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17 Março 2017

Daqui a alguns dias, em 17 de março, Peter L. Berger vai chegar aos 88 anos. "E imagine que eu usei vinte e cinco deles para mudar de ideia", comenta o próprio com o habitual humor. Nascido em Viena, Berger se estabeleceu nos Estados Unidos logo após a Segunda Guerra Mundial, afirmando-se internacionalmente como um dos mais influentes sociólogos das religiões. Seus estudos por muito tempo fundamentaram-se na teoria da secularização; porém, mais tarde, na véspera do novo milênio, o professor reparou que algo estava errado.

"A secularização partia do pressuposto de que a mais modernidade corresponde menos religião. Mas isso não é verdade", ele explica, referindo-se ao processo de revisão agora testemunhado por sua obra I molti altari della modernità (Os muitos altares da modernidade, em tradução livre. Emi, 208 páginas, € 19,00), um livro que incide sobre o destino das "religiões na época do pluralismo", numa tentativa de identificar um novo paradigma interpretativo. "A minha é apenas uma proposta - diz ele - agora precisamos que outros contribuam para desenvolvê-la".

A entrevista é de Alessandro Zaccuri, publicada por Avvenire, 15-03-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Em que consiste o erro de secularização?

Consiste em assumir um ponto de vista limitado. Se olharmos de forma atenta para a situação internacional, precisamos admitir que a religião, hoje, é mais importante do que nunca. As exceções são os países do Ocidente e uma restrita intelligentsia cosmopolita que se adapta a uma visão secularizada, mas para o restante é tudo um fermento: o Islã, o pentecostalismo evangélico na América Latina e outros lugares e o próprio estado de Israel.

Adeus secularização, então?

Não inteiramente. Se o postulado da chamada "era secular" provou ser incorreto, no entanto é inegável a existência de um "discurso secular", que se expressa no pluralismo e, de forma ainda mais articulada, na variedade de registros e crenças com os quais cada um de nós confronta-se em sua experiência cotidiana. Um bom exemplo é o do hospital: mesmo no caso de uma instituição de confissão religiosa, o processo de diagnóstico e de tratamento tem lugar de acordo com um protocolo rigorosamente científico. Totalmente secularizado, poder-se-ia dizer. Mas isso não impede que em um hospital sejam feitas orações, seja lida a Bíblia, procure-se pelo conforto do capelão.

É um efeito do pluralismo?

Dos pluralismos, deveríamos dizer, porque o fenômeno é duplo e age em dois níveis distintos. O primeiro é de natureza individual: cada um de nós encontra-se na necessidade de operar uma negociação permanente entre crenças e informações, mesmo quando conflitantes. A segunda instância, ao contrário, diz respeito à dimensão pública, institucional. As relações entre o Estado e as várias confissões são cada vez mais complexas e, ao mesmo tempo, irrenunciáveis. Para enfrentar processos epocais, como a migração, precisamos de um paradigma que leve em conta ambos os aspectos.

Como você vê essas transformações?

Quando eu considero o que está acontecendo em muitos países europeus, incluindo a Itália, parece-me que a integração seja um destino acessível. Contanto que se reconheça a extraordinária experiência de liberdade e de humanidade que se manifesta nas migrações, evidentemente.

No entanto, a tentação de construir muros e barreiras está ficando mais forte.

Sim, mas o movimento dos migrantes é inarrestável. Mesmo aqueles que não querem se convencer, precisam se questionar sobre qual seria a alternativa. Estamos com medo de que o outro coloque em perigo as nossas crenças? Mas no que consistem essas nossas crenças? O relativismo niilista não pode ser uma resposta ao fundamentalismo. A aposta é outra.

Qual seria?

A liberdade religiosa, sem a qual não há pluralismo. A dinâmica que eu estou tentando descrever pode funcionar apenas se as pessoas são deixadas livres para praticar sua fé sem restrições, nem quaisquer condicionamentos. Mesmo a partir desse ponto de vista, o caminho percorrido pela Igreja católica representa um precedente bem interessante. Em menos de um século, passou-se de uma concepção que excluía qualquer compromisso com o mundo contemporâneo para às aberturas do Concílio Vaticano II, cujas declarações em matéria de liberdade religiosa e dignidade humana representam, hoje, um dos pilares do pluralismo.

Algo parecido poderia acontecer no Islã?

Eu não me atrevo a previsões, mas não há dúvida de que, com todas as negociações em curso, aquela com os muçulmanos é a mais urgente e delicada. No plano das ideias, já pode ser visto um bom progresso: um Islã menos tradicionalista e mais democrático é um objetivo compartilhado por muitos intelectuais, que também pressionam por um maior diálogo inter-religioso. No campo, infelizmente, a situação não é tão encorajadora e não vejo como a ameaça do Daesh [Estado Islâmico] possa ser derrotada, exceto pela intervenção militar. De modo mais geral, no que diz respeito à integração dos muçulmanos nos países ocidentais, o critério a ser adotado deveria ser o do pronto socorro. "

Voltamos ao hospital?

Código verde para os comportamentos que, mesmo agora, são perfeitamente compatíveis com a convivência democrática, e código vermelho para as práticas que, ao contrário, não podem ser absolutamente toleradas e, aliás, devem ser perseguidas criminalmente: a mutilação genital feminina, o fanatismo violento, etc. Entre um extremo e o outro, temos o código amarelo, que é o território das negociações. Digamos que em uma escola as famílias muçulmanas peçam o respeito para a separação entre meninos e meninas durante os eventos esportivos. Ir para o confronto, talvez, impondo a promiscuidade, não produziria qualquer benefício. Estamos no código amarelo, podemos e devemos discutir a respeito. É uma maneira, inclusive, para apoiar e difundir o pluralismo.

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