“Na reorganização do neoliberalismo, a extrema-direita apresentou um projeto. E as esquerdas?” Entrevista com Ricardo Antunes

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16 Janeiro 2019

Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República e seus primeiros dias de mandato deixam claro que sua agenda política é uma radicalização daquela executada por Temer. Na primeira entrevista de 2019, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, que acaba de publicar O privilégio da servidão – o novo proletariado de serviços na era digital (Editora Boitempo), e faz uma dura análise do atual estágio político e ideológico sobre os setores que deveriam fazer o contraponto ao projeto de uma direita de evidentes traços autoritários e excludentes.

Na conversa, Antunes aponta para o caminho de destruição total do mundo do trabalho ofertado pelo novo governo, o que mal foi disfarçado em sua campanha eleitoral. E constata que apesar da forte votação o PT já não tem condições de liderar as lutas sociais no Brasil. “O partido terá de abdicar de qualquer hegemonismo nas esquerdas. Poderá ser um partido de centro-esquerda parlamentar, capaz de votar contra projetos que ataquem direitos do mundo do trabalho e setores vulneráveis da população. Mas nem com isso devemos ter ilusões. Que ninguém espere que o parlamento seja a barreira contra a tragédia anunciada de Bolsonaro”. 

Tal como aponta em seu livro, Antunes afirma reiteradamente as novas facetas dos movimentos que se opõem ao capitalismo e suas políticas econômicas, reorganizadas em escala global. “Precisamos de organização social e política autônoma, de base e classe, formada com espírito anticapitalista, coisa que o PT no poder ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na combinação das lutas de resistência em todos os espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de emancipação social e política. O calendário das oposições não pode mais ser o calendário das eleições”.
 
Sobre este reordenamento mundial, o sociólogo explica: “estamos num período de tripé devastador: hegemonia profundamente destrutiva do capital financeiro, uma pragmática neoliberal que não tem mais nenhum limite e uma reestruturação produtiva do capital que por sinal é permanente. O mundo informacional-digital sob comando do capital financeiro sabe que não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas sabe que pode depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for realizado, sem descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo tais trabalhadores e trabalhadoras de novos proletários da era digital”.

No entanto, é enfático em afirmar que tal modelo de capitalismo inevitavelmente produzirá uma grande massa de rebelados, dado o rebaixamento das condições de vida e enorme concentração de renda que garantirá a seus donos. 

A entrevista é de Gabriel Brito, publicada por Correio da Cidadania, 11-01-2019.

Eis a entrevista.

O que esperar do governo de Jair Bolsonaro e seu perfil de extrema-direita, refletido, para além da histriônica figura presidencial, na equipe de trabalho? O que esperar para o chão social brasileiro em 2019?

O que pode ser dito de imediato é que entramos num tempo de completa imprevisibilidade. Sabemos que Bolsonaro surfa num momento de ascensão da extrema-direita. Não falamos da direita neoliberal tradicional, dominante em especial nos países de capitalismo avançado de forma quase inquestionável, com suas variantes neoliberal pura ou social-liberal, como no fundo são os socialistas europeus.

O Bolsonaro surfa nesta onda, que, à diferença do neoliberalismo, tem uma construção menos globalista e mais nacional. O Trump é fundador deste projeto. Mas uma coisa é ter um projeto de reposição dos EUA no mundo global, outra coisa é o papel do Brasil. As diferenças são fundantes: um é o centro, o império do capitalismo, o outro é um país da periferia, importante, mas um país que depende do comércio com a China, os EUA, a Europa, a Argentina. Isso torna tal governo imprevisível. 

Politicamente, parece não haver dúvida de que será extremamente conservador, protofascista e que em seu ideário podemos caracterizar como profundamente antipopular, antissocial, anticlasse trabalhadora. Bolsonaro deixou claro que vai avançar na informalidade do mundo do trabalho. Seu projeto de carteira de trabalho verde amarela é ultraortodoxo no sentido neoliberal.

