A insuportável leveza do cristianismo pós-institucional. Artigo de Massimo Faggioli

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18 Dezembro 2018

"Não existe comunhão universal numa Igreja dominada por marcas ideológicas — uma que diminui o catolicismo para um conjunto estreito de 'doutrinas estabelecidas', por um lado, e uma que vaporiza a especificidade da mensagem cristã e a reduz ao pensamento social católico, por outro lado", escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em artigo publicado por La Croix International, 17-12-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Segundo ele, "a visão teológica do Vaticano II precisa de tempo e de uma narrativa que não pode se dar sem instituições. Caso contrário, o sonho de um catolicismo pós-institucional poderia se tornar um pesadelo pós-eclesial e pós-Igreja".

Eis o artigo.

"O sentimento de universalidade sempre acompanhou o da unidade da Igreja. Não pode haver nenhum cristianismo verdadeiro sem ele. "

O grande teólogo dominicano Yves Congar usou estas palavras para começar o seu ensaio The Episcopacy and the Universal Church (O Episcopado e a Igreja Universal, em português), de 1962, um dos livros mais importantes publicados durante o período de preparação do Concílio Vaticano II (1962-65).

Todas as instituições estão atualmente passando por um momento de crise. E a Igreja não é exceção.

O que é notável é que o desencantamento com a Igreja é visível também em jovens membros de novos movimentos eclesiais e ordens monásticas com os quais tenho conversado nos últimos anos. Apesar de seu compromisso com uma vida de oração e serviço numa comunidade católica, sua mentalidade é: "Jesus Cristo sim, mas sobre a Igreja... estou menos interessado". A lealdade à sua própria comunidade vem em primeiro lugar antes de qualquer investimento emocional, espiritual ou intelectual na Igreja em sua universalidade.

Esta é uma nova etapa de um desenvolvimento que começou no alvorecer dos séculos XIX e XX: da Igreja como uma instituição para o carisma pessoal, primeiro ao Papado, de acordo com o ultramontanismo, e depois aos então novos "movimentos eclesiais”. Agora chegamos a uma nova etapa: a "marca Catolicismo". Estamos testemunhando o que acontece quando deixamos uma mera marca comercial substituir uma instituição.

"Esta é a situação contemporânea em que o discipulado cristão está inserido, pelo menos onde o capitalismo e suas tecnologias prevalecem. Várias formas de dogmatismo católico contemporâneo - ou, para colocar melhor, tentativas de reduzir a identidade católica a um único aspecto, uma única marca -, são resultados desta inércia", diz Anthony Godzieba, professor de teologia sistemática na Universidade de Villanova.

Godzieba definiu esta "marca Catolicismo" num discurso de abertura na convenção de 2014 da Sociedade Teológica Católica da América.

"Se existe alguma crítica da cultura contemporânea pela teologia católica (eu me recuso a usar o termo "guerra cultural"), a questão não é de liberais contra conservadores, pré-Vaticano II contra pós-Vaticano II, tradicionalistas contra progressistas", disse ele.

Esta “marca Catolicismo”, identificado por Godzieba, está presente em diferentes áreas do catolicismo ocidental. É a tendência de identificar o catolicismo com uma revista em particular ou um Papa ("Eu sou um padre João Paulo II" ou "Eu sou um padre Bento XVI"); o associar a um certo teólogo ou líder de movimento teológico ou com este ou aquele movimento litúrgico.

O que esses indicativos da marca Catolicismo querem dizer não vem ao caso. Não é sobre as ideias, mas sobre a marca em si. Isso gera danos significativos para o indivíduo e para a comunidade. A marca tem uma vida curta e tende a responder mais facilmente às lógicas do mercado do que às eclesiais. Não cria dinâmicas comunitárias, mas é competitiva. Tende a se tornar "herética" no sentido de idiossincrático e divisivo.

Isso é mais visível nos círculos católicos "(neo)tradicionalistas" ou "antiliberais". Mas o mesmo serve em algum grau para a auto-identificação católico "liberal" e "progressista". Em uma era de biopolítica e de "guerras culturais", a independência intelectual da instituição eclesiástica se torna às vezes independência da própria tradição.

Isso impacta a luta pelo futuro da Igreja. Existe claramente uma assimetria na forma como diferentes marcas católicas se relacionam com a Igreja institucional. Os que se auto-identificam "conservadores" parecem ter mais cuidado com a própria instituição. Muitos seminaristas de hoje vêm deste tipo de catolicismo pós-liberal, antiliberal e pós-secular.

No outro extremo do espectro, os que chamam a si próprios de "liberais" tendem a procurar refúgio num catolicismo pós-institucional. O que eles parecem não perceber é que "pós-institucional" pode ser um prelúdio perigoso para o "pós-eclesial".

Os chamados católicos liberais estarão sempre em desvantagem em forjar o futuro da Igreja porque os antiliberais, que são menos anti-Igreja do que eles, terão naturalmente um maior comando das alavancas do poder eclesial. Podemos notar a ironia de uma aliança entre Steve Bannon e o cardeal Burke, mas a escolha de um advogado canônico como o "patrocinador eclesiástico" da base de Bannon em Roma indica que os adversários do Papa Francisco têm expectativas de longo prazo sobre o tipo de clero católico e intelligentsia que estará no controle da instituição na próxima geração.

Isto não é apenas sobre rixa entre diferentes facções na Igreja Católica dos Estados Unidos. Trata-se da sustentação da comunhão católica. Não existe comunhão universal numa Igreja dominada por marcas ideológicas — uma que diminui o catolicismo para um conjunto estreito de "doutrinas estabelecidas", por um lado, e uma que vaporiza a especificidade da mensagem cristã e a reduz ao pensamento social católico, por outro.

As escrituras e a tradição nos dizem que ambos, "carisma" e a "estrutura", são necessários que estejam em equilíbrio na Igreja. Mas o chamado catolicismo liberal deve avaliar a adequação de uma certa mentalidade anti-institucional ou pós-institucional que se tornou tendência após o Concílio Vaticano II.

A Igreja do Vaticano II encarnada por Francisco — caracterizada pela misericórdia, pela sinodalidade, uma Igreja para os pobres —, precisa de instituições. Ela também precisa de católicos que não têm medo da dimensão institucional da Igreja e que estão dispostos e capazes de manter e desenvolver essa visão.

As instituições prolongam o tempo das coisas, e numa experiência compartilhada.

A visão teológica do Vaticano II precisa de tempo e de uma narrativa que não pode se dar sem instituições. Caso contrário, o sonho de um catolicismo pós-institucional poderia se tornar um pesadelo pós-eclesial e pós-Igreja.

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