Ministérios ordenados para as mulheres? Entrevista com Andrea Grillo

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18 Junho 2018

Em seu blog, Come Se Non (30 de maio e 2 de junho), Andrea Grillo, liturgista, professor no Pontifício Ateneu Sant’Anselmo e em Santa Giustina, em Pádua, criticou o secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Luis Ladaria, pelo seu artigo publicado no L’Osservatore Romano de 29-30 de maio. Nele, o prelado reconfirmava que a ordenação sacerdotal reservada aos homens era uma “verdade pertencente ao depósito da fé”.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada em Settimana News, 14-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Andrea Grillo, na intervenção de Dom Ladaria e nas suas respostas no blog, quais são as questões essenciais?

A questão essencial é o modo de considerar o problema da “autoridade feminina na Igreja”. O tom de preocupação e a linguagem envernizada e “espiritual” deixam escapar uma grave subestimação da questão e uma abordagem profundamente inadequada, eu diria até desajeitada e quase desrespeitosa. Se eu fosse mulher, me sentiria ofendida.

Em vez disso, o papel de “autoridade” e “reconhecível” da mulher na Igreja requer uma “mudança de paradigma” e uma “revolução cultural” – como diz o Papa Francisco na Veritatis gaudium –, mas, nas palavras de Ladaria, não há o menor rastro disso. E os argumentos utilizados se referem a outro mundo, não a este. Só convencem aqueles que vivem fechados em um escritório, onde apenas homens circulam e mandam.

Uma confirmação doutrinal, o tom pacato, um perfil modesto (artigo no L’Osservatore Romano). Na sua opinião, a que a intervenção de Dom Ladaria responde?

Eu não tive a mesma impressão. Eu absolutamente não definiria o tom como pacato: há, do começo ao fim, um tom moralista, de referência à obediência a Cristo e à Igreja, que está totalmente fora de lugar. Aqui, não se trata de obedecer ou não, mas de compreender e honrar uma grande mudança de compreensão e de papel da mulher na Igreja.

Trata-se de iniciar um processo de compreensão e de discernimento dentro da Igreja: esse texto, no entanto, está parado, na defensiva e, acima de tudo, pede que todos fiquem parados e renunciem a qualquer iniciativa. Está paralisado diante de uma questão que ele parece não querer compreender. Talvez por medo. Talvez pela preocupação em relação aos possíveis desdobramentos ligados à América amazônica que se reunirá no Sínodo. Mas, de qualquer modo, não é uma boa maneira de acompanhar um Sínodo, que também falará sobre mulheres às quais é preciso reconhecer autoridade. Não se acompanha um Sínodo pedindo silêncio.

O senhor diz que a referência ao Concílio de Trento não justifica as declarações de Dom Ladaria. Talvez justifique o contrário, isto é, a ordenação feminina?

Naquele texto, que eu considero bastante surpreendente, a citação do decreto tridentino sobre a “comunhão sob as duas espécies” (Sessão XXI, cap. 2), refere-se à “substância do sacramento”, em relação ao qual a Igreja pode modificar aquilo que não é substância. Pois bem. Aquele texto servia aos Padres tridentinos para defender uma prática “diferente” daquela explicitamente indicada pelas palavras de Jesus. E isso foi possível. Mas, no caso da extensão da ordenação ministerial à mulher, não há, como no caso da eucaristia, uma palavra explícita de Jesus.

Por isso, assinalei um paradoxo: se a citação do Concílio de Trento permitiu que a Igreja de 500 anos atrás encontrasse uma margem de liberdade para defender uma prática diferente, até mesmo diante de uma palavra explícita de Jesus, que diz: “Tomai e comei”, “tomai todos e bebei”, com mais razão isso deveria valer para a ordenação. Por que a Igreja não se sentiu vinculada a uma palavra explícita do seu Senhor e, em vez disso, deveria se sentir vinculada ao silêncio de Jesus sobre a ordenação?

Há uma ausência significativa no texto do prefeito: Ad tuendam fidem. Ele não merece uma reflexão?

Creio que essa ausência se explica justamente pelo processo de amadurecimento que a Igreja realizou sobre o modo de “guardar” a fé. Não se guarda a fé com o silêncio imposto ou com as sanções ao dissenso, mas sim com a escuta da realidade e com a abertura de processos significativos. Há 10 anos, por ocasião da infeliz gestão do caso Sobrino, Peter Hünermann denunciava a persistência de uma abordagem da Congregação para a Doutrina da Fé nas formas do escritório censório típico dos Estados modernos do século XVI. Cristina Simonelli, em um artigo na revista Il Regno, também enfatizou justamente esse aspecto. Creio que o pontificado de Francisco contribuiu largamente para essa mudança de abordagem, que também influencia o texto de Dom Ladaria.

Que espaço existe para a ordenação diaconal das mulheres?

Eu acredito que hoje é totalmente urgente uma elaboração teológica e magisterial que assuma a reflexão sobre o “feminino” como um dos desafios decisivos para a identidade eclesial e católica do futuro. O acesso da mulher, ainda que gradual, ao ministério ordenado é uma etapa incontornável do nosso futuro. Dar-lhe autoridade, mas “fora do ministério ordenado”, seria hipocrisia. Por outro lado, toda forma de “fuga na tradição”, de caráter defensivo e tranquilizador, paralisa e marginaliza a própria tradição. O novo perfil que a mulher assumiu progressivamente no último século não pode ser compreendido simplesmente com os instrumentos da tradição.

Nesse caso, como diz a Gaudium et spes 46, devemos saber discernir “à luz do Evangelho e da experiência humana”: creio que a perspectiva de uma “ordenação diaconal” que preveja sujeitos não apenas masculinos, mas também femininos, é o passo necessário reconhecer, também na Igreja Católica, essa nova consciência comum, que nos obriga a mudar, para conhecer melhor o Evangelho. Essa me parece ser a verdadeira obediência em jogo, sobre cujo atraso me parece justo expressar uma certa preocupação. Preocupante não é o fato de que fale a respeito, mas sim o fato de que se peça para não falar.

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