Romero, Doutor da Igreja?

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12 Fevereiro 2017

O Escritório de Interesses da Igreja Latino-Americana e Norte-Americana (LANACC, sigla em inglês) anunciou os temas para a conferência anual “Romero Days” na Universidade de Notre Dame em Indiana, Estados Unidos, que iniciará com uma missa presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, Filipinas, no dia 24 de março, aniversário do martírio do arcebispo salvadorenho. Durante a conferência anual que vem sendo realizada há 30 anos, o Pe. Robert Pelton lançará uma proposta atrevida: nomear Romero “Doutor da Igreja”.

A reportagem é publicada por Super Martyrio, 10-02-2017. A tradução é de André Langer.

Na longa lista dos santos reconhecidos ao longo dos milênios, há apenas 36 que foram destacados com o alto honorífico “Doutor da Igreja”, comumente reservado aos mestres mais eminentes dentre os santos. Há três requisitos formais. Primeiro, eminens doctrina (conhecimento eminente).  O candidato deve manifestar profundidade de penetração doutrinal. Normalmente, isso se reflete em um extenso corpo de escritos que expressam a Tradição católica autêntica e vivificante. Segundo, insignis vitae sanctitas (um alto grau de santidade). Isto implica uma santidade verdadeiramente destacada, mesmo entre os santos. Terceiro, Ecclesiae declaratio (a proclamação da Igreja). A responsabilidade para isso, é da Congregação para as Causas dos Santos, a mesma que declarou Romero beato e mártir, e eventualmente se espera que o proclame santo – sempre e quando se tenha feito um estudo rigoroso sobre o tema. Os processos duram décadas para se chegar a uma declaração doutoral, muitas vezes séculos depois das canonizações dos santos em questão em cada processo.

Para atender aos requisitos, basta enumerar alguns dos santos que foram reconhecidos como doutores da Igreja: Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, considerados os teólogos mais famosos no cristianismo, e vários dos chamados “Padres da Igreja” – os santos que fundaram as antigas e lendárias comunidades no Oriente e no Ocidente. Também é útil examinar as características de um “Doutor” recentemente reconhecido, como é São João de Ávila, o místico espanhol reconhecido como “doutor” pelo Papa Bento XVI em 2012. Na aprovação de seu processo, foram destacados dados como o fato de que alguns contemporâneos, entre eles papas, o chamaram de “mestre”; que foi teólogo, inventor e humanista; que escreveu um erudito tratado; que foi amigo de vários santos proeminentes e que exerceu um papel de liderança no desenvolvimento de uma doutrina sistemática sobre o sacerdócio.

Estaria o mártir salvadorenho à altura de tais requisitos? A resposta do “sim” começa na própria Universidade de Notre Dame, onde, como mencionávamos no início desta nota, foram apresentadas conferências sobre Romero ao longo de 30 anos. “Pode me dizer outro lugar no mundo onde se está estudando as homilias de um bispo que morreu há 35 anos?”, perguntou dom Ricardo Urioste, na Notre Dame em 2005. Entre os apresentadores nas conferências destacaram-se o cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga, que, em seu discurso de 2002, propôs Romero como “um bispo para o Terceiro Mundo”, e o cardeal Peter Turkson, que, em seu discurso de 2011, fez um paralelo entre Romero e a parábola do “Bom Pastor”, e um infindável número de estudiosos de Romero.

Estes estudiosos escreveram não apenas sobre o martírio de Romero, mas também sobre seu pensamento e pregação: estudaram suas homilias e outros escritos, que foram publicados em vários volumes e traduzidos para vários idiomas. Tanto que durante a beatificação de Romero, o cardeal Angelo Amato não duvidou em chamá-lo de “bispo sábio”, ao passo que, em um comunicado da Casa Branca desse mesmo dia, o presidente Obama o chamou de “pastor sábio”. O Papa Francisco, em sua mensagem para a ocasião, também apresentou Romero como um sábio: agiu “com ciência e prudência”, disse o Pontífice. Para o cardeal Amato, Romero foi um profeta “como Abraão”, ao passo que o Papa disse que Romero foi “como Moisés”. Cabe mencionar que sua figura foi defendida por três papas consecutivos: João Paulo II, Bento XVI e agora o Papa Francisco, e já em vida Romero tinha recebido doutorados “honoris causa” das universidades de Georgetown e Lovaina.

Apesar da grande reputação como “sábio”, permanece um problema: Romero não foi um acadêmico. Mas, por isso, não deixa de ter um grande impacto sobre a teologia, argumenta o prof. Michael Lee, da Universidade de Fordham, um desses estudiosos que se apresentaram no “Romero Days”. Em uma nota divulgada na imprensa salvadorenha, Lee explica que Romero, apesar de que “não ostentava um título de doutorado, não tinha nomeação em uma universidade e nunca publicou um livro ou um artigo acadêmico”, mesmo assim, “deixou um rico legado teológico”. Segundo Lee, no caso de Romero, “sua pregação e ministério serviram, como demonstrou Martin Maier [jesuíta alemão que escreve sobre Romero], de inspiração teológica”.

Por isso, em sua comunicação em que irá propor Romero como Doutor da Igreja, o Pe. Pelton fala de Romero como um “Doutor Pastoral da Igreja Universal”. Santo Ambrósio de Milão, que viveu no século IV, foi o primeiro bispo a ser reconhecido como doutor pastoral. É interessante neste sentido o comentário de dom Vicenzo Paglia, postulador da causa, de que Romero é o “primeiro mártir do Concílio Vaticano II”. De acordo com Paglia, “o martírio de Monsenhor Romero é o cumprimento de uma fé vivida em sua plenitude; uma fé que emerge com força nos textos do Concílio Vaticano II”.

Para Paglia, Romero é “o primeiro testemunho de uma Igreja que se mistura com a história de um povo com o qual vive a esperança do Reino... entre os primeiros no mundo que procurou traduzir os ensinamentos conciliares à história concreta do continente, tendo a coragem de fazer uma opção preferencial pelos pobres, e de dar testemunho, em uma realidade marcada por profundas desigualdades, da via do diálogo e da paz”.

A ideia de um “doutor pastoral” ganha importância com o pontificado do Papa Francisco, que faz como que uma síntese do Concílio na ideia de uma Igreja pastoral. De fato, talvez o impedimento mais forte que a candidatura de Romero enfrente para doutor seja de tipo litúrgico, ou seja, de tradição e costumes. Nenhum mártir foi incluído na lista de doutores, já que o Ofício (as orações para a festa litúrgica) e a Missa são para Confessores (santos canonizados por suas virtudes e não por um martírio). Bento XIV (papa, 1740-1758), autor de uma obra clássica sobre os processos de canonização, comenta que Santo Inácio, Santo Irineu e São Cipriano não são doutores da Igreja por essa razão.

Se Romero chegasse a ser reconhecido como doutor da Igreja, seria um feito histórico: seria o primeiro doutor latino-americano. Nesse sentido, este dado o favorece: é possível perguntar-se, quem, senão Romero, deveria ser o primeiro Doutor das Américas? Isso faz pensar nas palavras de Gustavo Gutiérrez, o “Pai da Teologia da Libertação”, que disse que “a história da Igreja na América Latina divide-se em antes e depois de Monsenhor Romero”.

Muitos esperam que Romero seja canonizado este ano. Outros têm esperanças ainda maiores.

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