Vida religiosa: não é tempo de "ars moriendi". Entrevista com João Braz de Aviz

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21 Fevereiro 2017

Entrevistamos o cardeal João Braz de Aviz no dia 10 de fevereiro passado, depois da conclusão do Ano da Vida Consagrada (iniciado em fevereiro de 2016) e dos trabalhos de uma dupla “plenária” da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Nascido no sul do Brasil (1947), padre em 1972, foi bispo de algumas dioceses brasileiras antes de ser chamado para a Congregação. A franqueza das suas opiniões se encontra confirmada.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi e Marco Bernardoni, publicada no sítio Settimana News, 17-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Senhor cardeal, que impressão o senhor teve do diálogo do papa com os superiores gerais (25 a 27 de novembro de 2016), recentemente publicado pela revista La Civiltà Cattolica?

Eu estava presente pessoalmente naquele encontro. E posso dizer que há uma novidade. Vejo um compromisso novo – com o qual estou admirado – por parte do papa, que conhece a vida consagrada, capta com profundidade as suas dinâmicas e a estimula a reencontrar o caminho de um testemunho do qual a Igreja não pode abrir mão. Trata-se de algo que, quando eu me tornei prefeito da Congregação, não se podia sequer imaginar. Cheguei em Roma em um momento difícil. Muitas vezes, eu ouvia dizer dos religiosos que era o momento de aprender a ars moriendi, assim mesmo, em latim. E me fazia mal essa desconfiança na força dos carismas, da ação do Espírito.

Lembro-me de um esforço pessoal no caso que levou à substituição do então secretário, Dom Tobin, agora arcebispo de Newark e cardeal. Hoje, o senhor também lê o esforço daqueles dias como providencial?

Eu tinha confiança, mesmo então. Nenhuma dor na Igreja está destinada a permanecer estéril, se for vivida na fé. No entanto, lembro bem o esforço daqueles dias e as perguntas que me atormentavam. Via o nosso serviço tão perto de um carisma tão grande e único, como o de Pedro, e, ao mesmo tempo, a ferida daquele que me parecia ser um jogo de poderes difícil de aceitar. Isso realmente nunca me surpreendeu, mas me fez sofrer muito. Hoje, eu leio o momento que estamos vivendo como uma confirmação de que Deus estava agindo, e que era preciso ter paciência. Confio na ação da Providência, que eu vejo presente e forte.

Quais são as orientações máximas na redefinição das Mutuae relationes?

Recentemente, celebramos duas plenárias. A primeira, junto com o dicastério para os bispos e, em seguida, uma interna nossa. No que diz respeito à redefinição das Mutuae relationes, tínhamos na nossa frente duas direções indicadas pelo papa. Primeiro, apontar para o fundamento teológico de cada relação na Igreja, que é o trinitário; ou seja, o tema da comunhão na Igreja como expressão do próprio mistério de Deus. A segunda direção é a indicada na coessencialidade dos dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja (cf. carta Iuvenescit Ecclesia). As duas dimensões não devem se opor nem viver uma constante tensão conflitante. Descendendo da mesma fonte – a vida do Espírito – elas são chamadas, na liberdade recíproca, a se comporem em uma relação de comunhão.

Parece-me que aqui o ponto foi focado com grande clareza. Obviamente, é isso que devemos construir. Na elaboração do texto, ajudaram-nos, para a parte do fundamento teológico-trinitário, dois teólogos, a Ir. Mary Melone e o Pe. Piero Coda, e, para a parte jurídica, que devia harmonizar sem mortificar as dimensões hierárquica e carismática, um excelente canonista como o Pe. Gianfranco Ghirlanda. Na terceira parte, a mais pastoral, que trazemos mais particularmente no coração, propomos rever todas as relações na Igreja – não só aquelas entre bispos e superiores religiosos – em uma chave de antropologia trinitária. Nisso, estamos convencidos de poder dar uma boa contribuição para o caminho de reforma que o papa está levando adiante. Estamos apenas no início de algo que, na vida da Igreja, está destinado a emergir com força crescente: a expressão do rosto de Deus e do Seu mistério de amor trinitário.

Na América Latina, falava-se de “duplo magistério” carismas-hierarquia. O que permanece hoje dessa tensão?

Na América Latina, conhecemos um forte desenvolvimento da consciência social e da capacidade dialógica. E isso porque sofremos muito. Entre nós, não se podia mais pensar a fé sem uma correspondente transformação social. É claro, houve os eventos bem conhecidos ligados a algumas teologias da libertação, que tiveram uma inclinação excessivamente sociológica, esvaziando-se, de fato, do mistério. Mas a doutrina social da Igreja foi e continua sendo, para nós, latino-americanos, o lugar natural a partir de onde pensar a fé. Aproximar-se dos mais pobres e estar do seu lado é algo que, graças ao Papa Bergoglio, está voltando a ser central para toda a Igreja.