Portanto, para o cotidiano das pessoas só podemos esperar o pior possível. Mas ele deixou isso claro em sua campanha eleitoral, anunciou o desmonte completo da classe trabalhadora, coisa que Temer em seus dois anos já fez amplamente, com a Reforma Trabalhista, a lei da terceirização total e a permissão da terceirização ampla e quase irrestrita no setor público. 

O que esperar dessa combinação de liberalismo econômico extremado e um governo de traços protofascistas?

O governo, para além de seu “mito”, já mostra em seus primeiros passos ser eivado de tensões e contradições em seu interior. Traz uma política ortodoxa capaz de fazer a Margaret Thatcher revirar-se em seu túmulo. De um lado traz uma liderança que surfou em cima de uma onda ultraconservadora e de um enorme desencanto da população com a falência do projeto de conciliação de classes do PT

Teve um “líder” que soube se utilizar das campanhas anticorrupção pra converter o PT no inimigo central do país como se este fosse o criador da corrupção e que participou de apenas um debate televisivo, logo no começo da campanha. E mesmo quando estava em condições de aparecer nos debates não o fez, fazendo sua vacuidade política não aflorar com a intensidade que já aflora, como na sua incapacidade de indicar alguma equação para questões de economia, saúde, educação... 

O vazio do seu ideário é compensado pelo ódio às esquerdas, aos movimentos populares, aos LGBTs, aos indígenas, às mulheres, aos negros... O elemento complicador é a cunha militar muito forte dentro do governo. O vice, ao que parece, foi uma imposição das forças armadas, um sinal de ser preciso alguém de confiança para dar comedimento e mesmo um contraponto ao tom intempestivo ao “líder” vitorioso nas urnas. 

É o neoliberalismo levado ao limite, com mais privatização, mais concentração de renda, mais enriquecimento das burguesias, mais empobrecimento das classes trabalhadoras, mais informalidade do trabalho, coisa que Bolsonaro insiste em defender...

Dessa forma, a combinação colocada pela pergunta apenas nos faz antever a multiplicação das possibilidades e tons do desastre econômico, social e político.

Já falamos em outras entrevistas sobre a dificuldade de recolocar o PT como grande liderança das lutas sociais e da classe trabalhadora depois de seus governos e opções políticas e econômicas. Mas também se trata da maior força de oposição, partido que mais elegeu deputados. Como você imagina a volta do PT à oposição, com todo seu desgaste entre setores populares e também nas alas progressistas da sociedade? 

O projeto de conciliação de classes do PT faliu. A medida do Bolsonaro de fechar o Ministério do Trabalho é mais do que emblemática. O Ministério do Trabalho foi criado em 1930 por Getúlio para ser um organismo a serviço da conciliação de classe. Ao extingui-lo, Bolsonaro mostra que não vem fazer a conciliação de classes, mas dar continuidade à contrarrevolução preventiva iniciada por Temer, que agora entra em período mais crítico, com a radicalização da Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência que visa jogar a população pobre na imprevidência. 

O PT recuperou certo fôlego por conta do desmonte ultraliberal do governo Temer. O partido saiu do governo Dilma sem força para fazer sequer uma greve de um dia por conta do impeachment ou contra a prisão de seu principal líder, Lula. Mesmo assim, se fortaleceu na reta final da eleição, entre outras coisas porque a população tem sua sensibilidade. É muito evidente: o governo do PT foi em seu conjunto desalentador para a classe trabalhadora, mas o governo Temer foi devastador. Assim, o PT ainda ganhou um voto de confiança de muita gente. Até figuras como Joaquim Barbosa e Rodrigo Janot declararam voto em Haddad, um amplo leque de tendências o fizeram, abstraindo o fato de o candidato ser do PT, diante do fato de no outro lado estar o inimigo maior, com cheiro de fascismo.

Mas as eleições já foram. Como fica o PT agora? Terá de fazer um acerto de contas profundo consigo mesmo, com o fenômeno do lulismo e sua pragmática. Isto é, aquela pragmática de um partido que sempre espera a decisão final de seu líder, entendido pela maioria de seus militantes como um gênio político infalível. O PT só terá chance de se recuperar se fizer uma profunda autocrítica em relação a este ponto. E não vejo condições para isso dentro do partido, especialmente porque sua cúpula é predominante e visceralmente lulista. Faço uma análise do PT que temos pela frente, independentemente das adversidades que o Lula padece na prisão, condenado sem provas materiais, como é de consenso considerável por todo um pensamento jurídico razoavelmente independente. 

