As 7 pragas da paróquia

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03 Outubro 2017

Direta, franca, brilhante. Assim é a última carta pastoral que o bispo de Modena-Nonantola, Erio Castellucci, enviou à diocese. Com data de 14 de setembro de 2017, traz como título Paróquia: Igreja peregrina nas casas.

A reportagem é de Bruno Scapin,  publicado por Settimana News, 27-09-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

 Dever-se-ia apresentar esta carta seguindo o índice, mas ficarão particularmente impressas ao leitor as páginas em que o bispo enumera "os remédios da caridade" como antídoto contra as sete patologias que podem afetar as comunidades paroquiais. Começaremos por estas.

As sete patologias

1. A difamação pesada, ditada pela inveja, ciúme, desejo de sobressair-se, chegando até mesmo à calúnia. "A palavra de Deus - lembra o bispo - adverte contra o uso da língua para se fazer guerra", enquanto a Eucaristia é "ação de graças", e "nunca maldição contra alguém". E se pergunta: "Como se poderia participar da missa e depois encher a boca de difamações e mexericos?" Por que, em vez disso, não praticar "o método de correção fraterna?”

2. As lamentações crônicas "consistem na tendência de sempre se falar sobre o que não funciona, sobre o que os outros deveriam fazer e não fazem, sobre tudo o que está faltando e que se deveria ter", é a segunda doença paroquial relatada pelo bispo Erio. O cristão é chamado a louvar e não à “lamentação crônica". Deve-se notar, pois, que "uma comunidade lastimosa, por mais organizada que seja, não atrai ninguém, ao contrário, até afasta".

3. A terceira patologia é chamada de hemiparesia paroquial. Ela se manifesta quando o tradicionalismo (o "sempre foi assim") torna-se mais importante do que a tradição. Também os métodos ensaiados e as experiências pastorais comprovadas devem ser submetidas a análise, porque "às vezes a preservação de formas do passado, em vez de respeitar a inspiração original, as traem".

4. E o que dizer sobre o perfeccionismo paranoico? Há quem gostaria de uma comunidade perfeita. Realisticamente, escreve o bispo Erio: "Na celebração eucarística está presente a comunidade assim como ela é, e não uma comunidade perfeita ... as comunidades cristãs são atravessadas por defeitos". O remédio? Ativar a misericórdia, redescobrir a grandeza do perdão, conscientes de que "o perdão não se confecciona na farmácia do próprio coração ... mas se aprende de Deus".

5. Chegamos ao calculismo comunitário. O que é isso? É a avaliação da vida paroquial "com base apenas na quantidade": número de pessoas, atividades realizadas, somas ganhas ... "A semeadura é mais importante do que a colheita", adverte o bispo. E ele conclui: "A ansiedade dos números precisa ser superada: a expressão de amargura pelo fato de sermos poucos geralmente se torna um incentivo para aqueles poucos também se afastarem ".

6. Contra o ativismo ansioso também é necessário um remédio. Vivemos em um contexto em que se respira a "tensão para o desempenho", com o resultado de que "a atividade aumenta a angústia e a angústia aumenta a atividade". Um círculo vicioso que esquece a ação benéfica da Eucaristia, que "é pura gratuidade, celebração, alegria de estar juntos, contemplação ... nunca produz ansiedade". Jesus - lembra o bispo Erio - "não culpou o serviço, mas a ansiedade de Marta".

7. O último remédio invocado é contra a miopia pastoral. "Patologia ocular que permite focalizar o que está perto, mas desfoca a visão das pessoas e das coisas distantes". Aqui, o bispo analisa com amplidão, porque quer levar as paróquias a refletir e a aceitar algumas escolhas também dolorosas (ela irá explicá-las em detalhes na última parte da carta pastoral). Enquanto isso, ele cita o acrônimo inglês NIMBY (Not In My Back Yard = não no meu jardim), pensando naqueles cristãos que acreditam justas algumas mudanças, mas "opõem-se a aplicações a si mesmos, porque exigem sacrifício". "A paróquia peregrina - este é o remédio proposto pelo bispo de Modena-Nonatola - é o oposto da paróquia NIMBY, isto é, ela põe-se em caminho com coragem e planejamento, em vez de defender seu jardim com medo e espírito conservador".

A paróquia

A lista das sete patologias, que pode parecer uma descoberta original, na verdade responde e completa a primeira e terceira partes da carta pastoral. Vejamos algumas frases.

