O mundo vive uma insurgência da sociedade civil contra as elites que se eximem da responsabilidade por seus atos. Entrevista especial com Martim Vasques da Cunha

Manifestações no Brasil | Foto: Divulgação

Por: Patricia Fachin | 22 Março 2019

Enquanto parte da imprensa e alguns intelectuais explicam e associam a eleição de Trump nos EUA ou a de Bolsonaro no Brasil à emergência da extrema direita no poder, o filósofo e escritor Martim Vasques da Cunha tem outra hipótese: “O que existe é uma insurgência da sociedade civil, em seus respectivos países, contra uma elite que se isolou do povo e que não coloca mais o skin in the game [o seu na reta], deixando de assumir a responsabilidade direta por seus próprios atos ou como suas ideias atingem a população”, afirma. Segundo ele, “ainda não conseguimos ver isto porque estamos bem no olho do furacão de um processo histórico”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Cunha comenta a atuação da direita no Brasil, que está dividida entre aqueles que apoiam e aqueles que criticam o presidente Jair Bolsonaro. “Existe uma ‘direita-cachecol’ que, alijada dos círculos do poder porque o PSDB não conseguiu vencer a eleição, critica Bolsonaro porque não conseguiu o seu carguinho público – e é incapaz de entender o que realmente aconteceu, preferindo continuar com suas abstrações e seus esnobismos”. De outro lado, menciona, os integrantes da direita que se opõem a Bolsonaro “fazem isto por uma única razão: eles concordam com todos os pontos do diagnóstico do presidente, mas sabem que ele está usando de todos os meios absolutamente equivocados para que se tenha alguma solução eficaz, prudente e realista desses problemas”. E alfineta: “Agora que a direita finalmente chegou ao poder – ou seja, ela está dentro do mesmo Estado que antes combatia –, essas facções se romperam entre si. O que surgiu foi algo medonho: a submissão da consciência individual diante da ‘querela do estatismo’, para usar o termo de Antonio Paim, na qual o militante direitista de outrora transformou-se no perfeito funcionário público”.

Martim Vasques da Cunha também comenta a influência de Olavo de Carvalho no novo governo e a atuação de Bolsonaro nos primeiros meses à frente da presidência. “Jair Bolsonaro é um sujeito preocupado somente com sua sobrevivência política, não com um projeto de país, e usa dessa agitação para criar uma cortina de fumaça, com o intento de distrair a população da sua absoluta incompetência como presidente da República. O povo que vive fora das redes sociais não é trouxa, já percebeu isso e, se ele não mudar o rumo rapidamente, o final não será nada bonito – principalmente para todos nós”.

Martim Cunha (Foto: Reprodução | Youtube)

Martim Vasques da Cunha é doutor em Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo - USP, com a tese "Violência e Epifania: a liberdade interior na filosofia política de John Milton", e mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Foi também um dos criadores e editores da revista cultural "Dicta&Contradicta". Colabora com o Jornal Rascunho, de Curitiba, e é autor dos livros Crise e Utopia: O dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória - Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Editora Record). Atualmente, faz pós-doutorado na Fundação Getulio Vargas - FGV-EAESP com o tema de pesquisa "Tudo o que sobe converge?: Uma análise das narrativas na 'Guerra da Banda Larga”.


Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como poderíamos caracterizar um pensamento ou uma posição política de direita? Quais são seus fundamentos teóricos?

Martim Vasques da Cunha - Isto depende das circunstâncias locais ou históricas de cada país. Não existe uma direita abstrata, assim como não existe uma esquerda abstrata. Cada ideologia pode ter suas características comuns, mas elas dependem muito do ambiente onde se desenvolveram.

Desse modo, se aplicarmos o pensamento da direita no ambiente cultural brasileiro, em especial nos últimos anos, podemos encontrar um denominador comum em suas variações: a oposição do indivíduo diante do crescimento exponencial do Estado na vida privada de cada cidadão, seja no aspecto da moral, da economia e do direito. É simplesmente este tipo de atitude que uniu os diferentes prismas daquilo que chamamos de “direita” – e que poderia ser resumido como uma ação “anti-petista”, já que o PT conseguiu a proeza de ser e sintetizar todas essas interferências nocivas. Agora que a direita finalmente chegou ao poder – ou seja, ela está dentro do mesmo Estado que antes combatia –, essas facções se romperam entre si. O que surgiu foi algo medonho: a submissão da consciência individual diante da “querela do estatismo”, para usar o termo de Antonio Paim, na qual o militante direitista de outrora transformou-se no perfeito funcionário público.

