Teilhard, uma nova linguagem

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14 Novembro 2018

O paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) estava ciente da necessidade de uma renovação linguística do cristianismo, como condição de sua eficácia na história.

A análise é do teólogo italiano Carlo Molari, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado por Rocca, n. 22, 15-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini

Em dezembro de 1933, Teilhard escreveu: "Atualmente o conhecimento humano se desenvolve inteiramente sob o signo da Evolução reconhecida como uma propriedade primárias do Real experimental, a tal ponto que nada agora entra em nossas construções, a não ser o que primeiro atende as condições de um Universo em curso de transformação” (Cristologia ed evoluzione (1933) tr.it. em La mia fede, Queriniana, Brescia 2008 p. 80-95, p.82).

E concluía: "Depois de vinte séculos, muitas perspectivas são modificadas de modo que, religiosamente falando, precisamos mudar de pele. As fórmulas encolheram e se tornaram rígidas; elas nos oprimem e deixaram de nos comover. Para continuar e viver precisamos mudar"(ibid., em La mia fede, p. 95).

Em novembro de 1945, em Cristianesimo ed evoluzione, Teilhard oferece sugestões para promover uma nova teologia. No primeiro parágrafo intitulado: A situação religiosa atual. Fé em Deus e Fé no Mundo: uma síntese necessária, ele observa:

Muitas vezes ouvimos dizer que, religiosamente falando, a Terra está esfriando. Na realidade, nunca esteve tão ardente. Só que começa a queimar com um novo fogo, mal individualizado e até agora mal identificado. Sob o efeito de causas variadas e convergente (descoberta do Tempo e Espaço orgânicos, progresso da unificação e "planetarização" humana, etc.) o Homem, de um século atrás até o presente momento, indubitavelmente despertou para a evidência de estar envolvido, em um plano e em dimensões cósmicas, em um amplo processo de Antropogênese ... Não: o Mundo moderno não é irreligioso - muito pelo contrário. Só que nele, por um súbito afluxo, em dose maciça de uma nova linfa, é o espírito religioso, em sua totalidade e em sua qualidade natural que ferve e se transforma" (tr. it., La mia fede, p. 165-177, p. 167 (Avvertenza) e p. 168).

Em seguida, ele terminava o parágrafo com estas palavras: "Depois de dois milênios de existência, e de acordo com um ritmo orgânico a que nada parece escapar, o Cristianismo, por ser imortal, não teria chegado a um ponto em que para continuar a existir deve (não por alteração da estrutura, mas por assimilação de novos elementos) rejuvenescer e renovar-se? Em outras palavras, na crise atual, em que enfrentamos, bem diante de nossos olhos e nos nossos corações, as forças cristãs tradicionais e as forças modernas de Evolução, não deveríamos talvez reconhecer as peripécias de uma providencial e necessária fecundação? ... Eu acredito nisso. Mas, então, é claro que, para que a síntese se realize, o Cristianismo deve abrir seus eixos até abraçar, na sua totalidade, o novo impulso da energia religiosa que sobe de baixo para ser sublimado" (ibid. tr.it. p. 169).

Teilhard estimula os teólogos a usar a linguagem da transcendência a propósito da ação divina para alcançar uma plena sintonia com a linguagem dos cientistas.

A causalidade final no sentido da atração

A reflexão científica e filosófica de Teilhard sobre o universo sempre teve uma tensão transcendente e, portanto, prescinde da Revelação bíblica. O Gênesis bíblico de fato, para descrever a criação, recorre à figura do oleiro e, então, se refere à causalidade eficiente, enquanto Teilhard procede ao contrário, da experiência do fascínio e, em seguida, refere-se à causalidade final, no sentido de ação de atração. A ação divina, de acordo com Teilhard, impulsiona para frente atraindo.

É por isso que ele fala da União criadora não no sentido de causalidade eficiente, mas no sentido de causalidade final.

A mudança mais radical diz respeito à natureza da causalidade criadora, que não é colocada no âmbito da eficiência, mas sim da atração exercida pelo fim.

Ele escreve: "sob que forma, com que objetivo o criador nos entregou e conserva em nós o dom do ser participado? Sob a forma de uma aspiração essencial para ele, em vista da adesão inesperada que deve fazer de nós uma mesma coisa complexa com Ele. A ação pela qual Deus nos mantém no campo de sua presença é uma transformação unitiva" (Milieu Divine Oevres IV Seuil, Paris 1957, pp. 148).

O caminho realizado por Teilhard nessa direção é primorosamente filosófico. A dialética da união (centrologia) conduziu-o à descoberta do Centro dos centros, que ele chama de Ômega.

O modo de agir divino está na ordem do amor e, portanto, do fascínio ou da atração.

