Sexo e ministério ordenado: realidade negada, silêncio imposto, comunhão fictícia. Artigo de Andrea Grillo

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04 Junho 2018

“Uma Igreja viva fala e discute, até sobre as coisas mais fundamentais. Assim, ela poderá gerar silêncio: o silêncio da comunhão, não o silêncio da imposição. A inteligência da fé nunca pode se contentar com tal silêncio imposto: deve produzir o silêncio da comunhão através do diálogo e do debate.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado em Come Se Non, 02-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há algumas semanas, o cardeal Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, defendeu em uma entrevista que “a homofobia não existe...”. Alguns dias depois, seu sucessor como prefeito, Dom Ladaria, repropôs uma compreensão totalmente antitética da relação entre ministério ordenado e sexo feminino, dizendo, substancialmente, que tal relação “não existe e não pode existir”.

Creio que é muito útil uma reflexão sobre o “método” com que essas declarações abordam a realidade, não só eclesial, mas também mundana e secular. Creio que sejam reveladoras de uma abordagem distorcida e unilateral demais, ou, como a Amoris laetitia a define, “pusilli animi”, mesquinha (AL 304).

É evidente que a história sempre oferece realidades novas, que questionam a tradição humana e eclesial. A Igreja não está em outro lugar: deve fazer as contas, aberta e francamente, com essas novidades da história. Entre as quais estão aquelas que dizem respeito à “esfera da sexualidade”, do modo como entraram poderosamente na cultura comum e como também obrigam a Igreja a uma compreensão renovada, acurada, atenta e não genérica de si mesma.

O fato de a identidade da mulher ser uma das “novidades” mais significativas do século XX não pode ser discutido; exatamente como não pode ser discutida a transformação do “sexo” em “sexualidade”, com toda a incidência que isso determina sobre a identidade e sobre a consciência dos sujeitos. Em ambos esses níveis, se houver a pretensão de raciocinar “como se nada mudou”, como se toda novidade fosse o fruto de uma ideologia suspeita, de uma perversão dos corações, de uma distração das mentes, então realmente tudo está comprometido, e a Igreja perde a oportunidade não só de “compreender o real”, mas também de dar uma voz eficaz ao Evangelho.

O estilo autorreferencial

Como dizia, me chama muito a atenção, nessas declarações de prelados de primeira fila, o modo de lidar – ou, melhor, de não lidar - com a realidade. Acima de tudo, deve-se negar a realidade problemática: quer se fale de homofobia ou de mulher, o mais importante parece ser “desqualificar” o interlocutor. Ou negar que exista uma realidade que deve ser abordada ou reduzir essa realidade a uma caricatura. Assim, pode-se dizer, totalmente sem controle, que a homofobia é “uma invenção marxista”, ou que a mulher “pretende um poder e reivindica um direito que não lhe diz respeito”.

Esse modo de pensar e de prover é uma pesada herança do antimodernismo. Depende de opções culturais e eclesiais que restringem sua perspectiva e seu porte. Ou seja, é afetado pela suspeita em relação a tudo o que é moderno e que “alteraria” as formas históricas de exercício da autoridade e do poder. Todas as formas de “emancipação” – da escravidão ou da doença, da marginalização ou da irrelevância – tendem a ser lidas, nessa perspectiva, de modo simplista como “desobediências” ou como “insubordinações”.

A incompreensão do princípio da liberdade e o fácil recurso a um “princípio de autoridade” totalizante constituem o coração de uma reação, tão visceral quanto pouco meditada. Assim, em vez de defender a tradição cristã, acaba-se defendendo apenas sua tradução em formas culturais certamente eficazes antigamente, mas agora velhas, unilaterais e inadequadas.

Nenhum debate, apenas obediência

Se esse é o horizonte que cerca as recentes reações consideradas – e que não se identifica em nada com o estilo da Igreja pós-conciliar –, sua recaída inevitável é a solução proposta, que evita o debate e que se refugia na “obediência à autoridade”. O silêncio se torna a única alternativa. Tal pretensão, que já havia marcado a Ordinatio sacerdotalis em 1994, e que agora é repetida, embora em um nível de autoridade certamente menor, é o sinal de uma grande dificuldade.

A Igreja Católica parece não saber se defrontar de modo equilibrado com a tradição do Evangelho e da experiência das pessoas. A esse propósito, é preciso recordar o que a GS 46 disse de modo inesquecível: “O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade”. E deve-se enfatizar que a “luz” nesse texto vem do Evangelho e da experiência humana: portanto, precisamos não apenas ler a experiência à luz do Evangelho, mas também o Evangelho à luz da experiência humana.

E a grande transformação da experiência feminina no último século deve levar a um caminho eclesial, a um processo de discernimento, que diga respeito às formas possíveis de “exercício oficial da autoridade” por parte dos membros da Igreja de sexo feminino. Isso, obviamente, também deve dizer respeito ao ministério ordenado, no modo de concebê-lo e de exercê-lo.