IHU On-Line - No interior do espectro político da direita, usualmente faz-se distinção entre liberalismo (econômico) e conservadorismo. Como essas posições se aproximam e se distanciam?

Martim Vasques da Cunha - Elas parecem ser próximas porque, na superfície, ambas defendem o indivíduo contra a máquina burocrática e opressiva do Estado. Mas, na verdade, são infinitamente distantes porque o conservadorismo ainda acredita, mesmo que de maneira funcional, numa “ordem sagrada” enquanto o liberalismo é uma ideologia política que deforma e reduz as tensões da realidade porque ele é incapaz de perceber qualquer espécie de transcendência na condição humana.

IHU On-Line - Alguns avaliam que a modernidade apresenta problemas que interferem nas dimensões política e social. Você concorda com isso? Se sim, como esquerda e direita oferecem respostas a tais questões?

Martim Vasques da Cunha - A modernidade é um fato, ponto final. Ou você a aceita, ou você cria realidades alternativas para suportá-la. Se eu gosto da modernidade? Não sei, porque eu sou o fruto dessa modernidade que nós, modernos, ironicamente não gostamos. É impossível evitá-la. O problema é que a esquerda quer superar a modernidade olhando para um futuro justificado por uma ideia, enquanto a direita quer esquecer a sua existência recuando para um passado nostálgico. Ambas as alternativas são impraticáveis. Quem acreditar nelas não terá um fim glorioso, como ambas essas ideologias esperam.

IHU On-Line - Políticos de direita geralmente são criticados por não terem uma preocupação com a política social. Essa crítica tem fundamento? Como uma posição de direita se manifesta acerca das questões sociais?

Martim Vasques da Cunha - No Brasil, a direita tem, sim, uma preocupação social, mas ela vem apoiada num questionamento dos costumes morais. A economia vem em segundo lugar. Foi dessa maneira que o PT conquistou os corações e mentes, colocando a posição social na vanguarda – e tudo leva a crer que Bolsonaro também foi obrigado a entender isso, senão jamais ganharia as eleições. Portanto, hoje, a direita e a esquerda se igualam ao privilegiarem o discurso tecnocrata em detrimento do discurso moralizador. Vivemos em uma plena “tirania dos especialistas”.

IHU On-Line - É correto dizer que está havendo um ressurgimento da direita no mundo nos últimos anos? Se sim, quais fatores contribuíram para tal fenômeno?

Martim Vasques da Cunha - Quem fala em “ressurgimento da direita” são os intelectuais e os jornalistas de esquerda que, em geral, não entendem nada sobre o que realmente acontece no mundo. Não existe nada disso. O que existe é uma insurgência da sociedade civil, em seus respectivos países, contra uma elite que se isolou do povo e que não coloca mais o skin in the game [o seu na reta], deixando de assumir a responsabilidade direta por seus próprios atos ou como suas ideias atingem a população.

Ainda não conseguimos ver isto porque estamos bem no olho do furacão de um processo histórico, mas o que estamos a testemunhar é a mudança de uma “revolta das elites”, geralmente lideradas por pessoas da esquerda que defendiam uma quadrilha de criminosos absolutamente inescrupulosos (e que saquearam o país), por uma “revolta do subsolo” caracterizada como “de direita” porque as nossas referências teóricas fazem parte do ambiente esquerdista – mas que, no fundo, deseja se manter no status quo, assim como os seus antecessores.

IHU On-Line - Quais são as diferenças e semelhanças entre os governos de direita norte-americano, italiano, polonês e húngaro?

Martim Vasques da Cunha - Donald Trump não é de direita; como bem observou o Scott Adams, ele é um negociador que simplesmente quer fazer negócios com outras nações, usando o governo americano como uma espécie de escudo protetor – e que entendeu que a democracia não passa de uma ilusão cognitiva criada por nós para assim acreditarmos que a política tem alguma racionalidade; quanto aos outros governos, não posso dar a minha opinião porque não sei nada a fundo sobre eles.

IHU On-Line - Por que, no imaginário popular, governos de direita são associados a regimes totalitários?

Martim Vasques da Cunha - Porque a esquerda conseguiu manobrar a sensibilidade deste imaginário popular, fazendo-o esquecer que ela também teve a sua parcela de governos totalitários. O totalitarismo é algo que sempre existirá quando as ideologias políticas, independentemente de serem de esquerda ou de direita, quiserem impor o seu reducionismo na nossa percepção do real, pois o seu desejo é nada mais, nada menos que alterar a natureza humana por completo.