A discussão a respeito da corrupção, que foi intensa nos governos do PT, é vital. Se não houver uma autocrítica em relação a isso... Até porque o partido nasceu com uma certa concepção udenista, dado que a UDN tinha um traço levemente liberal-democrático. Havia a ideia de que o PT seria capaz de acabar com a corrupção brasileira, mas terminou no mesmo lamaçal. Dito isso, o que o judiciário fez em relação ao Lula é outra questão. 

De todo modo, o resultado é que o PT não é mais líder, por definição ou vontade divina de seu líder, da oposição de esquerda no Brasil. As oposições de esquerda terão de se reinventar, e por fora do lulismo. Uma coisa é defender um julgamento até última instância e sua condenação a depender de provas materiais concretas. Outra coisa é praticar uma forma de lulismo mesmo fora do PT, que dificulta e impede o nascimento de uma esquerda social e política de perfil mais autônomo, ideologicamente mais consistente e que perceba que o desafio fundamental do próximo período é combinar uma resistência de perfil antifascista com um projeto de classe. Como já vemos na Hungria, onde houve uma manifestação muito importante contra o governo neofascista e xenofóbico que visa à devastação da legislação trabalhista do país.

Não que o PT deva ser excluído de tudo. Para algumas questões as esquerdas devem caminhar juntas, quando houver unidade básica. Se é contra a reforma trabalhista do Temer e sua radicalização pelo governo que entra, de devastação integral do mundo do trabalho, deve caminhar junta. Devemos ter a CUT e o PT em manifestação de oposição deste tipo. Até por ser importante diferenciar um pouco a cúpula dominante do PT de amplos setores do partido, que estão de fato descontentes. Não imagino que figuras como Tarso Genro e Olívio Dutra, com todas as diferenças marcadas pelo tempo, mas ainda lideranças muito respeitadas, não tenham nenhuma insatisfação com a tragédia desenvolvida pelo PT no último período. 

Existe um mosaico de movimentos sociais: MST, MTST, dos indígenas, das mulheres, dos LGBT, dos negros, da juventude, da periferia, uma miríade de movimentos sociais profundamente descontentes com a tragédia dessa contrarrevolução preventiva e o que implementará a partir de janeiro. 

O PT devia fazer o que tanto cobrou do PCB em relação a 1964 (a partir daquele golpe militar abriu-se um debate nas esquerdas, muitos saíram do PCB e foram para a luta armada etc.). Em poucas palavras, o debate era: o PCB cometeu erros “de esquerda” ou repetiu um traço constante desde 1945, isto é, desvios “de direita”, de colaboracionismo e conciliação de classes? 

Além desta autocrítica fundamental, o PT não vai poder ressurgir das cinzas sem pelo menos outras duas autocríticas fundamentais: a excessiva institucionalidade e apego ao calendário eleitoral e o distanciamento das classes trabalhadoras, como ficou claro no impeachment, quando nenhuma reação, nem por uma hora, pode ser realizada. A ponto de a prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos não ser marcada pela presença de operários, de gente que foi a base de sustentação do PT e Lula desde os anos 70. Estavam presentes o MTST, MST e outros movimentos sociais. A base metalúrgica não fez sequer uma greve ou resistência contra a prisão de Lula, o que mostra o imenso descontentamento em relação a seu líder do passado. 

O PT deve definitivamente abandonar a ideia de que é o epicentro da oposição brasileira. O partido e Lula não merece mais esse posto há muito tempo. Não lideram a classe trabalhadora mais. Ao longo da história mereceu, como nos anos 80, quando o partido liderava as lutas sociais, pois tinha como apoio um tripé espetacular: a classe operária industrial, amplos setores do campesinato e amplos setores da classe média assalariada. Por todas as modificações que tais setores sofreram ao longo de 30 anos, o partido já não tem o apoio majoritário de nenhum deles. O partido teve votação expressiva, mas tratou-se de um voto contra o Bolsonaro. Teve votação expressiva entre setores que ganham um ou dois salários e em especial no Nordeste.