As queixas mais comuns dos bispos em relação aos religiosos, e vice-versa, ainda existem?

Ainda existem. Às vezes, são justamente acusações recíprocas. Percebemos isso muito bem, porque é aqui, entre nós, que chegam os problemas. A queda numérica e os fechamentos na vida consagrada estão fazendo surgir cada vez mais frequentemente nas dioceses disputas relativas às propriedades patrimoniais: para quem vão? Depois, há a passagem de sacerdotes religiosos de um lado para outro, que deve ser regulada. Depois, há questões relativas à relação entre autoridade e obediência, porque os carismas não nascem do bispo, mas do Espírito Santo, e estão a serviço da Igreja. Cabe ao bispo discernir a sua autenticidade. Depois, é preciso trabalhar mais sobre a relação entre carismas históricos e carismas atuais.

O que requer dos religiosos o convite para colaborar diretamente na pastoral ordinária de uma Igreja particular?

Sem dúvida, é um dos aspectos de maior tensão e incompreensão. Os bispos devem compreender que a vida consagrada não é um apêndice da Igreja, mas é coessencial à vida e à missão da Igreja, é parte dela. Será preciso, por exemplo, ajudar aqueles bispos que não querem ter consagrados na diocese a entenderem que, sem os consagrados, a Igreja de Cristo deixa de ter uma dimensão essencial. Por parte dos religiosos, por outro lado, é necessário o esforço nada pequeno de uma melhor inserção dos carismas na vida diocesana. Não se deve esquecer que um carisma tem as suas dimensões próprias, que vão além da vida diocesana. Mas a sua presença enriquece a vida de uma igreja local, por exemplo, com uma dinâmica missionária muitas vezes cansada. Para sustentar o processo de comunhão, apontamos muito para as comissões mistas nas Igrejas particulares: queremos que sejam verdadeiros lugares de conhecimento e de diálogo, instituídos estavelmente, entre representantes do bispo e dos carismas presentes na diocese.

A segunda plenária, a plenária interna de vocês, falou dos abandonos.

Trata-se de um problema sério e grave. Estamos com cerca de 2.000 abandonos por ano, de todas as idades. A análise do problema nos revelou uma realidade bastante complexa, com muitas motivações. Não há dúvida de que a mudança cultural que estamos vivendo é um fator central, porque mudou a sensibilidade de gerações inteiras em relação aos aspectos próprios da vida consagrada, que devem ser novamente tornados compreensíveis e vivíveis. Penso, por exemplo, no modo de viver a obediência ou no modo de viver a relação homem-mulher.

Temos paradigmas que não são mais aceitáveis na cultura atual. Não tem sentido que, para o homem consagrado, a mulher ainda seja vista como um perigo, e vice-versa. A obediência não pode configurar uma relação desequilibrada entre superior e inferior, porque isso simplesmente não é cristão. A fraternidade continua sendo essencial também no serviço da autoridade. Além disso, a excessiva proximidade entre carisma e ministério ordenado acabou relegando os irmãos religiosos a uma espécie de consagração diminuída. Pensemos também no tema da felicidade e da realização pessoal. Hoje, eu tenho que ser feliz naquilo que faço. Se, depois de 15 anos de vida consagrada, eu não o sou, vou embora, sem muitos problemas. Ouve-se dizer: “Eu não estou mais feliz. Deus me chama para outro lugar”. E isso acontece hoje em todas as idades. O famoso “para sempre”, na realidade, é posto sob condição: “Se eu for feliz”.

Aqui, abre-se uma conexão singular entre vida consagrada e vida familiar. Esses processos desagregadores operam nos dois âmbitos. É bom pensar que a reafirmação da fidelidade na vida consagrada possa se tornar a melhor defesa da fidelidade na vida familiar.

O Papa Francisco incentiva muito esse tema. Não existe uma santidade diferente para casados e consagrados. O caminho é comum. A característica própria da vida consagrada – lembra-nos o papa com insistência – não é a radicalidade evangélica que é exigida para todos, mas é a profecia vivida através dos três votos. Eu confesso que me alegrei muito quando ouvi o papa dizer essas coisas. Eu disse para mim mesmo: “Eu, sacerdote e bispo, devo fazer o mesmo caminho de uma mãe ou de um jovem operário”. O fato de ser bispo não me dá qualquer garantia de ser santo.

O papa abordou muito as novas fundações. Pode nos dizer quantas delas estão atualmente sob investigação por parte da Congregação para os Religiosos?

Há cerca de 70 novas famílias religiosas sobre as quais colocamos a nossa atenção. Fizemos visitas, e algumas estão revelando casos realmente preocupantes, com graves problemas de personalidade nos fundadores e fenômenos de plágio, de forte condicionamento psicológico dos membros. Há fundadores que se revelaram como verdadeiros donos das consciências. O critério não é mais a unidade com a Igreja, a unidade com Pedro. Frequentemente, justamente os fundadores mais rígidos se revelaram como pessoas incapazes de obedecer, pessoas que sempre devem permanecer no comando. Obviamente, trata-se de dinâmicas desequilibradas e inaceitáveis.