Na primeira parte, o bispo Erio reflete sobre a paróquia, seu nascimento da Palavra e da Eucaristia, sua validade e função, sendo "uma grande família" ou "família de famílias". Mas também é uma "peregrinação", uma "jornada e movimento", e o risco que corre é de "sentar-se, acomodar-se, parar".

Diante das comunidades paroquiais das periferias do mundo (encontradas pelo bispo), que vivem o essencial, isto é, a Palavra, os sacramentos e a caridade, tornam-se “ridículas certas rixas que, às vezes, entre nós, sugam energias e paixões" na gestão dos espaços e estruturas, na divisão das competências, nas mudanças de horário ou reduções das missas, na organização das iniciativas paroquiais... Assim como são de evitar “os mofos do ritualismo e da improvisação".

O estilo comunitário

Na comunidade, nem todos têm o mesmo passo. É necessário acolhida, acompanhamento gradual, proximidade, "assumir o passo daqueles que mais fadigam e daqueles que estão desiludidos". "Uma Igreja que se apresenta como "família" pode atrair e interessar também aqueles que se afastaram pelos mais diferentes motivos", assim como "uma acolhida paciente pode desencadear processos inesperados e surpreendentes de aproximação".

Um perigo se aproxima: Pensar a comunidade como uma empresa, "onde importa mais organizar coisas do que encontrar as pessoas". Uma Igreja-empresa não é apetecível para ninguém, enquanto "o cuidado das relações pode derrubar o muro da indiferença e encontrar aquele germe de interesse que muitas vezes se esconde nos corações das pessoas".

Importante verificação da caridade em uma comunidade paroquial é a atenção aos marginalizados, que se tornam "uma das mais provocativas experiências" para aqueles que se sentem longe da prática eclesial". Muitas vezes - afirma o bispo - diz-se que a Igreja "chega depois"; não no campo da caridade, onde frequentemente "chega primeiro". Mas não é suficiente o que se está fazendo. Precisamos de uma "corajosa abertura para novas experiências, especialmente com a pobreza que ainda não se tornou uma preocupação comum", diante do fenômeno das migrações, “que muitas vezes provoca tensões e rupturas nas comunidades civis e no interior das próprias paróquias".

A paróquia precisa da energia de muitos que se tornam "corresponsáveis". O padre não pode mais raciocinar em termos de "centralização" ou "delegação". Nós definitivamente devemos passar para uma “práxis de corresponsabilidade".

As estruturas

Estamos na última parte da carta pastoral: as estruturas. Os Conselhos pastorais paroquias e os Conselhos econômicos devem ser devidamente restaurados, pois há necessidade de praticar a "eclesiologia da comunhão sinodal", o discernimento comunitário e a corresponsabilidade.

As propriedades pertencentes à Igreja "devem ser utilizadas de acordo com os objetivos pastorais: evangelização, culto e caridade".

O bispo menciona também algumas regras para a gestão adequada dos recursos materiais: conhecer a origem desses bens, usá-los para criar empregos, obrigação de transparência, evitar desperdícios e luxo, agir em plena legalidade.

As últimas páginas tratam da reorganização territorial das paróquias. Esta reordenação (o texto apresenta a futura fisionomia dos vicariatos) começará concretamente em 2019, e será guiada por alguns critérios.

Quando uma paróquia poderá se chamada tal e poderá, portanto, sobreviver? Quando não viver apenas da missa dominical, mas crescer em torno da Palavra de Deus, da liturgia e do testemunho da caridade.

As paróquias não poderão mais contar apenas com a presença e atividade dos presbíteros, dado o número sempre menor e a idade; é preciso "abrir espaço para os serviços, carismas e ministérios que expressam a corresponsabilidade dos leigos na Igreja".

O programa é sólido, as indicações são claras. As metas propostas são acessíveis somente através de um caminho e um estilo sinodal.

"É útil refletir - escreve o bispo – sobre a possibilidade, em alguns casos, nas paróquias ou ex-paróquias sem padre residente, de estabelecer diáconos ou leigos-referenciais, possivelmente famílias ou pequenos grupos, que mantenham vivo o sentido de pertença à comunidade mais ampla, e favoreçam a convergência para ela".

A reorganização territorial das paróquias levará em conta os lugares onde há uma maior convergência das atividades, dos modelos de colaboração paroquial já experimentados, da especificidade de algumas comunidades paroquiais e da possibilidade de constituir pequenas comunidades de presbíteros.

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