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12 Outubro 2018

"Esse tipo de discurso está baseado numa comunhão de afetos, e não de um programa de governo, e explicações de como as coisas vão ser feitas, e é o que a gente tem encontrado na retórica dos políticos de extrema-direita", escreve Anderson Neves de Souza, religioso franciscano e estudante de filosofia.

Eis o artigo. 

Nós ouvimos pelo Brasil, o crescimento de um discurso de ódio, por um grupo que se diz "direita conservadora" é um discurso que clama, pelo porte legal de armas, o fim dos direitos humanos, pena de morte, discursos com teor de preconceitos raciais e de gêneros. Uma pergunta que penso ser pertinente, a ascensão da figura de Bolsonaro, o discurso de ódio que ele representa, seria uma resposta aos movimentos sociais de esquerda, ou seria algo, além disso?

É uma excelente pergunta a ser feita tendo em vista, nossa atual situação no Brasil. esse fenômeno já descrito, na obra do grande pai da psicanálise Sigmund Freud "a psicologia das massas e análise do eu"[1], Freud destaca que uma das estratégias que esse grupo usa para aumentar a coesão grupal ,em momentos como que a gente está vivendo, de anomia social, de insegurança, desesperança, desalento, de pessoas desistindo de procurar emprego, da violação de expectativa, o país tinha crescido, tinha dado um passo à frente, e está agora regredindo em números e indicadores sociais, essa é a situação ideal para uma situação de fragilização, de nosso sentimento de pertencimento, e também para nosso sentimento expectativa de futuro. A ligação de passado e futuro está presente nesses momentos, e torna-se tentador reforçar, a pertinência das pessoas aos seus grupos, seja grupos religiosos, esportivos de classes, grupos conservadores, para animar o ódio ao inimigo que estaria causando essa situação desestabilizante. Na Alemanha nazista foram os judeus, nos Estados Unidos na época do macarthismo, eram os comunistas, na Europa contemporânea foram os imigrantes.

Freud nos mostra que para manter a coesão grupal, do qual para sentirmos que estamos seguros, precisamos de um "inimigo comum”; isso reforça os laços de fraternidade. E é exatamente o que faz os grupos de extrema direita, aponta os grupos de esquerda, como esse inimigo comum. Um texto interessante do filosofo alemão Theodor Adorno “a teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”[2], nesse texto Adorno vai mostrando como, a ascensão do fascismo responde a uma certa instrumentalização de frustrações e decepções com as instituições, as pessoas são incitadas a valorizarem o que Adorno chama de ”um pequeno grande homem”, aquela pessoa que fala como qualquer um, que aparece como autêntico, ele fala o que pensa, achando que pode agredir os outros, diminuir os outros, pois ele não faz teatro, ele está dizendo a verdade.

Em um diálogo sobre os fatos vemos esse tipo de personagem, no debate de televisão quando é feita uma pergunta que ele não gosta, ao invés de responder, ele ataca quem fez a pergunta. Diz que vai resolver os problemas de corrupção e segurança do país, quando destruir os pequenos grupos geralmente minoritário, que muitas vezes é visto como uma espécie de fantoche ou espantalho. Ha uma grande distorção das ideias do outro, ou do grupo oponente, que ficam de tal maneira tão deformada, que só podem então, ser objeto de ódio. e aquelas pessoas que não concordam com as ideias do “pequeno grande homem” que não pertence a esse grupo, que não fazem parte dessa massa, elas só podem ser consideradas, pessoas irracionais ou então pessoas corruptas, porque ou elas estão de alguma coesas com o “pequeno grande homem” ou estão de forma conectadas com aquele grupo Invasor que é laranja podre que destrói a ordem e harmonia, é por isso que esse tipo de discurso vai enfatizar Justamente a ideia de retomar a ordem.

Isto incita as fantasias infantis, de quando éramos pequenos e acreditávamos sem restrições, no poder protetor de um pai soberano, que pode ser amado mas muito tímido, um pai em quem a gente se renuncia o nosso livre arbítrio e a nossa capacidade de pensamento próprio crítico, então confiamos cegamente nele. Esse tipo de discurso está baseado numa comunhão de afetos, e não de um programa de governo, e explicações de como as coisas vão ser feitas, e é o que a gente tem encontrado na retórica dos políticos de extrema-direita, quando se pergunta sobre a economia, ele diz “esse não é o nosso caminho não sou economista fala com o meu economista” quando é perguntado sobre educação dispara: ”eu não entendo de educação eu vou escolher os melhores para tal” O que ele está dizendo quando diz “eu vou escolher os melhores”? Esta simplesmente dizendo, que ele é o pai e que esta fazendo o melhor. Esse é um discurso muito cativante, porque na hora que estamos desamparados, na hora estamos aflitos e angustiado, a figura do pai protetor, é uma espécie de retorno das experiências infantis, por isso esse tipo de discurso infantiliza o eleitorado, o que torna o debate muito difícil, Pois enquanto os outros estão querendo, tornar as coisas mais complexas, analisando caso a caso, o “pequeno grande homem” esta dizendo: ” o que essa pessoa está dizendo não é a causa do problema a causa do problemas são as minorias que querem desarmonizar nossa pátria”.

O Freud descreveu este processo em “psicologia das massas e análise do eu”, como se um objeto real ocupasse aquela nossa posição do ideal do “eu”, aquela pessoa que diz assim: “se eu pudesse ser alguém na vida, quem gostaria de ser? Os meus espelhos né meu pai, minha mãe, às pessoas que eu respeito, as pessoas mais velhas”, então ao se colocar como o objeto dessa maneira, ele mobiliza esse tipo de afeto, um afeto que divide a política, entre amigos e inimigos, é o que seduz muito facilmente, aquela população que justamente está tomada pelo desalento, pela desesperança, e por isso esses momentos, Como foram os momentos da ascensão do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha e stalinismo na União Soviética, aquela adoração por um líder condutor das massas, alguém que resolva os problemas por mim, isso é muito característico de uma posição infantil, de pessoas que esperam um herói messiânico que salve a nação dos vícios que acompanham o homem desde a criação do universo.

Referências:

[1] Freud, S. (2011). Psicologia das massas e análise do Eu. In S. Freud. Obras completas (P. C. de Souza, trad., vol. 15, pp. 13-113). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1921).

[2] ADORNO. “A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”. In: Margem esquerda – Ensaios Marxistas, v. 7. Boitempo Editorial, 2006.

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