Francisco e Trump: duas visões opostas da paz? Entrevista com Antonio Spadaro

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26 Maio 2017

No início, os rostos estavam um pouco tensos. No fim, porém, a nota da Santa Sé definiu o encontro como “cordial”. O Papa Francisco e Donald Trump ficaram meia hora face a face, falando de um “compromisso comum em favor da vida e da liberdade religiosa e de consciência”, de paz no mundo a ser buscada mediante “a negociação política e o diálogo inter-religioso”, especialmente em relação ao Oriente Médio e às comunidades cristãs.

A entrevista é de Federico Ferraù, publicada por Il Sussidiario, 25-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Olhar Trump nos olhos e “mandar mensagens simples, mas claras”, sem dar piscadelas ao poder: era isso que o Papa Francisco queria e assim o fez, diz o padre Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica.

Eis a entrevista.

Qual a sua impressão daquela que alguns meios de comunicação estadunidenses definiram como “odd couple”, casal estranho?

Foi um encontro importante e, de algum modo, necessário. A visita do presidente estadunidense durante a sua viagem à Itália para o G7 implicava naturalmente também o encontro com o Papa Francisco. Certamente, porém, era um encontro potencialmente imprevisível em relação aos outros imediatamente anteriores, no sentido de que o papa não devia comprar armas nem outra coisa do presidente estadunidense, mas sim olhar nos olhos e mandar mensagens simples, mas claras. Parece-me que foi um encontro muito franco.

De um lado, o papa dos últimos, de outro, o milionário do poder, à sua maneira, também um símbolo da “America first”.

Sim, estamos diante de duas opções de vida diferentes. Mas eu também acho que é necessário distinguir bem entre Trump candidato e Trump presidente. Deixando de lado todo julgamento e avaliação, vemos que, em muitas frentes, Trump agora usa outra abordagem ou pelo menos outros termos. Vimos isso também na recente etapa na Arábia Saudita sobre a sua consideração pelo mundo islâmico. Verificaremos intenções e resultados.

E quanto ao encontro com Francisco?

Francisco é guiado por uma avaliação não ideológica: ele não distingue o mundo em bons e maus, não tem uma visão hollywoodiana da realidade, sabe perfeitamente que, nos grandes quadrantes internacionais, os verdadeiros protagonistas são os interesses. Por isso, ele fala com todos. E assim foi também desta vez. Mas sem entrar em redes de alianças. Ele fez isso mantendo as justas relações entre dimensão política e valores espirituais.

Trump presenteou ao pontífice uma coleção de escritos de Martin Luther King. Os presentes nunca são escolhidos por acaso. Por que essa escolha?

Os Estados Unidos, certamente, são portadores de grandes valores como a liberdade, a identidade, a igualdade, valores vividos de maneira muito tensa, às vezes até contraditória. Mas são valores aos quais o papa também faz referência constantemente, e viu-se isso de modo claro durante a sua visita aos Estados Unidos. Com o seu presente, Trump certificou essa ênfase. Lembremos, ainda, que, quando foi inaugurado oficialmente o mandato presidencial, o Papa Francisco enviou ao neopresidente um telegrama no qual reiterou a importância desses valores, alguns dos quais pareciam em clara contradição com a linha do ex-candidato Trump.

Enquanto isso, o Papa Francisco retribuiu com a Laudato si’, a Evangelii gaudium e a Amoris laetitia, além da mensagem para o Dia Mundial da Paz.

Presentes formais, dentro dos quais, porém, encontram-se mensagens muito fortes. Duas em particular: a paz assim como Francisco a entende, fundada na justiça social, e a sobre a criação, contida na Laudato si, que implica toda uma série de compromissos que hoje correm o risco de serem questionados, até mesmo pela administração estadunidense.

Quando o Papa Francisco fala de paz, o que quer dizer? A sua mensagem também é política?

Paz, por Bergoglio, significa agir nos quadrantes mais delicados da política internacional em nome dos “descartados”, dos mais fracos. A paz sempre deve estar ligada à inclusão social dos pobres. Os conflitos armados têm a sua raiz nos temas sociais. Para esse papa, assim como para os seus antecessores, exortar à paz significa continuar no rastro traçado por João XXIII com a sua mensagem de 1962: falar com todos os chefes de Estado e as pessoas que têm influência para promover, favorecer, instaurar o diálogo em todos os níveis, como regra de sabedoria e de prudência, em vista de uma realidade mais respeitosa dos homens e, portanto, mais justa. Então um convite, neste caso ao presidente Trump, para prestar muita atenção a como nos movemos. Por exemplo, uma enorme venda de armas pode ser, sim, exibida como uma medida para ajudar a paz, mas é evidente que estamos longe daquilo que o papa entende.

Uma venda como a que acaba de ser selada entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita?

Exatamente. Quando o comunicado fala de promoção da paz no mundo, ele também cita as vias mestras para alcançá-la, que são “a negociação política e o diálogo inter-religioso”. Onde negociação e diálogo são termos abertos, unidos, mas distintos. Mas, por exemplo, será difícil realizar diálogo e negociação no Oriente Médio excluindo totalmente e demonizando o Irã do presidente Rouhani, que, lembremos, foi recebido pelo papa assim como Trump.

Com “unidos, mas distintos”, o que você quer dizer?

Quero dizer que o elemento religioso nunca deve ser confundido com o político, caindo em uma espécie de pancostantinismo. Alguns creem que Trump, ao visitar primeiro os chefes de Estado da Arábia Saudita e de Israel, falou aos chefes das outras duas grandes religiões monoteístas, islamismo e judaísmo. Em vez disso, ele se encontrou com dois chefes de Estado. Confundir poder espiritual e poder temporal significar sujeitar o primeiro ao segundo. O papa foge dessa lógica constantiniana.

Hoje, quem está mais exposto a esse mal-entendido? Os católicos? O establishment político estadunidense?

Eu diria que a tentação de projetar a divindade sobre o poder político que se reveste dele para os próprios fins é uma tentação transversal. Até mesmo em partes do mundo católico, às vezes, retorna uma tentação constantiniana. Mas a fé não precisa de um banco no poder. Seguindo esse caminho, no fim, a religião se torna a garantia das classes dominantes. Justamente aquilo que Francisco teme e não quer. Leão III coroou Carlos Magno imperador. Francisco separa claramente “sacerdotium” e “imperium”, reinventando a sua relação.

O Papa Francisco fez e faz as contas com duas presidências estadunidenses, primeiro a de Obama e hoje a de Trump. A qual das duas ele está mais próximo?

O papa não escolhe entre administrações legitimamente eleitas e não põe muros, ele disse isso várias vezes. Fazer uma escolha significaria, de algum modo, entrar aprioristicamente em contradição com essa abertura. É o mesmo método aplicado durante o seu ministério episcopal em Buenos Aires. Por ocasião da comemoração fúnebre de Néstor Kirchner, ele pediu aos concidadãos que rezassem por ele, porque tinham sido eles que o elegeram, e todos conhecemos a distância entre o então cardeal Bergoglio e o ex-presidente argentino. O Papa Francisco sabe que não é a sua tarefa expressar preferências: ele sempre respeita a autoridade constituída. É claro que, depois, o debate é sobre as escolhas feitas, sobre as quais o seu julgamento nunca faltou. Nem mesmo agora.

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