Peru. Direita da Igreja procura melhorar a imagem junto ao Papa

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20 Janeiro 2018

A direita da Igreja peruana fala agora maravilhas de Francisco e esconde as profundas diferenças que tem com ele para tirar proveito do entusiasmo que o Papa desperta entre os peruanos.

A reportagem é de Carlos Noriega, publicada por Página/12, 19-01-2018. A tradução é de André Langer.

O Papa Francisco chegou ontem [quinta-feira] a Lima no 483º aniversário da fundação da cidade. Ele desceu do avião, procedente do Chile, às 16h53 (18h53, horário da Argentina), para encontrar-se com um país envolvido em uma séria crise política e social após o indulto presidencial de Natal concedido ao ex-ditador Alberto Fujimori.

O Papa foi recebido pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski. Sufocado pela crise, isolado e muito enfraquecido, o presidente peruano vê na chegada do Pontífice – cuja visita se realiza sob o lema “Uma mensagem de entendimento para todos” – uma oportunidade para que a tensão social baixe e poder tomar um pouco de oxigênio. Para o presidente, será um respiro breve.

Depois das saudações protocolares, o Papa entrou em um pequeno Fiat 500 preto. Ele se acomodou no banco de trás. Milhares de pessoas esperavam por ele nas ruas desde a sua saída do aeroporto. Elas estavam há horas esperando por Francisco. A euforia aumentava cada vez que o Papa saudava as pessoas com a mão levantada.

Após trinta minutos de viagem, a comitiva papal parou em frente a uma monumental imagem de Nossa Senhora. O questionado prefeito de Lima, Luis Castañeda, estava à espera de Francisco, e, em uma breve cerimônia de dois minutos na rua, ao pé da estátua, entregou-lhe as chaves da cidade.

Francisco subiu no papamóvel para percorrer outro percurso de cerca de 20 minutos até chegar à Nunciatura Apostólica, no distrito de Jesús María. Ali, dormirá enquanto durar a sua visita ao país, assim como fez João Paulo II nas suas viagens ao Peru em 1985 e 1988. Na frente da Nunciatura, outra multidão entusiasmada aguardava por ele. Francisco deu uma rápida bênção. “Rezem por mim”, disse e entrou na Nunciatura.

O arcebispo de Lima, Luis Cipriani, estava ao lado de Francisco desde a sua chegada ao aeroporto até sua chegada à Nunciatura. Cipriani, membro do ultraconservador Opus Dei e nomeado arcebispo por João Paulo II, é um defensor da ditadura de Fujimori que disse coisas, tais como: “os direitos humanos são uma droga” ou “os homossexuais não estão no plano de Deus”.

Assim como o presidente Kuczynski, o cardeal Cipriani, que se tornou um fator de descrédito da Igreja e de divisão interna, também espera que aparecer perto do Papa Francisco possa melhorar sua imagem muito deteriorada e usar essa visita a seu favor.

Um reconhecido sacerdote, que, para evitar as represálias de Cipriani, pediu para não revelar seu nome, disse a este jornal que “a ala direita da Igreja peruana, liderada por Cipriani, agora fala maravilhas do Papa e esconde as profundas diferenças que tem com ele porque ele procura estar perto do Papa durante a sua visita para tirar proveito dela, mas, na realidade, Cipriani e essa direita estão na contramão de Francisco”.

Hoje [sexta-feira], muito cedo, Francisco viajará para a região amazônica de Madre de Dios, especialmente afetada pela degradação ambiental, onde, no coliseu da cidade de Puerto Maldonado, terá um encontro com as comunidades indígenas da Amazônia, o setor mais marginalizado do país, naquela que será a atividade mais significativa da sua viagem ao Peru. Espera-se que Francisco faça um apelo em defesa do meio ambiente, na linha da sua encíclica Laudato Si’ (Louvado Sejas) e dos direitos dos povos originários. Depois almoçará com nove representantes indígenas em um centro de pastoral.

Sobre o que os povos indígenas esperam do encontro com o Papa Francisco, Página/12 falou com Julio Cusurichi, presidente da Federação Nativa do Río Madre de Dios e Afluentes. “O Papa vai encontrar uma Amazônia ferida, meio moribunda por causa da poluição e da depredação, mas também vai encontrar povos indígenas que vêm contribuindo para a preservação do meio ambiente e a defesa dos direitos humanos. É muito importante que o Papa nos ouça e apoie as nossas demandas para que os nossos direitos sejam respeitados. Nós não esperamos que venha com uma varinha mágica para resolver os problemas, mas sua presença deve servir para sensibilizar o governo e fazer as autoridades refletirem para que mudem sua política atual que dá mais prioridade à indústria extrativa do que ao trabalho responsável e sustentável da Amazônia”.

Dois temas que não estão na agenda oficial, mas que vão pairar no ar durante a visita papal, são as denúncias de abusos sexuais dentro da Igreja e o questionado indulto presidencial de Fujimori e o que isso significa como um ato de impunidade diante das violações dos direitos humanos. As vítimas que pedem justiça pediram para se encontrar com o Papa, mas em nenhum dos casos receberam, até agora, uma resposta.

A quem, sim, o Papa irá receber é o treinador da seleção peruana de futebol, o argentino Ricardo Gareca, que se tornou uma celebridade ao conseguir classificar o Peru para uma Copa do Mundo depois de 36 anos.

Os abusos de menores, com o caso do Sodalício de Vida Cristã, organização católica de extrema direita, no epicentro do escândalo, e um comportamento da Igreja de acobertar esses abusos, ameaçam complicar a visita de Francisco ao Peru. Na tentativa de diminuir o tom da crítica da Igreja por esses acontecimentos, o Papa ordenou, uma semana antes da sua chegada ao Peru, uma intervenção no Sodalício por parte do Vaticano, mas o fundador desta sociedade apostólica, Luis Figari, acusado de reiterados abusos de menores ao longo de três décadas e para quem o Ministério Público peruano pediu prisão preventiva, permanece em Roma sob a proteção do Vaticano.

Ontem, um grupo de mulheres protestou em frente à catedral de Lima com cartazes que diziam: “O Papa protege pederastas”. Elas foram rapidamente dispersadas pela polícia.

Os familiares das vítimas de violações aos direitos humanos esperam que Francisco traga uma mensagem de condenação a esses crimes e de apoio às suas demandas de justiça. Um pronunciamento papal nesse sentido seria especialmente significativo no contexto do indulto concedido ao ex-ditador Fujimori.

A agenda de Francisco também inclui uma reunião, hoje [sexta-feira], com o presidente Kuczynski no Palácio do Governo; uma viagem, no sábado, à cidade de Trujillo, no norte do país, localizada na região costeira seriamente afetada pelas inundações há um ano; uma visita a uma prisão nessa cidade; encontros com membros da Igreja, entre outras atividades. No domingo à tarde encerrará sua viagem ao Peru com uma missa em uma base militar em Lima, para a qual são esperadas um milhão e duzentas mil pessoas.

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