Mais Evangelho na gestão dos bens das comunidades religiosas. Entrevista com João Braz de Aviz

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06 Agosto 2014

Em um mundo dominado pelas lógicas de mercado, o Evangelho deve ser o critério fundamental para a gestão dos bens nas comunidades religiosas. Por isso, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicará nos próximos dias algumas diretrizes sobre a economia. O documento também é fruto do simpósio sobre economia realizado na Antonianum, em março passado.

A reportagem é de Nicola Gori, publicada no jornal L'Osservatore Romano, 01-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O anúncio é feito nesta entrevista ao L'Osservatore Romano pelo cardeal prefeito, João Braz de Aviz, que também traça um perfil do religioso segundo os ensinamentos do Papa Francisco.

Eis a entrevista.

A gestão dos bens patrimoniais das comunidades religiosas em um tempo de crise de vocações e também de crise econômica representa um duplo desafio. Como enfrentá-la?

O assunto é de atualidade candente. Por isso, o Papa Francisco desejou que se dedica um simpósio a ele. E nós o organizamos entre os dias 8 e 9 de março passados na Pontifícia Universidade Antonianum. O tema dos trabalhos dizia respeito justamente à gestão dos bens eclesiásticos religiosos "a serviço do humanum e da missão da Igreja". E encontramos uma grande exigência de algo de mais profundo e novamente nesse âmbito. Entendemos isso quando vimos a sensibilidade dos religiosos ao participar do simpósio. Preparamo-nos para receber 400 de pessoas, mas não só vieram 600, como também outras 500 ficaram de fora.

A que se deve essa grande expectativa?

Ao fato de que o problema é real. Por um lado, há um novo florescimento de mosteiros, ermidas, congregações, novas sociedades de vida apostólica, mas, por outro, há um declínio bastante acentuado de algumas realidades. Tal declínio levanta questões em relação aos bens. A quem vão esses patrimônios? Como fazer? E esse é só um aspecto do problema.

E o outro aspecto a se considerar?

É o que diz respeito aos religiosos que atuam no âmbito da educação e da saúde, que veem mudar as suas relações com os Estados, não só na Itália, mas no mundo. Essas relações se tornaram mais difíceis, porque, em muitos casos, a colaboração que havia antes agora não existe mais. Para dizer a verdade, parece que ainda existe e se confia nela, mas nos encontramos em um beco sem saída. O dinheiro do Estado não chega ou chega muito tarde ou em menor medida. Outro fator a se ter em mente é a não preparação técnica de alguns consagrados na gestão dos bens com os novos regulamentos estatais e as várias implicações administrativas. Por isso, é urgente uma formação mais ampla. Além disso, é preciso que certos critérios de administração evoluam dentro da Igreja, porque a gestão não pode ser de tipo capitalista, mas evangélico.

O que isso significa, concretamente?

Vivemos em uma cultura que considera o capitalismo como a lei que governa a gestão do dinheiro. Para os religiosos, não deve ser assim: deve prevalecer o Evangelho, não o contrário. Enquanto isso, em muitos casos, o Evangelho é posto em segundo plano. Nesse sentido, a nossa mentalidade deve mudar muito. Precisamente por isso, graças também à contribuição de muitas pessoas que amadureceram uma experiência no âmbito da gestão dos bens religiosos, nós realizamos diretrizes orientativas para a gestão dos bens nos institutos de vida consagrada e nas sociedades de vida apostólica, que publicaremos nos próximos dias.

A propósito de documentos, a Congregação do senhor, em colaboração com a dos bispos, está revendo o Mutuae relationes, ou seja, os critérios diretivos sobre as relações entre os prelados e os religiosos na Igreja.