No meu livro e vários artigos anteriores, aponto que a base de apoio do governo Lula mudou entre o primeiro e o segundo governos. Na medida em que perdeu apoio na massa sindicalmente organizada pela CUT e politicamente dirigida pelo PT, ganhou apoio das massas atingidas pelo Bolsa Família, que embora fosse um tipo de assistencialismo apoiado até pelo Banco Mundial, pelos traços de forte miserabilidade de seus beneficiários foi importante. Neste momento o Nordeste se tornou um pilar de sustentação do lulismo. Mas a classe trabalhadora industrial do Sudeste e do Sul passou a se afastar. A classe trabalhadora nordestina ainda ficou ao lado do PT, por motivos compreensíveis, pois vivenciou o desgaste completo que foi a devastação de Temer

O partido terá de abdicar de qualquer hegemonismo nas esquerdas. Poderá ser um partido de centro-esquerda parlamentar, capaz de votar contra projetos que ataquem direitos do mundo do trabalho e setores vulneráveis da população. Mas nem com isso devemos ter ilusões. Que ninguém espere que o parlamento seja a barreira contra a tragédia anunciada de Bolsonaro. Precisamos de organização social e política autônoma, de base e classe, formada com espírito anticapitalista, coisa que o PT no poder ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na combinação das lutas de resistência em todos os espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de emancipação social e política. O calendário das oposições não pode mais ser o calendário das eleições. 

Uma lição das rebeliões de junho que as esquerdas deveriam ter aprendido é que a população não crê na institucionalidade, em nenhuma de suas expressões. Naturalmente, não quero dizer que tais instrumentos não tenham nenhuma importância. Vimos que o STF agiu positivamente ao impedir ataques da extrema-direita institucional às universidades e suas expressões internas. Aliás, até a ditadura era mais cautelosa em fazer isso... 

De todo modo, as rebeliões de 2013 mostraram que os novos caminhos são mais plebiscitários, horizontais, extraparlamentares, anti-institucionais e não jogam todas as suas energias no judiciário. O judiciário está incapacitado para tanto... Ele reflete o plano da normatividade e as oscilações das confrontações da vida social, que vêm das ruas. 

Pelas declarações de suas principais lideranças não haverá essa tão propalada autocrítica. Aliás, falar nisso chega a parecer uma fuga da realidade.

Com tristeza, digo que não vejo a menor possibilidade desta autocrítica do PT. Mas muitos setores de base do partido, e até da direção, menos comprometidos com a trágica política que levou ao fim de seus governos, participarão de novos embates. 

É preciso extirpar o mito de Lula como grande líder e herói da classe trabalhadora, o infalível e insuperável. Neste sentido, o lulismo, tal como foi o prestismo no PCB, e como todos os movimentos por demais canalizados na figura de seu líder, a exemplo também da Venezuela, padecem do mesmo mal. O chavismo, que tantas mudanças positivas gerou na Venezuela, não foi capaz de formar lideranças que substituíssem Chávez. No Brasil, esse líder não tem mais condições de capitanear a luta por uma outra sociedade. Não vi até hoje uma única frase do Lula a questionar “onde nós erramos?”. Antes de ser preso, Lula dizia em seus palanques que queria de novo unir o país e acabar com o clima de tensão. Em que mundo ele vive? Num país pautado pelo racismo, o escravismo e a superexploração do trabalho, como podem se juntar forças tão díspares? Esse não e o país da conciliação, é o país da contradição visceral. 

É importante lembrar que a extrema direita politizou o debate eleitoral. Bolsonaro politizou o debate e ao contrário do que se falou da Dilma não cometeu o chamado estelionato eleitoral. Usou sua retórica contra a esquerda, disse que precisava rebaixar direitos do trabalho, defender empresários, fazer privatizações, jogou toda a culpa do PT.