Sobre isso, o Papa Francisco abriu um debate útil e positivo, que relança essa pergunta de fundo, sobre o modo com que sabemos acolher e repensar a autoridade feminina na oficialidade eclesial. Sem pretender tudo imediatamente, é preciso predispor uma “mudança de paradigma” e uma “revolução cultural”, que prevejam a integração, o quanto antes, das mulheres no âmbito da “ordem sagrada”, aceitando uma prudente lógica da gradualidade, mas nunca se enrijecendo em um esquema “apologético”.

Uma comunhão “desconfiada”

Se, em vez de um debate sereno e de um discernimento comunitário, prefere-se impor o silêncio e não ouvir a realidade, é inevitável que se determine um estado eclesial a partir do qual se gerará uma “comunhão falha”, em uma condição forçada e em uma comunidade desconfiada.

Escutar o povo de Deus, no seu componente feminino, e reconhecer de modo novo e mais radical sua “eminentia auctoritatis” são hoje uma tarefa incontornável. Não será um caminho breve, mas ele deve começar sem vetos e sem resistências de princípio. Só assim poderemos construir uma verdadeira comunhão.

Se pensamos em negar a realidade e impor o silêncio, como poderemos realizar uma autêntica comunhão eclesial? Por que, em tal contexto, falar da “autoridade feminina” deveria ser considerado como uma “perturbação da comunhão”? Essa estratégia da suspeita, que é típica de uma sociedade fechada, não convém à Igreja. Ela não deve ter medo de se expor à verdade, mesmo quando esta a constrange a se pôr a caminho, a rever seus projetos e a se converter. Assim também o “escândalo” deve ser completamente reconsiderado: não é escandaloso querer aprofundar o perfil de autoridade do componente feminino da Igreja, para atribuir a ele o devido reconhecimento; antes, é escandaloso utilizar todo tipo de argumento – histórico, cristológico, antropológico, mariológico – a fim de impedir à mulher toda relevância em fato de autoridade.

Inverter a concepção do que é escândalo – como Francisco sugere na Amoris laetitia – é o início de um caminho promissor e de um processo de integração. Escandaloso não é falar a respeito. Escandaloso é calar e, ainda mais, pedir que os outros se calem.

Francisco aos teólogos argentinos e às futuras “academias cristãs”

A voz do Concílio Vaticano II, que é pontualmente ofuscada por essas formas de mentalidade estreita e asfixiante, encontra providencialmente uma ressonância bem diferente no magistério de Francisco, que, em diversos casos, nos pediu para “escutar” e ficar atentos à realidade, cujo primado sobre a ideia é um dado incontornável do seu magistério. Gostaria de recordar dois pontos particularmente explícitos nesse campo de reflexão.

Escrevendo à Universidade Católica de Buenos Aires (2015), Francisco disse:

Nossas formulações de fé nasceram no diálogo, no encontro, no confronto, no contato com as diversas culturas, comunidades, nações, situações que pediam uma maior reflexão diante do que não havia sido explicitado antes. Por isso, os acontecimentos pastorais têm um valor relevante. E as nossas formulações de fé são expressão de uma vida vivida e refletida eclesialmente. No cristão, algo se torna suspeito quando deixa de admitir a necessidade de ser criticado por outros interlocutores. As pessoas e suas diversas conflitualidades, as periferias, não são opcionais, mas necessárias para uma maior compreensão da fé. Por isso, é importante perguntar: em quem estamos pensando quando fazemos teologia? Que pessoas temos diante de nós? Sem esse encontro com a família, com o Povo de Deus, a teologia corre o grande risco de se tornar ideologia. Não nos esqueçamos, o Espírito Santo no povo orante é o sujeito da teologia. Uma teologia que não nasce no seu seio tem o odor de uma proposta que pode ser bela, mas não é real.

Mas, de modo ainda mais significativo, no extraordinário proêmio da constituição apostólica Veritatis gaudium (2018), encontramos esta expressão grandiosa e profética do magistério que hoje nos é pedido:

Na verdade, hoje em dia, a exigência prioritária é que todo o povo de Deus se prepare para empreender ‘com espírito’ uma nova etapa da evangelização. Isto requer ‘entrar decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma’ (...) Esta tarefa enorme e inadiável requer, a nível cultural da formação acadêmica e da investigação científica, o compromisso generoso e convergente em prol duma mudança radical de paradigma, antes – seja-me permitido dizê-lo – para ‘uma corajosa revolução cultural’. A este compromisso, a rede mundial de Universidades e Faculdades eclesiásticas é chamada a prestar o decisivo contributo de fermento, sal e luz do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição viva da Igreja sempre aberta a novos cenários e propostas.”

Nessa perspectiva, é preciso dialogar, escutar e sonhar, não calar. Uma Igreja viva fala e discute, até sobre as coisas mais fundamentais. Assim, ela poderá gerar silêncio: o silêncio da comunhão, não o silêncio da imposição. A inteligência da fé nunca pode se contentar com tal silêncio imposto: deve produzir o silêncio da comunhão através do diálogo e do debate. Caso contrário, para usar uma bela expressão de São Tomás, nos arriscaremos a nos confrontar com essa lúcida denúncia da redução da teologia a ato de autoridade:

“Se resolvemos os problemas da fé apenas com o método da autoridade, certamente possuímos a verdade, mas em uma cabeça vazia.”

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