Hoje, são cerca de 15 os fundadores sob investigação. E, quando nos movemos – e o fazemos depois de receber indicações e denúncias –, geralmente há um problema de verdade, às vezes até mesmo grave. O papa deseja transparência, ele quer clareza, e nos exortou a fazer um discernimento corajoso sobre o que é carisma e o que não é. Ele nos apoia totalmente. Além disso, também é necessário que os bispos locais se sintam chamados em causa quanto à vigilância sobre as formas de vida consagrada que acolhem na diocese. As omissões, nesse sentido, tornam os problemas mais difíceis de enfrentar: se, de fato, intervém-se quando um problema está começando, é sempre mais fácil geri-lo.

De vez em quando, volta a questão da vida consagrada ad tempus.

A esse propósito, o papa faz uma comparação que – a meu ver – é iluminadora. O que aconteceria se Jesus tivesse nos salvado ad tempus? Para seguir Jesus, portanto, é preciso a coragem de ir até o fim. Ele diz outra coisa, depois, que, para mim, é bela e verdadeira: quando você é provado, não vá embora, porque senão Jesus volta para lhe consolar e não lhe encontra. Eu acho essa frase muito bela na sua simplicidade. É preciso permanecer se esforçando, porque ali o Senhor nos trabalha e nos purifica. É claro, existem coisas para corrigir na vida consagrada. No passado, na formação, insistimos demais na mortificação de alguns aspectos do humano, cuja negação hoje é inaceitável na nossa cultura. A imagem do homem e da mulher consagrados, por exemplo, não pode ser apenas a de duros voluntaristas não afetivos. Hoje, a sociedade não busca super-homens ou super-mulheres. Ela precisa de profecia.

O que resta no seu coração do Ano da Vida Consagrada?

Uma grande esperança. Intui-se que chegou o momento para que os consagrados recuperem a sua esperança. Há muitos elementos positivos em movimento. Já está claro que a vida consagrada sobrevive – mesmo em uma época de queda numérica – quando se reacende nos corações a paixão de seguir o Senhor. As obras não são mais suficientes ou, melhor, podem ser fardos que sufocam. Elas também podem ser repassadas sem medo, se a paixão pelo seguimento estiver viva. Mas quantos institutos religiosos estão realmente preparados para tal passagem?

A vida consagrada no futuro será uma vida muito mais baseada na comunhão e em fazer as coisas juntos, também como institutos. Eu penso na formação, mas poderia dar muitos outros exemplos de âmbitos em que os consagradas deveriam se ajudar. Até agora, não fomos capazes de trabalhar juntos. Vemos, no campo econômico, que dois capitalistas fanáticos se unem para fazer mais dinheiro. E nós – discípulos de Jesus Cristo, que é a própria fonte da comunhão – corremos o risco de ser menos do que aqueles que só pensam com os cálculos humanos. Continuando assim, que inspiração poderemos dar à sociedade?

O que fazemos com o “religioso” Lutero a 500 anos da Reforma?

Sem dúvida, estamos conhecendo melhor e compreendendo mais Lutero. Se partirmos da ideia de que a Igreja só é santa, não conseguimos compreendê-lo. Em vez disso, se pensarmos que a Igreja é santa, mas, nos seus membros, é pecadora, então o compreendemos. Sabemos muito bem que, na história da Igreja Católica, fizemos erros grandes. E pedimos perdão. A fidelidade à verdade para nós é uma questão decisiva, e não devemos ter medo de acusar os próprios erros. Também sabemos que o Senhor está nos impulsionando nas estradas da busca dessa unidade visível.

Acho que podemos dizer que, nestes anos, mudou a atividade da sua Congregação.

Com efeito, estamos tomando consciência de que a função da nossa Congregação não é só de vigilância, não temos apenas o instrumento do direito canônico, mas também de animação da vida consagrada. Dedicamos muito tempo nesses anos à escuta das pessoas. Durante o Ano da Vida Consagrada, eu e o secretário visitamos 70 países. Sabemos que devemos dar um testemunho e queremos que seja de proximidade às pessoas. Estamos cientes da importância do direito canônico, mas ele não pode ser a única abordagem. Acima de tudo, devemos estar atentos à pessoa e à sua dor. O papa nos lembra disto: não adianta uma doutrina exata ou a defesa de uma verdade objetiva, se perdermos a pessoa. Os defensores da própria verdade são, muitas vezes, defensores de uma ideologia. É preciso entrar na dor da pessoa e, com ela, levantar-se. E aqui entre nós recebemos e escutamos realmente muitas histórias feridas de pessoas consagradas. Nisso, sente-se que o Vaticano começa a ter um coração. Somos corajosamente estimulados a isso pelo Papa Francisco.

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