E a esquerda conseguiu minimamente oferecer um projeto de esperança em direção de outra sociedade? Eu não vi em nenhum programa ou debate. Não vi ninguém dizer que o desafio é recuperar uma vida dotada de sentido e um outro mundo, não mais capitalista. Não vi, salvo um ou outro grupo minoritário. Ninguém defendeu um socialismo de novo tipo, capaz de acabar com a exploração visceral do trabalho, com a propriedade privada e intelectual, que domina riquezas criadas pela humanidade, a exemplo das comunidades indígenas que veem grandes laboratórios se apropriarem de conhecimentos seculares. 

A extrema-direita está apresentando um projeto. A esquerda não. Lembro de uma vez que estive em Roma, há uns 15 anos, quando vi um cartaz que me impressionou muito: “nós somos a verdadeira direita”. Quinze anos atrás ou mais. Na Itália a direita está dizendo que ela é a verdadeira, porque a direita sempre aparecia como liberal, liberal-conservadora, democrata-conservadora, mas não como fascista e protofascista aberta, como vemos hoje no Brasil. Por que a esquerda não politiza o debate com radicalidade? Não estou falando de doutrinarismo. Mas o que ensinam as comunidades indígenas? A vida comunal. O que o majestoso Quilombo dos Palmares, talvez o primeiro experimento de emancipação social no Brasil, ensinou? A vida comunal. O que ensinou a rebelião do Haiti, a primeira dos escravos e brutalmente reprimida? A possibilidade da vida comunal, com as propriedades coletivas prevalecendo sobre a privada.

O problema é que na ânsia de ter mais votos considera-se necessário calibrar e moderar demais o discurso, para adequar-se a uma onda antiesquerda de amplitude global, sob hegemonia financeira, dado que as populações sofrem um inculcamento muito profundo contra tais ideias. Mas nunca é integral. A resposta vem dos levantes, como as greves de Jirau e Santo Antônio, as greves do começo desta década que foram muito importantes na história recente do país. Estamos instados a pensar outro modo de vida.

Relacionando a entrevista com seu livro, que fala da precarização do trabalho em escala totalizante, temos a herança do governo Temer que avançou neste sentido com leis em favor da terceirização e a entrada de um governo que visa reforçar tais projetos. Considerando ainda as politicas econômicas que se anunciam, o que esperar em termos de emprego e renda para a população brasileira de modo geral?

Quando olhamos os países europeus que tiveram vigência da socialdemocracia, vimos que conseguiram legislações de proteção social e do trabalho muito positivas, escola e saúde públicas, níveis de civilidade do capitalismo que jamais existiram na periferia. Se vemos que o máximo de civilidade que tivemos na periferia, no caso brasileiro, foi com Getúlio Vargas, sendo que a classe trabalhadora rural estava excluída da CLT... 

Mas acontece que estamos num período de tripé devastador: hegemonia profundamente destrutiva do capital financeiro, uma pragmática neoliberal que não tem mais nenhum limite e uma reestruturação produtiva do capital que por sinal é permanente. Nasceu na Alemanha, mas se espalhou no mundo avançado a indústria 4.0. Em poucas palavras significa que as corporações se devoram. O futuro de uma depende da absorção que ela fará de sua concorrência. 

Exemplo: 20 anos atrás havia uma disputa cerrada entre Brahma e Antarctica. Hoje são a mesma, e são uma empresa muito maior do que a soma dessas duas marcas. Havia também uma disputa intensa entre Perdigão e Sadia. Hoje são a mesma, a Brasil Foods. No centro global as fusões se ampliam exponencialmente. Paralelamente, considerando que as corporações comandam a vida produtiva e, portanto, as cadeias produtivas de valores, a tecnologia é vital, especialmente quando o setor de serviços passou a interessar diretamente aos capitais. 

