Dom Arturo Rivera y Damas, o grande esquecido

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25 Março 2017

Em El Salvador, que produz santos e beatos, há alguns que ficam na sombra, como Arturo Rivera y Damas, primeiro sucessor de Romero depois que este foi assassinado.

O destino reservou a Romero o martírio; ao seu primeiro sucessor, o salesiano Rivera y Damas, uma morte silenciosa e imprevista no leito de um hospital. Agora, ambos  estão unidos pela morte, sepultados na cripta da Catedral de San Salvador, um sob o bronze de um monumento sepulcral e o outro retratado na parede, às costas do mausoléu de Romero, silencioso e humilde, apoiando-o e defendendo-o inclusive do fogo amigo.

Paula Figueroa conhece bem a ambos. Foi colaboradora de Romero e, posteriormente, de Rivera y Damas durante 20 anos, depois da morte do primeiro, em março de 1980. Naquela época era uma jovem funcionária da Secretaria de Comunicação Social de 17 anos que redigia para o sucessor de Romero o relatório sobre os casos de violações, os quais ele mesmo, como Romero, fazia ecoar na catedral durante os sermões dominicais.

Paula Figueroa pensa, como muitos em El Salvador, que chegou a hora de resgatar Arturo Rivera y Damas do cone de sombra ao qual foi relegado pela fama de santidade do amigo que acompanhou como colaborador.

A entrevista é de Alver Metalli e publicada por Tierras de América, 24-03-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Quem é Arturo Rivera y Damas?

Um arcebispo de San Salvador, o quinto na história eclesiástica da Arquidiocese e o primeiro sucessor de dom Romero, após este ser assassinado no dia 24 de março de 1980. Nasceu em um povoado da região central de El Salvador, San Esteban Catarina, no Departamento de San Vicente, no dia 30 de setembro de 1923. Provinha de uma família de classe média, porque tais eram o senhor Joaquín Rivera e dona Ester Damas de Rivera que o trouxeram ao mundo. Estava unido a dom Romero por uma grande amizade.

E o que mais?

É o homem prudente que dirigiu a Igreja de San Salvador durante os anos difíceis do conflito armado em todas as suas fases, entre tentativas de negociação e fracassos. Ele e seu bispo auxiliar, dom Gregorio Rosa Chávez, participaram, como mediadores, das reuniões de diálogo de La Palma e Ayagualo entre o governo e as forças dos insurgentes da FMLN [Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional], promovendo com convicção a opção da solução negociada como única via de saída para o conflito bélico salvadorenho. Em 1985, Rivera y Damas participou novamente como mediador junto com o reitor da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), Ignacio Ellacuría, das conversações para obter a libertação de Inés Guadalupe Duarte, filha do Presidente da República José Napoleón Duarte, sequestrada pela FMLN.

Em 1987, promoveu uma nova reunião de diálogo entre o governo e a guerrilha na Nunciatura Apostólica de San Salvador. Infelizmente, não pôde ver a sociedade reconciliada, embora sempre tivesse feito todo o possível para trabalhar com essa finalidade. Quando João Paulo II veio pela segunda a El Salvador, em 1996, disse que Rivera y Damas “entrou na eternidade depois de ter visto despontar no horizonte a paz pela qual ele, junto com os outros bispos de El Salvador, tinha trabalhado incansavelmente”. Morreu no dia 26 de novembro de 1994 devido a um infarto, e, atualmente, está sepultado na Catedral Metropolitana de San Salvador ao lado de dom Romero.

Não disse que era salesiano...

Sim, foi ordenado sacerdote com esse carisma no dia 19 de setembro de 1953, precisamente em um país como o nosso, El Salvador, com uma numerosa população jovem. Rivera y Damas viveu profundamente o espírito salesiano, embora os caminhos da formação o tivessem levado primeiro a preparar-se como canonista – obteve o doutorado em Direito Canônico no Pontifício Ateneu Salesiano de Turim, Itália – e, somente depois, foi consagrado bispo no dia 30 de julho de 1960 e nomeado auxiliar do arcebispo de San Salvador, Luis Chávez y González, um grande bispo com ideias conciliares. Foi ele quem lhe confiou a responsabilidade do cuidado social da cúria arquidiocesana que nos anos 60 abarcava os Departamentos de San Salvador, La Libertad, Cuscatlán e Chalatenango.

Também foi bispo auxiliar de dom Romero...

Durante sete meses, antes que o nomeassem para a diocese de Santiago de Maria, na região oriental do país. Esse tempo se caracterizou por uma grande amizade entre ambos.

Que tipo de relação eles tinham?

Quando a Conferência Episcopal de El Salvador satanizou dom Romero nos anos 80, Rivera y Damas, como um irmão, identificou-se com seu carisma e compreendeu que era necessário viver a responsabilidade episcopal com o estilo de Jesus e atender às necessidades de um povo que buscava a liberdade de expressão, a dignidade e a justiça social. Solidarizou-se com dom Romero diante da perseguição vivida pelo clero arquidiocesano, e no dia 06 de agosto assinaram juntos a Carta Pastoral, que foi a primeira para Rivera y Damas e a terceira do magistério de dom Romero, onde enfrentam o tema “Igreja e organizações políticas populares”. Não devemos esquecer que nos últimos anos de seu ministério Rivera y Damas impulsionou com força o processo de canonização de Romero, que ele considerava um verdadeiro mártir da Igreja.

Depois de Romero santo, com toda probabilidade será a vez do padre Rutilio Grande receber o título de beato...

Creio que é apenas uma questão de tempo, talvez pouco. O processo diocesano já foi concluído e, como se sabe, tudo está nas mãos de Roma.

Também se fala de um grande grupo de 500 assassinados, todos pela fé...

Na última Carta Pastoral do atual arcebispo de San Salvador, José Luis Escobar Alas, são enumerados 24 nomes de possíveis mártires. Mas penso ser conservador falar de 500; infelizmente, meu país sempre foi, de um modo ou de outro, martirizado.

Também há os jesuítas da universidade católica que foram assassinados quando Rivera y Damas era arcebispo de San Salvador...

Sim, foi em 1989, no campus da UCA, por um esquadrão das Forças Armadas de El Salvador. Nesse massacre morreu Ignacio Ellacuría, que era assessor e amigo pessoal de dom Rivera.

Mas, em meio a todos esses candidatos a beatos e santos não se fala de Rivera y Damas...

Agora, com a canonização de Romero no horizonte, mereceria um Nobel da Paz post-mortem, porque se há alguém que lutou pela paz em nosso país foi ele. Foi mediador na troca de pessoas capturadas pelos corpos de segurança e pelo Exército e salvou muitas vidas arrancando sequestrados da guerrilha, sem levar em consideração o risco que corria sua própria vida. Recebeu muitas ameaças de morte, mas seguiu em frente sem duvidar, até que Deus o presenteou com a morte de um servo fiel.

Se tivesse que preparar o que em termos eclesiásticos se chama “positio”, o relatório que acompanha um pedido de beatificação, por onde começaria no caso de Rivera y Damas? Quais seriam, por assim dizer, suas virtudes heroicas?

Sem dúvida, o fato de ter trabalhado pela paz em um tempo sumamente difícil, ter buscado a aproximação entre as partes de uma sociedade injusta e de dupla moral implementando ações concretas com esta finalidade. Quando foram assinados os acordos de paz, em 16 de janeiro de 1992, propôs programas de reconciliação em uma sociedade profundamente ferida; infelizmente, os políticos de profissão não o apoiaram com a convicção requerida naquele momento, e também uma parte da Igreja o deixou sozinho nesse caminho.

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