"Desde suas profundezas primordiais, o princípio ontológico tomado como base da nossa Metafísica, demonstra-se válido e capaz de explicar: o próprio Deus num sentido rigorosamente verdadeiro, não existe se não houver união com ele. Vejamos agora como em outro sentido, ele não se complete se não for pela união" (Comment je vois (12 de agosto de 1948) em Les diections de l'avenir (Oevres XI) Seuil Paris 1973 p. 177-223 aqui p. 209).

O próprio Teilhard a qualifica como Metafísica da união (ibid., p. 208 e 210) porque criar é unir (p. 211). O teólogo N.M. Wildiers, o curador das obras, observa: "O Padre retoma aqui de maneira mais aprofundada, ou seja, incluindo o mistério do próprio Deus, uma intuição que já aparece desde 1917. (cf. Union créatrice. Écrits du temps de la guerre, p. 169-197, p. 208).

Na nota seguinte Wildiers observa "pode se notar que o padre Teilhard parte aqui do que normalmente representa o ponto final da sua reflexão, ou seja, Ômega: os elementos desse ponto de partida são analisados de forma completa na quarta parte de La dialettica dello Spirito, um pouco anterior a Comment je vois. (Cf. VII p. 155-158). O padre Teilhard mostra aqui como se pode representar Alpha a partir de Ômega” (p. 209).

Da natureza particular de amor deriva a força da atração como uma forma essencial da ação criadora de Deus. Em Introduzione alla vita cristiana (29 de junho de 1944) Teilhard ilustra o primado do amor com estas palavras: "Considerando que o universo cristão consiste, por estrutura, na unificação de pessoas elementares em uma suma personalidade (a de Deus), a energia predominante e final de todo o sistema não pode ser diferente de uma atração entre pessoa e pessoa, ou seja, amor. O amor de Deus para o Mundo, para cada elemento do mundo, assim como o amor dos elementos do Mundo entre si e para Deus, não representam, portanto, apenas um efeito secundário adicionado ao processo criativo, mas ao mesmo tempo expressam seu fator operante e o dinamismo fundamental" (ibid., tr.it. La mia fede, p. 148).

Agora é próprio do amor suscitar amor e alimentar processos de união: criar é unir, desde que se renuncie a imaginar que o ato de união só pode ser exercido sobre um substrato pré-existente que, ao contrário, constitui "o verdadeiro objeto da criação" (Comment je vois, § 29 págs. 211 n º 1).

Teilhard não chega a mencioná-lo, mas essa afirmação corresponde à opinião de Aristóteles, segundo a qual "[o primeiro motor] move assim como o objeto de amor atrai o amante, enquanto todas as outras coisas movem sendo movidas" (Aristóteles, Metafísica, E, 7). Poderíamos traduzir essa ideia com a fórmula: A ação divina cria atraindo para si. Segue-se que as criaturas perseguem o fim enquanto atraídas do ponto de vista da eficiência, não são movidas, mas se movem por conta própria. A criação diz respeito à evolução, o devir da realidade.

Essa reflexão é desenvolvida em um quadro positivo assim resumidos pelo próprio Teilhard: "Logicamente e psicologicamente, o primeiro destes princípios é a profunda convicção de que ser é bom, ou seja, que é melhor ser do que não ser; que é melhor ser a mais do que ser a menos. Admitindo como princípio auxiliar que o ser 'realizado' seja o ser consciente, podemos dar a esse princípio uma forma mais prática e clara, ou seja, é melhor ser consciente do que não o ser; que é melhor ser mais consciente do que menos consciente" (Il mio universo, in La scienza di fronte a Cristo, Gabrielli, S. Pietro in Cariano 2002, p. 68).

Para essa explicação das Coisas cheguei, simplesmente refletindo sobre relações tão desconcertantes que existem entre o espírito e a matéria. Se existe um fato bem estabelecido pela experiência, é que "quanto mais um psiquismo é elevado, em todos os seres vivos que conhecemos, mais ele se revela ligado a um organismo complexo". Quanto mais a alma é espiritual, mais o seu corpo é complexo e frágil. Essa curiosa lei de compensação não parece ter atraído de modo especial a atenção dos filósofos, exceto para constituir para eles uma oportunidade para aprofundar mais uma vez o abismo que eles adoram cavar entre o Espírito e a Matéria. Pareceu a mim que, longe de ser um relacionamento paradoxal ou acidental, ela tivesse uma grande possibilidade de revelar a constituição secreta dos seres. Em vez de considerá-la uma dificuldade, uma objeção, eu a transformei no próprio princípio da explicação das coisas”. (Il Mio Universo, (março 1924) tr.in. La scienza di fronte a Cristo, p.72). Precisamente essa perspectiva exige uma nova linguagem teológica.

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