Quando da revolução inglesa, no século 18, a indústria foi o novo, ainda que houvesse indústria antes. Entre aspas a indústria vem desde as comunidades primitivas quando ao se aquecer minérios se conseguia a forma de metal. Mas a revolução inglesa levou a lógica capitalista à indústria e a um processo de transformação capitalista do mundo rural no século 19, que passou ao século 20. Indústria e campo eram os setores principais da criação de valor e lucro, da extração da mais valia. Nesses séculos o setor de serviços, embora tivesse núcleos privatizados, era essencialmente público: estradas, telefonia, saúde, educação, previdência, cárcere... 

Mas com a crise dos anos 70, estrutural e muito profunda, tanto do capitalismo como de seu sistema, houve uma intensificação à enésima potência da tecnologia de informação e comunicação no mundo das empresas, em particular do setor de serviços. E a introdução do mundo maquínico, da lógica informacional e digital, transformou profundamente a produção capitalista. Hoje uma grande empresa carrega o nome de uma marca, mas terceiriza toda sua produção. O Wallmart tem uma cadeia vastíssima, que começa no sul da China. A Amazon tem um mundo esparramado de empresas que oferecem trabalhos de ponta na área digital, tem experimentos como lojas e shoppings onde a pessoa entra, é identificada digitalmente, pega um produto, sai e seu preço cai direto na conta bancária. Tudo sem contato com nenhum trabalhador. Uber e assemelhados praticam uma escravização do(a) trabalhador(a) que usa seu carro, paga seguro, gasolina e que numa corrida vê 20%, 30% do pagamento imediatamente recolhido pelo aplicativo. 

Como cito no livro, tem o contrato de zero hora na Inglaterra, que abarca praticamente todas as profissões de serviços, médicos, advogados, técnicos, cuidadores, limpeza, domésticas, jardineiros... Eles ficam à disposição de seus aplicativos, que os chamam para prestar serviços. E só recebem quando há uma chamada para fazer um serviço. Se ficar 3 ou 4 dias esperando uma chamada que não vem, não recebe. As empresas de tais áreas foram as que mais comemoraram a aprovação desta contrarreforma trabalhista do Temer, em favor do trabalho intermitente, porque podem fazer os trabalhadores esperarem, seja de sábado, domingo, sem pagá-los. E quando chamados ganham por duas ou três horas. Se de repente chove e o movimento de um fast food fica abaixo do esperado a remuneração pode ser insuficiente até pra condução.

Esse aspecto não se choca frontalmente com o discurso ufanista em favor do trabalho dito autônomo, do empreendedorismo, condições que supostamente tornariam o trabalhador mais livre?

O mundo informacional-digital sob comando do capital financeiro sabe que não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas sabe que pode depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for realizado, sem descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo tais trabalhadores e trabalhadoras de novos proletários da era digital. E daí vem o título do livro, a partir do livro de Albert Camus, o Primeiro Homem, quando em linhas gerais ele diz que só os acidentes de trabalho, em empresas que dão seguro saúde, dão a chance de férias e lazer ao trabalhador. Só quando eles se acidentam podem ter tais benefícios. O desemprego passa a ser o maior medo e o trabalho, que deveria ser uma virtude, acaba sendo um caminho para a morte, fotografia que resulta no “Privilégio da servidão”. Isto é, os jovens que hoje têm 20, 25 anos, se tiverem sorte, serão servos, submetidos e dominados em seu trabalho. O assalariado é o escravo da era capitalista, como dizia Marx

Os jovens de hoje, qualificados ou não, nativos ou imigrantes, se tiverem sorte terão o privilégio de serem servos. Caso contrário, estarão no desemprego, que será muito maior no futuro. Em suma, a indústria 4.0 significa digitalização, automatização, introdução da inteligência artificial, da lógica dos algoritmos, todo esse monumental avanço de tecnologia da comunicação e informação, de tal modo que todas as atividades vão eliminar o trabalho vivo, intensificar o trabalho realizado pelo mundo digital (“a internet das coisas”, como dizem), em qualquer setor, escolas, bancos etc. No mundo produtivo, seja na indústria, agricultura, suas intersecções e serviços, tudo que for possível digitalizar, computadorizar, automatizar e eliminar trabalho humano será valido. 