IHU On-Line - No artigo “Dois caminhos para a direita francesa”, publicado recentemente na revista Piauí, Mark Lilla apresenta a nova direita francesa como uma terceira via à esquerda e à direita tradicional, e aponta semelhanças entre o pensamento dos novos intelectuais de direita franceses com a doutrina social da Igreja. Como você avalia essa nova direita? Em que aspectos ela se apresenta como uma terceira via?

Martim Vasques da Cunha - A nova direita francesa é uma síntese alucinada de um catolicismo ultramontano que nos remete a Charles Maurras, de um nacionalismo que mistura De Gaulle e Pétain e de um charme cosmopolita que Marine Le Pen tenta capturar com algum sucesso (ainda não conseguiu isto). Ela jamais foi a terceira via de coisa alguma, assim como isso nunca foi o intento de um Emmanuel Macron.

A França está numa berlinda porque, na prática, ela precisa prestar contas à Alemanha, sua maior inimiga cultural, por causa daquela monstruosidade burocrática chamada União Europeia. E, de quebra, tem o problema da imigração, que, pelo jeito, já dominou a maioria da população naturalmente gaulesa. Está tudo pronto para o ressurgimento de novos jacobinos que liderarão uma nova Revolução Francesa. Só basta acender o pavio. Pelo que me parece, é precisamente isto o que está acontecendo com esse pessoal das “jaquetas amarelas”.

IHU On-Line - Durante os governos Lula e Dilma, parte da esquerda se descolou do lulismo com o discurso de que um governo de esquerda deveria tomar outras posições, propondo, então, alternativas no mesmo espectro político. Após a eleição de Bolsonaro, é possível dizer que esse mesmo movimento se repete com grupos de direita que querem se descolar do bolsonarismo?

Martim Vasques da Cunha - A esquerda jamais quis se descolar do lulismo. Ela está presa nele até hoje, e com nenhuma perspectiva de encontrar um novo discurso. A prova disso é Ciro Gomes, que odeia Lula, mas o imita sem hesitar. Ou então Marcelo Freixo, ou Guilherme Boulos, que parecem incorporar os mesmos trejeitos de fala ou raciocínio.

Já sobre o descolamento que você alega que uma parte da direita está fazendo em relação ao Jair Bolsonaro, é fundamental observar dois pontos. O primeiro é que existe uma “direita-cachecol” que, alijada dos círculos do poder porque o PSDB não conseguiu vencer a eleição, critica Bolsonaro porque não conseguiu o seu carguinho público – e é incapaz de entender o que realmente aconteceu, preferindo continuar com suas abstrações e seus esnobismos. O segundo ponto é que os que se opõem ao Bolsonaro fazem isto por uma única razão: eles concordam com todos os pontos do diagnóstico do presidente, mas sabem que ele está usando de todos os meios absolutamente equivocados para que se tenha alguma solução eficaz, prudente e realista desses problemas. Acredito que Bolsonaro é absolutamente incapaz de liderar o Brasil porque ele tem uma disposição jacobina e resolveu se cercar de pessoas com o mesmo tipo de sensibilidade perigosa.

IHU On-Line - Que matizes você identifica entre os diferentes grupos de direita hoje no Brasil? Existe uma convergência na direita brasileira ou existem diferentes grupos? O que os diferencia?

Martim Vasques da Cunha - A grande diferença entre os grupos de direita no Brasil dos nossos dias é a seguinte: existem aqueles que não querem ter um carguinho e aqueles que venderam a sua consciência por um carguinho – ou, no pior dos casos, na promessa de alguma sinecura.

IHU On-Line - Como esses diferentes grupos de direita estão se posicionando acerca do novo governo?

Martim Vasques da Cunha - Da pior maneira possível: cada um adulterando a sua voz interior para serem porta-vozes de um projeto de poder.

IHU On-Line - Em geral, a direita brasileira é associada aos posicionamentos de algumas bancadas temáticas. É possível dizer que a direita no Brasil se reconhece totalmente nas pautas e agendas de bancadas como as da bala, do agronegócio e da Bíblia?

Martim Vasques da Cunha - Não. A banca BBB faz parte do patrimonialismo tradicional que existe no Brasil desde os tempos do Rei. Não tem nada a ver com a direita surgida com a leitura de autores como Michael Oakeshott, Olavo de Carvalho, Roger Scruton, João Pereira Coutinho, e outros.

