Abolir o sacerdócio não salvará a Igreja Católica. Artigo de Thomas Reese

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24 Mai 2019

“O clericalismo é simplesmente a manifestação na Igreja de tentações muito humanas que estão presentes em todas as organizações: ambição, orgulho, arrogância e abuso de poder. Apenas estamos chocados por encontrar isso também na Igreja.”

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um artigo publicado na edição de junho da revista The Atlantic, intitulado Abolish the Priesthood [Abolir o sacerdócio], James Carroll oferece uma análise instigante do estado da Igreja Católica, relatando a história da crise dos abusos sexuais na Igreja com um foco especial em Boston, na Irlanda, no relatório do Grande Júri da Pensilvânia e em Theodore McCarrick.

Nada disso é novo, é claro, mas ver tudo isso junto deprime e irrita o leitor pelo fato de tais coisas terem sido possíveis na Igreja.

O culpado também não é novo, na opinião de Carroll. Ele aponta para o clericalismo, sendo “tanto a causa subjacente quanto o capacitador permanente da atual catástrofe católica”.

“O clericalismo, com seu culto ao sigilo, a sua misoginia teológica, a sua repressão sexual e o seu poder hierárquico baseado em ameaças de um além aterrador está na raiz da disfunção católica romana”, de acordo com Carroll. “A obsessão do sistema clerical com o status frustra até mesmo os méritos dos bons padres e distorce a mensagem do Evangelho de amor abnegado, que a Igreja foi estabelecida para proclamar”.

Foi o clericalismo que azedou as relações de Carroll com a Igreja e o levou a abandonar o sacerdócio há 45 anos. Agora, ele quer que o sacerdócio seja abolido totalmente.

O Papa Francisco também apontou para o clericalismo como uma causa das falhas da Igreja, mas ele não é poupado na análise de Carroll. Carroll ficou escandalizado com a alegação de Francisco, durante a sua visita em agosto de 2018 à Irlanda, de que até então não sabia nada sobre as “lavanderias de Madalena” ou o seu escândalo. “O Papa Francisco está mentindo”, foi o pensamento que passou pela sua cabeça na época. Agora, Carroll reconhece que Francisco pode ter sido meramente ignorante, mas “estar desinformado sobre o escândalo de Madalena, que fervilhava há muito tempo, é tão ruim quanto”.

Carroll afirma que o clericalismo tem suas origens não no Evangelho, mas nas atitudes e na estrutura organizacional do Império Romano. Ele, assim como muitos antes dele, vê os primeiros cristãos como parte de uma comunidade pura, amorosa e não hierárquica que, mais tarde, foi corrompida pela sua aliança com o imperador Constantino.

Embora haja alguma verdade nessa teoria, o clericalismo tem raízes mais profundas e mais antigas na condição humana. Em Mateus 20, ouvimos a mãe de Tiago e João pedindo a Jesus para “ordenar que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”.

O fato de isso não ter sido simplesmente ideia dela é esclarecido por Mateus, que nos diz que “os dez outros, tendo ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos”.

E Marcos 9 nos diz que Jesus teve que vociferar contra os Apóstolos por terem discutido sobre quem era o maior entre eles.

O clericalismo já estava presente entre os Doze muito tempo antes de Constantino.

Nem o Pentecostes curou os Apóstolos do seu clericalismo. De acordo com Atos 6, os diáconos surgiram porque os Doze pensavam que eles estavam acima do serviço às mesas. “Não está certo que nós deixemos a pregação da palavra de Deus para servir às mesas.”

O clericalismo é simplesmente a manifestação na Igreja de tentações muito humanas que estão presentes em todas as organizações: ambição, orgulho, arrogância e abuso de poder. Apenas estamos chocados por encontrar isso também na Igreja.

É por isso que abolir o sacerdócio não salvará a Igreja. Assim como em toda revolução, haverá um período de euforia seguido pelo caos, e depois um novo quadro substituirá a velha guarda. Vemos isso acontecer de tempos em tempos no mundo religioso e político.

Aqueles que acreditam que os procedimentos democráticos romperão esse ciclo nunca foram a uma reunião paroquial contenciosa. Eles também não conseguem explicar por que a democracia, que está funcionando tão mal hoje nos Estados Unidos e no restante do mundo, funcionará magicamente bem na Igreja. Lembre-se: metade dos católicos votaram no presidente Trump.

Em colunas anteriores, escrevi extensivamente sobre a necessidade de uma reforma estrutural na Igreja. Sou favorável ao celibato opcional para padres católicos e às mulheres-padre.

Pode até fazer sentido separar o sacerdócio cultual do poder administrativo na Igreja. Mas Francisco está correto em dizer que somente uma mudança fundamental nas atitudes e na cultura eclesiais salvará a Igreja. Isso não é fácil, mas os apelos à conversão estão no cerne da mensagem do Evangelho. No fundo, é isso que a Igreja deve ser.

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