A pergunta que não quer calar é: o que vai acontecer com a massa de trabalhadores(as)? Teremos um pequeno grupo de trabalhadores(as) muito qualificados(as) na ponta do sistema, para realizar as atividades humanas absolutamente insubstituíveis ao menos até o presente, mas toda a massa de trabalhos intermediários, desde as gerências e supervisões até a parte mais executora, operária, todos jocosamente chamados de “colaboradores”, vai perder seu emprego. Assim teremos uma situação na qual os bolsões de desempregados aumentarão. 

O Brasil tem praticamente 20 milhões de desempregados. Mais um conjunto que faz bico, trabalho informal, autônomos sem formalização, à margem muitas vezes do sistema de previdência. Consequentemente, a previdência arrecadará menos, vão dizer que ela é deficitária por culpa dos trabalhadores, quando é o grande capital que arrebenta a previdência pública em favor da previdência privada, favorável aos bancos com seu modelo de capitalização. 

É um cenário profundamente destrutivo. 

Tem um elemento importante que destaco no livro: essa massa imensa de trabalhadores e trabalhadoras na China, Índia, na Europa, EUA, Canadá, Brasil, Argentina etc. etc. etc., enfim, massa imensa de jovens informalizados, terceirizados, intermitentes, alguns com poucos direitos, outros com burla completa, se rebela. Recentemente houve greves dos trabalhadores de fast food nos EUA e das trabalhadoras da limpeza dos tribunais de justiça de Londres. Há greves frequentes em escritórios de telemarketing. 

Precisamos estudar, compreender e analisar o modo de ser daquilo que chamo de nova morfologia do trabalho, do proletariado de serviços, que não é a classe média. O que caracteriza a classe média é a prevalência do trabalho intelectual, o que não é o caso das categorias aqui citadas. Há uma massa de jovens bem formados em Portugal, Grécia, que vai trabalhar em hotéis, restaurantes. Vi em Veneza jovens formados em engenharia abrindo e fechando as portas do vaporetto (as barcas que transportam as pessoas pelos canais) por 500 euros por mês, seis dias por semana, durante 5 ou 6 meses, em um contrato só, depois substituído por outro jovem. 

É claro que tal contingente de proletários é diferente em sua subjetividade quando comparado ao antigo operário industrial, um metalúrgico, um trabalhador rural. Mas o setor de serviços se tornou altamente produtivo, gerador de lucro e mais valor. Duas passagens importantes colocadas por Marx em O Capital: para gerar valor e mais valia a produção do trabalho não precisa ser materialmente produtiva; ela pode ser vista no espaço da circulação, a exemplo da indústria do transporte. Esta não produz nada, mas transporta pessoas e mercadorias. É um eixo vital da geração de lucro. É preciso entender o processo de produção que existe dentro de atividades de circulação. E tal atividade é vital porque quanto mais tempo se leva a circular, menor sua produtividade. Quanto mais rápido o tempo de circulação se aproxima de zero, maior o tempo de produção.

Não é difícil compreender que o mundo das tecnologias da comunicação e informação expandidas em todas as áreas passou a ser um setor vital na esfera de circulação do capital. Nossos gostos são conhecidos pelos sites e redes sociais. Se procuramos uma passagem para a França, na mesma hora recebemos no computador informações de novas passagens a um preço mais razoável. Significa que o capital quer extrair mais valor em todos os espaços em todas as formas de produção no sentido lato.

Por que o governo Bolsonaro defende o ensino a distância? Porque o professor, ganhando 15 reais por aula, pode deixar de dar aula para 20 ou 30 alunos e poderia dar para 20 mil ou 30 mil. Quando isso ocorre, aquele professor que foi vital para a aula presencial, numa escola privada, passa a ser gerador de um lucro muito potencializado. 

Tudo isso cria um proletariado de novo tipo que luta, se rebela, e é diferente do anterior. Dizem na Europa “nós somos a parte mais precária da classe trabalhadora: somos jovens, temos qualificação, homens, mulheres, nativos, imigrantes, brancos, negros, amarelos, mas não temos direitos adquiridos como tinha a antiga classe trabalhadora”. Vi muita gente na Itália a dizer, “o sindicato representa vocês, a velha classe trabalhadora. Teremos de criar os nossos, porque o de vocês não nos representa”. O sindicalismo, especialmente o europeu, muito moderado e tradicional, aprendeu a representar sua classe no desenho socialdemocrático. Mas hoje a socialdemocracia é mais ficção que realidade. 

