Eucaristia e discipulado no Documento de Aparecida. Artigo de Juan Pablo Espinosa Arce

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27 Maio 2017

“Eu gostaria de refletir sobre algumas chaves que Aparecida nos oferece sobre a Eucaristia e como ela representa o lugar privilegiado do encontro do discípulo missionário com Jesus Cristo; encontro que não é apenas pessoal e individual, mas é o encontro de toda a Igreja com o Senhor presente na celebração eucarística”. A reflexão é de Juan Pablo Espinosa Arce, em artigo publicado por Reflexión y Liberación, 25-05-2017. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Algumas reflexões sobre a Eucaristia como lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo no Documento de Aparecida.

Dez anos: renovação, esperança e dívidas

Neste ano de 2017, como Igreja latino-americana, celebramos os 10 anos da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe que, em maio de 2007, aconteceu no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil. O acontecimento de Aparecida e seu documento conclusivo marcaram pautas na vida da nossa Igreja continental. Uma das maiores formas de colocação em prática de Aparecida foi a Missão Continental, tempo propício de renovação evangelizadora a partir da categoria eclesiológica do “discipulado missionário”.

Dentre as muitas comissões de Bispos na V Conferência, destaca-se a “Comissão de Redação”, que teve como tarefa a confecção do Documento Conclusivo (DA). Chama a atenção, e creio que foi um sinal da presença do Espírito de Jesus, o fato de que a pessoa encarregada pela Comissão de Redação fosse o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco, Bispo de Roma. Por isso, e se realizamos uma leitura comparativa atenta entre Aparecida e os documentos magisteriais de Francisco, sobretudo a Evangelli Gaudium, nos daríamos conta de que este último tem a marca do que foi celebrado no Brasil em 2007.

Por isso é que este décimo aniversário é um momento de ação de graças. Ação de graças, em primeiro lugar, pela renovação missionária a que fomos e somos convidados e a viver a corresponsabilidade do anúncio alegre do Evangelho e do seguimento discipular de Jesus. Graças também pelos impulsos proféticos de Francisco e por convidar toda a Igreja a viver em estado de missão permanente, a ser Igreja em saída, a reconhecer o Espírito nas periferias humanas, sociais, inclusive fora da nossa própria Igreja. Mas também é um momento de tomada de consciência de que Aparecida ainda não foi totalmente recepcionada em nossas comunidades. Estamos, em muitos aspectos, em dívida com Aparecida, inclusive com o próprio Concílio Vaticano II. Aos 10 anos da V Conferência, devemos reler o Documento Conclusivo, meditá-lo e colocá-lo em prática.

Neste artigo, gostaria de refletir sobre algumas chaves que Aparecida nos oferece sobre a Eucaristia e como ela representa o lugar privilegiado do encontro do discípulo missionário com Jesus Cristo; encontro que não é apenas pessoal e individual, mas é o encontro de toda a Igreja com o Senhor presente na celebração eucarística.

Centralidade cristológica e eclesiológica do “encontro”

O acontecimento de se encontrar com Jesus Cristo é fundamental para compreender o cristianismo. Bento XVI afirma isso quando diz que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia. Começa-se a viver a fé graças ao encontro com Jesus Cristo (Cf. Deus Caritas Est, 1). Bento está propondo o texto de Jo 1, 35-39, a vocação dos dois primeiros discípulos. Os discípulos caminham pela margem do Lago da Galileia, veem Jesus e o seguem. Jesus se vira e pergunta: o que é que vocês estão procurando? Ao que eles retrucam perguntando: onde moras? E o convite de Jesus é detonador: venham e vejam. Foram e ficaram com ele não apenas aquele dia, mas toda a vida.

No encontro há uma “gramática do movimento”: caminhar, virar-se, olhar, perguntar, convidar, ficar. Portanto, o encontro realiza-se como experiência, que ocorre em uma história, na minha história, em nossa história como Igreja. A vida humana move-se graças à busca. Entende-se assim o caráter inacabado do ser humano: sempre estamos querendo satisfazer as nossas dúvidas. Vamos caminhando, sobre tudo em atitude de seguimento d’Aquele que deu uma nova orientação à nossa vida. O Eu de Jesus colocou-se em comunhão de amor com o eu de cada um de nós e do grande “nós” da Igreja. Foi o que fez Aparecida observar quando disse que o encontro dos dois primeiros discípulos provocou um saciar “a fome e sede de vida que havia em seus corações” (DA 244).