IHU On-Line - Muitos analistas avaliam que o novo governo parece estar mais preocupado em fazer “agitação político-ideológica” do que apresentar metas para tratar dos problemas reais do país. Concorda com essa crítica? Por que isso acontece?

Martim Vasques da Cunha - Sim, concordo. E isso acontece porque Jair Bolsonaro é um sujeito preocupado somente com sua sobrevivência política, não com um projeto de país, e usa dessa agitação para criar uma cortina de fumaça, com o intento de distrair a população da sua absoluta incompetência como presidente da República. O povo que vive fora das redes sociais não é trouxa, já percebeu isso e, se ele não mudar o rumo rapidamente, o final não será nada bonito – principalmente para todos nós.

IHU On-Line - Qual foi a influência de Olavo de Carvalho na eleição de Bolsonaro?

Martim Vasques da Cunha - Nenhuma. Bolsonaro já era um fenômeno eleitoral e de redes sociais antes de Olavo começar a apoiá-lo. Lembre-se que, em 2015, ele disse que Denise Abreu era a melhor opção, depois tentou agradar o Ciro Gomes (que logo o dispensou) e só no final de 2015 começou a acenar para o Bolsonaro. A aliança acontece definitivamente em 2016, depois das visitas dos filhos Flávio e Eduardo, em especial este último, que se transformou em um fiel zelota. Nessa época, Jair já deveria ter uns 10 a 12 milhões de votos. Não venceria uma eleição presidencial, mas lhe daria cacife político. Quando a eleição realmente começa, em 2018, Lula já tinha sido preso, a imprensa resolveu tratar Bolsonaro como se fosse uma excentricidade – e tudo isso lhe deu uma margem folgada de uns 20 a 30 milhões. Então veio a facada – em conjunto com as manifestações da esquerda com o slogan “Ele Não”. Foi ali que ele explodiu como um fenômeno que já era reprimido. Olavo apenas foi um parasita que se agarrou a Bolsonaro para enfim praticar o seu sonho de ser uma Autoridade Espiritual do novo governo de direita.

IHU On-Line - Como avalia a interferência de Olavo de Carvalho nos primeiros meses do novo governo?

Martim Vasques da Cunha - Um completo desastre. Olavo dá azar. Mas tem método: ele colocou dois ministros – um deles, Ricardo Vélez, que era um intelectual impecável, mas que terminará a sua vida como uma piada; e o outro, Ernesto Araújo, que quer brincar de Julius Evola do Itamaraty – justamente para que eles sejam os “testas de ferro” e assim os seus alunos se imiscuem na máquina burocrática do governo, usando essa estrutura para fortalecer ainda mais a “teia hierárquica” originada nas aulas do Curso Online de Filosofia. Neste ponto, a influência do assessor internacional da Presidência da República, Filipe G. Martins, e a de Eduardo Bolsonaro, são fundamentais para o sucesso desse projeto.

IHU On-Line - Qual é a relação entre Olavo de Carvalho e a nova direita no Brasil?

Martim Vasques da Cunha - Sem dúvida, ele tem um papel importante, mas o que as pessoas não sabem é que quem o tirou do anonimato foi o poeta Bruno Tolentino. Foi ele quem o forçou a escrever sua magnum opus O Jardim das Aflições e os outros livros de “crítica cultural”, entre eles O Imbecil Coletivo. A diferença é que, com o passar do tempo, Olavo se deixou seduzir pelas sereias do poder, enquanto Bruno se isolou de tudo e de todos, dando os últimos toques nos seus poemas e cuidando de sua saúde alquebrada, até falecer em 2007. Sem Bruno Tolentino, não haveria nova direita brasileira, com certeza – mas o mais interessante é que a sua obra poética tem uma força impressionante para ser o antídoto aos exageros que Olavo de Carvalho quer impor à sociedade brasileira.

(Esclarecimento: sou um dos responsáveis por cuidar do espólio de Bruno Tolentino, junto com Guilherme Malzoni Rabello, Renato José de Moraes, Juliana Perez e Jessé Primo.)

IHU On-Line - A que movimentos a direita deveria estar atenta, tendo em vista seu desejo de se consolidar politicamente no país?

Martim Vasques da Cunha - A direita precisa aprender que quem manda no país é a sociedade civil, que tem uma capacidade moral de entender o que está em risco muito mais aguçada do que qualquer intelectual orgânico do bolsonarismo. E, por isso mesmo, deve ter humildade. A esquerda foi pelo mesmo caminho e se deu mal. Não será diferente com os militantes do bolsonarismo, amparados pelos olavianos de plantão, se persistirem nesta trilha.

 

 

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