O papa pediu isso explicitamente. E há algumas novidades. Em primeiro lugar, acreditamos – e o Papa Francisco confirmou – que um dos critérios para estabelecer relações maduras entre bispos e superiores religiosos nos vários carismas é a espiritualidade de comunhão. Esse deve ser o critério. João Paulo II dizia que esse será o critério para o novo milênio cristão. Isso tem consequências muito fortes na relação entre bispos e fundadores. As duas realidades são necessárias, mas devem tomar como modelo para as relações humanas a comunhão da Trindade. Em segundo lugar, inspiramo-nos no Papa Wojtyla, quando ele diz uma expressão em certo sentido nova e fala de aspectos coessenciais da Igreja. Um é o aspecto carismático, e o outro é o hierárquico. Ele não diz que estão submetidos um ao outro, porque não o são.

No carisma, fala o Espírito Santo. Por outro lado, nenhum carisma existe na Igreja se a Igreja não o confirmar. Se essa relação não passa entre as duas partes, baseado no mistério, há problemas, sobreposições. O Espírito Santo não está submetido à hierarquia; é o contrário. É preciso corrigir essa mentalidade, porque não somos donos do mistério. Por outro lado, o Espírito não cria confusão, mas harmonia para o desenvolvimento da Igreja. E o pontífice convida a seguir em frente na coessencialidade. Esses dois princípios guiarão o trabalho que estamos fazendo junto com a Congregação para os Bispos, 36 anos depois do Mutuae relationes. Espero que o documento esteja pronto para o Ano da Vida Consagrada.

Entre os documentos em revisão está também a constituição apostólica Sponsa Christi de Pio XII?

Sim, embora os trabalhos ainda estejam no início. Mas o papa quer que o texto seja revisto, porque é pré-conciliar. Ficamos um pouco surpresos que não havia uma constituição apostólica posterior sobre o mesmo tema, mas só uma instrução de 1999, a Verbi sponsa. Neste momento, estamos ouvindo as consagradas de vida contemplativa. Queremos amadurecer com elas. Promovemos uma sondagem sobre três pontos: a questão da autonomia, a formação e a clausura. Em relação à autonomia, é preciso entendê-la bem, para que favoreça a vida comunitária segundo as várias regras. O segundo ponto é a questão da formação. Como oferecer a formação? Apenas dentro do mosteiro? E como fazer para que algo a mais seja garantido, para que não permaneçam à margem da Igreja ou que a sua riqueza não saia? Terceiro aspecto: como viver a clausura no mundo de hoje.

O senhor mencionou antes o Ano da Vida Consagrada. O que espera desse evento?

Estamos conscientes dos problemas que existem na vida religiosa. Mas queremos ver o aspecto positivo, porque os consagrados são um imenso dom para a Igreja. Por isso, queremos dar uma olhada no passado, mesmo que tenha havido dificuldades, erros, sobretudo desde o Concílio Vaticano II até hoje, mas olhar com uma memória agradecida. A gratidão é essencial, porque esse dom de Deus foi muito grande. Buscamos descobrir qual foi a ação de Deus na vida consagrada. Queremos também olhar para o presente com paixão. Ou recompomos esse olhar de paixão da vocação dos consagrados ou não temos lugar na Igreja. O que aconteceu com os consagrados? Houve um olhar de Deus que deu um carisma, como um dom a ser vivido. Portanto, é a experiência de Deus que importa acima de tudo. E não se pode perder isso.

Podem-se deixar as obras, as estruturas, coisas da nossa história que são secundárias. Mas o olhar de Deus, o seu amor, não podemos perdê-lo. Então, focalizamos tudo isso no presente. E, para o futuro, como Deus, na Bíblia, em toda a história, nunca abandonou o ser humano e nunca foi infiel – a infidelidade sempre foi da parte do ser humano –, queremos olhar para a frente com muita confiança. Não é que estamos caminhando rumo à destruição. Vamos rumo à purificação da experiência de Deus. Isso é diferente. Então, não é tanto aprender a ars moriendi, mas aprender a seguir o Senhor. Para refletir, também são úteis as cartas circulares que estamos publicando. A primeira foi Rallegratevi. A segunda será baseada no Êxodo, na experiência do povo de Deus que olhava para a nuvem para perscrutar os sinais divinos.