Os direitos estão sendo eliminados país por país. Era inimaginável na Itália, que em 1970 fez um código do trabalho altamente avançado, vermos, como estabelecido em 2017, um sistema de pagamentos por voucher. O trabalhador faz, por exemplo, 100 horas mensais e pega um voucher por hora de trabalho, para depois trocar cada um deles pelo equivalente à hora do salário mínimo italiano. O empresário diz que pode arrumar mais horas de trabalho, mas não pelo mesmo valor. Cria-se um sistema de pagamento direto. E se o trabalhador não aceita há uma massa imensa de imigrantes e pobres desesperados por tais postos.

Estamos diante da criação ilimitada de massas de jovens disponíveis para o trabalho que não têm mais o regime de proteção, no qual há direitos como férias, saúde, descanso etc. É um movimento duplo e contraditório: precarização ilimitada, na qual o intermitente global é emblemático, e uma massa que se rebela, está lutando para aprender a criar suas novas formas de associativismo, como se vê em Milão, em Napoli, em Portugal, a exemplo do movimento Precari@s e Inflexíveis. Neste país há o recibo verde como modo de pagamento, recibo que mede seu pagamento de acordo com a produção no tempo de trabalho. 

Desse modo, faltaria reconhecer que uma das brechas aproveitadas pela extrema-direita na atual conjuntura foi uma interpretação deficiente da atual formação das classes trabalhadoras?

As teses sobre o fim da classe trabalhadora estão sepultadas. É uma classe que se amplia. Mas como é muito segmentada, heterogênea, com distinções de classe, geração, gênero, etnia, é evidente que há uma dúvida sobre quais organismos vão dar sentido de pertencimento de classe a este conjunto heterogêneo, polimorfo, polissêmico que caracteriza a classe trabalhadora na China, na Índia, na Coreia do Sul, na África, no leste europeu, na América do Sul... 

Nas rebeliões de junho era muito visível o jovem proletariado brasileiro que ralava o dia inteiro em empregos precários para pagar uma faculdade de noite imaginando que ia participar da festa e dividir o bolo. Quando ele percebeu que a divisão do bolo, metaforizada nos megaeventos esportivos, não tinha pedaço nenhum pra ele, só para as grandes corporações, se rebelou. Esse jovem é política e ideologicamente muito diferente, porque não tem tradição política nem sindical em seu lastro. 

E os sindicatos e partidos de esquerda, grosso modo, têm sido incapazes de compreender a vida cotidiana, a consciência contingente e aquilo que é capaz de mobilizar o proletariado que na Europa já se autodenomina precariado. Essa definição não veio da sociologia do trabalho. Foram os movimentos de trabalhadores que deram este nome, a exemplo do San Precario, dos trabalhadores de Milão. É a nova franja do proletariado, que antes era pequena, mas se expandiu mundialmente, solapando as bases sociais da socialdemocracia. É uma parcela da jovem classe trabalhadora que não se beneficia das conquistas sociais da época do welfare state do taylorismo e do fordismo

Portanto, quais os interesses desses segmentos que compõem a totalidade da classe trabalhadora? Que lutas querem realizar? Como vão soldar laços de pertencimento de classe a fim de evitar que sejam tratados de forma individual? Como mostram as reformas de Temer, Macri e Macron, querem que o trabalhador se entenda sozinho com a empresa. Mas quando o trabalhador ganhou uma? Neste cenário o capital ganha todas. 

A saída dos trabalhadores só pode ser solidária e coletiva, como tento trabalhar nos dois capítulos finais do livro: “Há futuro para os sindicatos? Há futuro para o socialismo?” É decisivo recuperar as questões vitais da vida cotidiana e desenhar outro modo de vida, muito além do capital. Este é o imperativo do século 21.

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