Peru. Após crise de abusos, Vaticano intervém no Sodalício de Vida Cristã

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11 Janeiro 2018

O Vaticano intervém no Sodalício de Vida Cristã (Sodalitium Christianae Vitae), a sociedade de vida apostólica peruana, símbolo da expansão da evangelização que durou décadas na América do Sul, que se precipitou em uma crise sem precedentes após vários casos de abuso, inclusive sexuais, perpetrados pelo fundador, Luis Fernando Figari, e por outros membros do alto escalão.

Na próxima semana o Papa Francisco visitará o Peru depois da sua passagem pelo Chile.

A reportagem é de Andrés Beltramo Álvarez, publicada no sítio Vatican Insider, 10-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa quarta-feira, 10, a Santa Sé nomeou um comissário e confirmou que o papa “acompanhou com preocupação” o caso através de todas as informações que, há vários anos, chegam à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Informações de notável “gravidade”, que “dizem respeito ao regime interno, à formação e à gestão econômico-financeira” da associação.

Com a autorização de Francisco, o Dicastério para a Vida Consagrada promulgou nessa quarta-feira um decreto com o qual determina a intervenção vaticana e nomeia como comissário o bispo colombiano Noel Antonio Londoño Buitrago, prelado de Jericó (Antioquia).

Ao mesmo tempo, comunicou que o cardeal estadunidense Joseph William Tobin, nomeado em 2016 como “delegado papal” para essa realidade eclesial, continuará desempenhando o papel de “referente”, em particular “para as questões econômicas”. Ambos os bispos manterão o cargo de acordo com a fórmula do “ad nutum”, ou seja, até que se decida de outro modo.

“O Santo Padre Francisco acompanhou com preocupação todas as informações que, há diversos anos, chegam à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica sobre a situação do Sodalício de Vida Cristã. O papa mostrou-se particularmente atento à gravidade das informações que dizem respeito ao regime interno, à formação e à gestão econômico-financeira, motivo pelo qual pediu com insistência ao Dicastério uma atenção particular”, afirma o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé.

“A isso – continua – somaram-se recentemente as sérias medidas adotadas pela autoridade judicial peruana contra o Sr. Luis Fernando Figari. Após uma aprofundada análise de toda a documentação, o Dicastério promulgou o decreto de intervenção.”

O procedimento surpreendeu a todos, embora tenho sido invocado por muitas partes, dentro e fora do Sodalício. É a primeira vez que a Santa Sé divulga um comunicado oficial sobre a situação desse órgão. Todas as informações anteriores publicadas até agora sobre a crise haviam sido divulgadas pelos próprios superiores ou através dos filtros da imprensa.

Histórico de escândalos

Em maio de 2016, após um grande escândalo midiático, a Congregação vaticana, liderada pelo cardeal João Braz de Aviz, divulgara um comunicado em que anunciava a nomeação de um delegado apostólico na pessoa de Tobin.

Como explicado naquela ocasião, a sua missão era a de guiar o governo geral na avaliação das decisões a serem adotadas em relação às acusações feitas contra o fundador e de vigiar sobre a origem e a administração dos bens da sociedade de vida apostólica.

Já na época, muitas pessoas se perguntavam, tanto na Cúria romana quanto em outras partes do mundo, por que a Santa Sé não havia ido até o fim da questão, nomeando um comissário. Tal figura difere da do delegado pelo papel de responsabilidade mais do que de acompanhamento e por ter todo o poder em mãos.

A resposta a essa demanda foi dada pelo próprio Tobin em uma entrevista publicada em agosto de 2016 no site do Sodalício, na qual ele afirmava que um comissário não havia sido nomeado “porque o Vaticano ainda tem esperança no atual governo do instituto. Geralmente, é quando há uma certa ingovernabilidade que a Santa Sé julga necessário nomear um comissário. Atualmente, não se sente tal necessidade”.

Essa esperança, evidentemente, acabou. A nomeação do novo comissário implica uma “decapitação” de fato da cúpula do Sodalício com a efetiva perda de poder do superior geral, Alessandro Moroni Llabrés, que teve que enfrentar a pior crise que esse movimento de origem peruana, fundado em 1971 e que hoje tem uma presença em diversos países, jamais teve que atravessar. Todo o escândalo já havia desgastado a sua autoridade.

O decreto de 2016, assinado por Dom José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para a Vida Consagrada, era o resultado de uma investigação realizada por um bispo visitador, o prelado de Chota, Fortunato Pablo Urcey.

Ainda em 2011, o Vaticano recebera várias denúncias de casos de abuso por parte de Figari e de outros superiores. A maioria dos crimes haviam surgido graças a um relatório realizado por uma comissão independente formada por cinco notáveis (também chamada “de ética para a justiça e a realização”).

Paradoxalmente constituída pelo próprio Sodalício, a comissão realizou investigações durante semanas e escutou o testemunho de 245 pessoas, publicando, no fim, um relatório detalhado e devastador em que eram denunciados abusos sexuais, físicos e psicológicos. E em que, entre outras coisas, Figari era descrito como uma personalidade “narcisista, paranoica, degradante, vulgar e vingativa”.

Uma realidade que contrasta surpreendentemente com a história de sucesso desse movimento, transformado pelo seu iniciador em um grupo de elite, fundador de escolas e instituições. Ao lado dele, o seu “braço direito”, Germán Doig, que levou a associação para além das fronteiras peruanas.

Reconhecido por bispos e cardeais, o auge da notoriedade do Sodalício foi o dia 3 de junho de 2006, quando, na véspera da Solenidade de Pentecostes, Figari foi um dos líderes do restrito grupo de movimentos eclesiais que tomou a palavra diante de Bento XVI.

Enquanto tudo isso acontecia, muitos membros internos da comunidade viviam um inferno, vítimas de atos sexuais, de escravidão, de demandas extravagantes, de violência verbal e psicológica. A lista dos abusos cometidos por Figari entre 1975 e 2009 inclui violências contra menores e adultos, manipulações com intenções sexuais, insultos e humilhações. Em todos os casos, as vítimas eram jovens em formação.

Em dezembro de 2017, o Ministério Público do Peru solicitou a prisão preventiva de Figari e dos outros membros de Sodalício pelos supostos crimes de associação criminosa, sequestro de pessoas e graves lesões psicológicas.

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