Quais objetivos vocês fixaram?

Nesse caminho para o Ano da Vida Consagrada, temos três propósitos, muito simples, mas muito positivos, inspirados no Concílio: a sequela Christi, porque não é possível ser consagrado se não somos discípulos de Jesus. O Vaticano II diz para ir à centralidade da Palavra e da vida de fraternidade. Devemos rever completamente o conceito de autoridade e de obediência. Rever também as relações homem-mulher que devemos aprofundar muito mais. O segundo objetivo é voltar para a inspiração inicial dos nossos fundadores. Estamos no que é essencial ou estamos fora da pista? É preciso encontrar a coragem para cortar o que não é do fundador e permanecer fiel a ele. Ou seja, voltar para a sua intuição carismática. O terceiro objetivo é ter a consciência de que Deus falou no passado e fala ainda no presente. As pessoas de hoje, no entanto, não são as de ontem. Devemos atualizar a mensagem, é preciso ter a força de ouvir. Às vezes, pensamos seguir a Cristo, mas de uma forma ligada a um determinado tempo. Isso não adianta. Porque, se o fundador estivesse vivo, dialogaria com o mundo de hoje. É preciso abrir os nossos ouvidos para a cultura atual e captar as exigências às quais o Evangelho pode responder.

Pode-se traçar o perfil do religioso segundo os ensinamentos do Papa Francisco?

Acima de tudo, penso que o religioso é um profeta, como diz o bispo de Roma. É a profecia que define o religioso, porque ele anuncia valores que estão se aperfeiçoando e que serão os do futuro. Isto é, ele anuncia no hoje as coisas que virão. O religioso deve despertar o mundo, para que conheça e saiba disso, que se confronte com essa experiência. Se pensarmos na consagração a Deus na virgindade, em não se apoiar sobre os bens, em não ter autoridade no sentido da opressão, mas no sentido da fraternidade, ele anuncia valores proféticos. O consagrado, então, pode realmente despertar o mundo. O papa também insiste muito na questão da fraternidade para sair ao encontro das pessoas, dos pequenos, dos pobres. Na fraternidade, se não se tiver um clima de família, não se permanece. Busca-se encontrar o próprio lugar na Igreja. No entanto, às vezes, não se encontra, não porque não se tem o chamado, mas porque a pessoa não encontrou uma casa, não é feliz. O pontífice, além disso, não vê a vida consagrada como uma realidade aberta para que os outros entrem, mas aberta para sair, para dizer aquilo que se tem. Mas, se alguém não tem, o que pode oferecer? Nesse sentido, há um desejo muito grande de autenticidade. Ir ao encontro dos pobres já está presente nos religiosos, que, com um coração imenso, estão presentes e próximos de quem está em necessidade. É preciso fortalecer ainda mais essa presença.

Como o senhor vê o futuro dos consagrados?

Prevejo que muitas das formas históricas se aperfeiçoarão. Não é mais possível ter uma visão "autoritária" da autoridade. Não somos mais porque somos superiores, mas irmãos e irmãs como os outros. Também não pode haver uma obediência que diminua a pessoa. Obedecemos para ser mais, para poder entrar na profecia de Deus. A outra questão a se refletir é que a afetiva e sexual. Afastamo-nos entre homem e mulher de um modo que não é correto, porque não nos conhecemos mais e, por isso, não integramos o valor da outra parte. Somos mundos completamente separados. Deve-se encontrar uma luz mais alta, que nos dê a capacidade de olhar nos olhos, mas com os olhos de Deus, de um modo belo, real, segundo as orientações da Igreja. É preciso ter a sabedoria que preserva os valores, mas que faz com que você seja um homem de verdade, que não tem medo e que sabe se relacionar com as ideias, mas também com o corpo, no sentido verdadeiro, normal, de quem sorri da forma que pode servir a Deus.

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