduo, mas sim à toda a sociedade, precisamos pensar em termos coletivos.

IHU On-Line - A esquizofrenia social tem cura? Se sim, qual seria a ideal?

Elza Pádua - A esquizofrenia social nasce no berço, de pais perversamente despreparados, de uma sociedade com valores cruéis ou sem valores. Mudar isso é uma questão de urgência, se pretendemos ainda ter alguma possibilidade de viver com qualidade o futuro próximo. Não se trata de uma busca do ideal, mas do equilíbrio. Podemos tentar dar mais e melhor atenção ao nosso entorno. Podemos criar uma nova onda, por exemplo, considerando como “brega” o desapreço pela criança e ao seu futuro. Podemos lidar com a consciência da necessidade de políticas públicas que protejam a infância e a formação dos nossos cidadãos, sem que isso pareça pieguice, jogo de poder, hipocrisia ou mesmo algo messiânico. Da mesma forma com que já se conseguiu implantar uma certa indignação social em relação às questões ecológicas. Vamos trazer a pessoa para o centro deste movimento a favor de uma ecologia ainda maior.

Notas:

(1) O Grupo Abril é um conjunto de empresas brasileiras, com sede em São Paulo do ramo das comunicações. O grupo é proprietário de algumas editoras, entre elas a Editora Abril, responsável pela revista Veja, por exemplo, e tem participação em outras áreas.

(2) A revista Veja é uma revista semanal brasileira publicada pela Editora Abril. Sua primeira edição foi publicada em 1968, e foi criada pelos jornalistas Victor Civita e Mino Carta. Com uma tiragem superior a um milhão de exemplares, Veja é considerada a revista de maior circulação no Brasil, e a quarta maior no Mundo.

(3) Jean Baudrillard foi um sociólogo e filósofo francês. Sociólogo, poeta e fotógrafo, este personagem polêmico desenvolve uma série de teorias que remetem ao estudo dos impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. Partindo do princípio de uma realidade construída (hiper-realidade), o autor discute a estrutura do processo em que a cultura de massa produz esta realidade virtual.


(4) Jorge Duílio Lima Meneses, ou Jorge Benjor, é um guitarrista,cantor e compositor popular brasileiro. A música de Jorge Ben tem uma importância única na música brasileira por incorporar elementos novos no suíngue e na maneira de tocar violão, trazendo muito do soul e funk norte-americanos e ainda com influências árabes e africanas, que vieram através de sua mãe, nascida na Etiópia.

 

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Esquizofrenia social: "loucura que assola a humanidade". Entrevista especial com Elza Pádua - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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