“Dedico esta nomeação a dom Romero”, revela Rosa Chávez

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24 Mai 2017

Roque Dalton, o poeta salvadorenho mais insigne da história moderna de seu país, tem um poema intitulado “A vez do ofendido”, que celebra a eventual reivindicação de alguém que foi grosseiramente ignorado por um longo tempo: “Vocês desprezaram o meu amor / riram-se do seu presentinho envergonhado / sem querer compreender os labirintos / da minha ternura”. Para mim, nada explica a nomeação de dom Gregorio Rosa Chávez como cardeal, senão o desejo do Papa Francisco de corrigir um tremendo erro histórico – o de ter esquecido o “discípulo de dom Romero” para uma nomeação ao arcebispado e o resultante isolamento que Rosa Chávez sofreu na sociedade salvadorenha por causa da impressão de que a própria Igreja o tinha desprezado.

A reportagem é publicada por Super Martyrio, 22-05-2017. A tradução é de André Langer.

Não nos enganemos: Rosa Chávez merece o prêmio – é por isso precisamente que o fato que não se havia dado, foi um grande descuido. Como agora todos sabem, Rosa Chávez foi escolhido pelo beato Óscar Romero para ser um dos seus mais próximos colaboradores; de fato, Rosa Chávez assessorou dom Romero no campo das comunicações. Depois, foi o próprio Papa São João Paulo II que fez de Rosa Chávez o bispo mais jovem do continente. Foi a Rosa Chávez que o Pontífice polonês confiou sua considerada opinião de que dom Romero era “um mártir”. Mais tarde, Rosa Chávez converteu-se na mão direita de dom Arturo Rivera y Damas, o sucessor de Romero, em rigorosas negociações pela paz durante o conflito salvadorenho, transformando-se em uma figura de projeção internacional.

No entanto, Rosa Chávez foi pulado, não apenas uma, nem duas, mas três vezes nas nomeações de arcebispos de San Salvador. Rosa Chávez não apenas foi bispo por mais tempo que os demais integrantes da Conferência Episcopal Salvadorenha, mas também é o bispo com mais anos neste cargo de todos os bispos eméritos do país (em julho, comemorará 35 anos de bispo). Durante este período, manteve uma postura leal à Igreja e aos arcebispos que teve de servir. Seu trabalho a favor da Igreja inclui a administração da Cáritas (que preside em nível nacional e continental), a sua paróquia onde desenvolveu novos conceitos para a reintegração dos membros das gangues à sociedade, e – evidentemente – o seu incansável trabalho de promover a causa e de conservar o legado do seu mentor, dom Romero.

A atenção do Papa Francisco a semelhantes desprezos históricos já tinha ficado em evidência desde que o Pontífice reconheceu o tratamento injusto ao qual foi submetido dom Romero. “Uma vez morto – disse o Pontífice durante uma audiência – eu era sacerdote jovem e fui testemunha disso; foi difamado, caluniado, enlameado... inclusive por irmãos seus no sacerdócio e no episcopado”. O Papa declarou-se comovido com tal exemplo: “Isso me dá força”. Pode ser que o Papa veja no bispo auxiliar uma versão em miniatura do martírio de Romero. O Papa Bergoglio talvez tenha uma sensibilidade por estes casos devido à sua própria trajetória eclesial. Sabe-se que depois de ter sido provincial jesuíta em seu país, surgiram tensões dentro da sua ordem que o levaram a um “exílio” em Córdoba, no interior do país. Foi um episódio que o futuro Papa considerou um tempo de humildade e humilhação, antes de ser nomeado bispo e “reabilitado” na Igreja.

É por isso que algumas leituras da nomeação de Rosa Chávez que dão uma bofetada na cara de dom José Luis Escobar, ao nomear cardeal o seu “auxiliar” e não a ele, parece-me que erram o alvo. Pelo contrário! Em primeiro lugar, como já foi dito, Rosa Chávez, bispo desde 1982, precede a dom Escobar, que foi nomeado bispo em 2002 (arcebispo desde 2009). Em segundo lugar, ao anunciar Rosa Chávez, o Pontífice ressaltou a sua qualidade de “bispo titular” de uma sede honorífica (Mullis). Desta maneira, não estava faltando com o respeito com dom Escobar ao nomear o seu “auxiliar”, mas estava levando em conta a sua qualidade mais ou menos equivalente como um bispo pleno – embora “titular” (e embora o título seja apenas uma ficção protocolar).

Finalmente, devemos levar em conta o conceito de poder que o Pontífice tem. Em uma homilia pronunciada exatamente quatro anos antes da nomeação de Rosa Chávez, o Papa Bergoglio comentava: “Quando se dá um cargo a uma pessoa que, aos olhos do mundo é um cargo superior, se diz: ‘Ah! Elevaram esta mulher a presidenta desta associação e este homem foi promovido...’. Este verbo – promover: sim, é um verbo bonito e deve ser usado na Igreja. Sim, este foi promovido à cruz, na humilhação. Esta é a verdadeira promoção, a que ‘se parece mais’ com Jesus”.

De acordo com a lógica do Papa Francisco, dom Gregorio Rosa Chávez foi promovido, mas não apenas pela decisão anunciada neste final de semana, mas pela trajetória que percorreu para alcançar esse objetivo.

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