Se o fundamental do cristianismo é o encontro com Cristo, é porque a Encarnação constitui um ponto de inflexão na história do mundo. O amor de Deus foi tão grande que enviou o seu Filho único para que compartilhasse tudo o que era nosso, para que assim nós pudéssemos compartilhar tudo o que era d’Ele (Cf. Jo 1, 14; Jo 3, 6). Deus, em Jesus, entrou radicalmente no mundo. Graças a Jesus Cristo conhecemos quem é Deus Pai, como ama, como perdoa, como se encontra conosco. A Encarnação é uma experiência de diálogo: Deus Pai nos falou por meio do Filho que é movido pelo Espírito. O encontro, portanto, é também um acontecimento Trinitário, comunitário. E esse encontro se atualiza em cada Eucaristia.

A Eucaristia: lugar privilegiado do encontro do Deus Trindade com o ser humano

A Eucaristia é um sacramento, e o sacramento é entendido como um momento especial de encontro de Deus Trindade com o ser humano na história. Sustenta-se que Jesus de Nazaré é o sacramento por excelência de Deus. Ele é Aquele sinal, rosto, corpo, alma, história visível que nos comunicou a graça invisível de Deus. E Jesus Sacramento quis ficar com sua Igreja no sacramento do seu Corpo e Sangue. O amor de Deus se quis por completo no Pão e no Vinho, na comida que se compartilha na comunidade de crentes. É um momento que “reúne” a Igreja. Por isso, Aparecida disse que “com este Sacramento (a Eucaristia), Jesus nos atrai para si e nos faz entrar em seu dinamismo em relação a Deus e ao próximo” (DA 251). Não se pode entender a Eucaristia sem a Igreja e também não pode haver Igreja sem celebração eucarística.

Aparecida diz que na vocação cristã (seguimento de Jesus) aparecem três dimensões chaves: “crer, celebrar e viver o Mistério de Jesus Cristo (DA 251). Creio para celebrar e celebro para viver; vivo como crença e minha vida é celebração agradecida da presença de Deus; celebro a fé e a vida. São muitas as formas que temos para sintetizar e relacionar estes conceitos. Mas o fundamental é que com eles “a existência cristã adquire verdadeiramente forma eucarística” (DA 251). Nossa vida é eucaristicamente atravessada. A Igreja está cheia de Eucaristia. O Vaticano II disse que a Eucaristia é a fonte da qual emana toda a vida da Igreja. Quando nos reunimos para dar graças a Deus em torno da Palavra e da Mesa da refeição, estamos vivendo a graça de Deus. Eucaristia é isso: ação de graças.

Mas esta celebração não pode ficar reclusa no templo, não podemos fazer uma Igreja “fechada na sacristia”, dirá Francisco. Aparecida relaciona a Eucaristia com a missão: “A Eucaristia, fonte inesgotável da vocação cristã é, ao mesmo tempo, fonte inextinguível do impulso missionário. Ali, o Espírito Santo fortalece a identidade do discípulo e desperta nele a decidida vontade de anunciar com audácia aos demais o que tem escutado e vivido” (DA 251). A Eucaristia só fica completa com a consequência da missão. O cristão celebra a Missa para sair a evangelizar. Missa é “missio”, envio. É preciso viver o domingo toda a semana. É necessário que a vida de cada pessoa e de toda a Igreja seja uma “missa prolongada”, como dizia o Padre Hurtado. É um chamado à audácia evangélica, ao movimento de seguimento, ao encontro com os outros, sobretudo com os que sofrem.

A entrega de Jesus celebrada no Templo ficaria vazia de significado se não reconhecêssemos que esse mesmo Jesus está nas ruas, em nossas praças, em nossos espaços de convivência cotidiana. Isso exige um amadurecimento espiritual do discípulo missionário que, redescobrindo a centralidade da Eucaristia em sua vida, é capaz de colocar-se em marcha atrás dos passos de Jesus que segue na nossa frente na história cotidiana.

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