Estado Islâmico. Um país viável

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Por: André | 02 Fevereiro 2015

Por trágico que seja o final, a estranha e sem precedentes troca de prisioneiros – de uma fracassada atacante suicida (foto), um piloto da força aérea e um jornalista – tinha um único propósito para o Estado Islâmico: admitir sua existência e que os países reconhecem o seu poder.

 
Fonte: http://ind.pn/1Cp1Oro  

A reportagem é de Robert Fisk e publicada no jornal argentino Página/12, 31-01-2015. A tradução é de André Langer.

Bastava ouvir o número de repórteres falando nas últimas horas sobre o Estado Islâmico sem antepor o usual “autoproclamado”, para nos dar conta de que estamos aceitando o califado como um país viável, embora ilegítimo, sem parar para pensar nas consequências. Esquecemos o pedido original de dinheiro – o Estado Islâmico está canalizando as coisas dos seus amigos no Golfo Árabe –, porque um rei jordaniano e um vice-ministro japonês do exterior têm mais de um bilhão de dólares. Ao concordar em negociar sobre os reféns, de maneira muito confusa, deram o imprimatur ao Estado Islâmico.

No outono passado, o Estado Islâmico apresentou sua própria moeda. Agora fala com outros países soberanos, embora seja por meio de intermediários. Logo, sem dúvida, podemos esperar que o Estado Islâmico conte com outro aditamento necessário e um Estado moderno: uma companhia aérea. Então basta esperar que o Ocidente identifique os “moderados” do Estado Islâmico, e suponho que todos poderemos conversar com o califa Bagdali pessoalmente.

Está claro que há um ponto de vista jordaniano em tudo isso. Os súditos muçulmanos sunitas do rei Abdalá nunca foram muito entusiastas em apoiar a guerra do Ocidente contra o Estado Islâmico sunita, e muitos jordanianos – em especial a maioria palestina – não veem uma razão para que militares de seu país procurem destruir a ocupação de partes da Síria e do Iraque pelo Estado Islâmico quando existe outra ocupação estrangeira bem mais próxima de Amã.

Além disso, quase todos os países ocidentais fizeram contato, embora de leve, com o Estado Islâmico. Os britânicos, segundo os funcionários árabes que deveriam saber, no passado enviaram mensagens aos rapazes em Raqqa através de um intermediário iraquiano. Os franceses também. Dizer “não faço negócios com terroristas” ou “não recompenso terroristas” é uma besteira.

Israel maculou estas palavras mil vezes e, no entanto, libertou milhares de prisioneiros em troca de soldados israelenses capturados ou mortos, mais recentemente no Líbano e através de seu intermediário habitual: o chefe do serviço secreto alemão.

Mas um território soberano significa muito na política; por isso, o Estado Islâmico quer libertar uma atacante suicida que não apenas era membro do seu (suposto) inimigo, a Al Qaeda, e não apenas um fracasso – o marido dela se explodiu e matou 60 inocentes; ela não –, mas que, além disso, é mulher!

Vamos acreditar, além disso, que uma instituição que assassinou milhares de prisioneiros – soldados iraquianos, soldados sírios, muçulmanos xiitas, cristãos, yazidies e inclusive mulheres escravizadas – realmente se preocupa com uma única vida humana? Mas o território soberano também tem um significado para o Hezbollah.

Apesar das dezenas de relatórios sobre os foguetes que mataram dois soldados israelenses na “fronteira israelense” na quarta-feira passada, isso não é verdade. Os soldados foram atacados dentro da fronteira das Colinas de Golã ocupadas por Israel ou, se alguém acreditar nos velhos mapas do mandato francês, dentro do território libanês, que esteve ocupado desde 1973.

A anexação israelense do Golã conforme as leis israelenses não significa nada, uma vez que o mundo não a aceita. De maneira que quando o Hezbollah anunciou que a morte dos dois soldados foi uma represália pelo ataque com drones às suas forças e às iranianas na Síria, há 11 dias, especificamente escolheu vingar-se do pessoal militar israelense que não estava dentro de Israel.

É uma precisão menor, mas tanto o Hezbollah como Israel entendem-na, embora digam o contrário. As fronteiras são importantes, e por isso um dos primeiros atos do Estado Islâmico foi destruir os acostamentos de areia ao longo da fronteira do pacto Sykes-Picot, que separava a Síria do Iraque. O tenente al-Kasaesbeh, a suicida fracassada Sajida al-Rishawi e o jornalista Kenji Goto, quer se deem conta ou não, fazem parte deste novo traçado de fronteiras.

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