Jesuíta propõe uma “ponte de duas vias” para comunidade LGBT e a Igreja Católica

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04 Novembro 2016

Neste fim de semana, o padre jesuíta James Martin apresentou um plano para minimizar as tensões há muito existentes entre a comunidade LGBT e a Igreja Católica americana, um modelo que deixaria os padres e bispos em uma situação mais confortável para o acompanhamento às pessoas gays e lésbicas – empregando estes mesmos termos – enquanto as pessoas LGBTs ofereceriam ao clero o “dom o tempo” para as melhor conhecerem num momento em que o país passar por mudanças importantes no sentido de aceitar este grupo social.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 02-11-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Essas ideias e outras fazem parte de uma solução mais ampla que inclui respeito mútuo, compaixão e sensibilidade que o padre e editor-geral da revista America esboçou durante uma palestra proferida no último domingo, 30-10-2016, em um encontro do grupo New Ways Ministry, realizado em Pikesville, no estado de Maryland. O New Ways Ministry, grupo de âmbito nacional dedicado à causa LGBT católica, homenageou Martin com o “Bridge Building Award”, prêmio que, segundo o sítio eletrônico oficial da entidade, reconhece as pessoas que “por suas pesquisas, liderança e testemunho promovem a discussão, a compreensão e a reconciliação entre a comunidade lésbica/gay e a Igreja Católica”.

Martin abordou o tema da construção de pontes em sua palestra – intitulada “Uma ponte de duas vias" –, propondo um caminho às pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais e à Igreja institucional a fim de resolver as interações em geral contenciosas e combativas entre ambos.

Mas, como sugere o título, o conselho que o sacerdote deu ao grupo atinge ambos os lados, primeiro traçando um caminho para a Igreja hierárquica e, depois, um trajeto às pessoas LGBTs. Em vários momentos, Martin reconheceu que a mensagem que trazia à comunidade LGBT “talvez seja difícil de ser ouvida por pessoas que se sentem atingidas pela Igreja”.

“Grande parte da tensão que caracteriza essa relação complicada resulta de uma falta de comunicação e, infelizmente, de uma grande quantidade de desconfiança entre os católicos LGBTs e a hierarquia. O que precisamos é de uma ponte entre essa comunidade e a Igreja”, disse.

Especificamente, uma ponte com duas vias construídas com base no respeito, na compaixão e na sensibilidade.

O padre e autor começou o seu discurso com os passos que a Igreja precisa tomar. Disse que o respeito à comunidade LGBT “significa, no mínimo, reconhecer que ela [a comunidade LGBT] existe” e também reconhecer os dons que os seus membros trazem à Igreja, “como toda comunidade o traz”. E, como outros grupos também, a Igreja não deve hesitar em criar ministérios pastorais para a comunidade LGBT, tais como missas especiais e programas sociais, para ajudá-los a se sentirem mais ligados à Igreja e como “filhos amados de Deus”.

Martin disse também que estava “desmotivado por causa da tendência” de organizações católicas em demitir pessoas LGBTs, afirmando que a autoridade magisterial da Igreja vem sendo “aplicada de uma maneira altamente seletiva” e que é isto um “sinal de discriminação injusta”, ignorando o texto do Catecismo Católico, que propõe evitar um tal comportamento.

Um outro fator é referir-se à comunidade pelo nome que ela prefere ser chamada. Martin pediu que a Igreja “deixe de lado” termos como “afligidos com a atração pelo mesmo sexo”, “pessoa homossexual” e “objetivamente desordenada”. Em vez disso, o padre sugeriu empregar as palavras mais comuns à comunidade, tais como LGBT, LGBTQ, gays e lésbicas.

“As pessoas têm o direito de nomearem a si mesmas”, disse. “Usar estes nomes faz parte do respeito. E se o Papa Francisco pode usar a palavra gay, então também pode o restante da Igreja”.

Do outro lado, o padre jesuíta pediu que os católicos LGBTs reconheçam a hierarquia católica – o papa, os bispos, os padres – como mestres da fé, embora com níveis diferentes de autoridade, e aos quais todos devemos escutar e “considerar, com muita oração, aquilo que eles estão ensinando”, mesmo quando discordarmos da mensagem emitida, incluindo aquelas com temas LGBTs.

Além do “respeito eclesial”, Martin pediu à comunidade LGBT que mostre aos padres e bispos “um respeito humano simples” também. Falou que por vezes se sente “desanimado” pela maneira como os ouve falar do clero, em particular zombando-se dos votos celibatários, mas também de suas roupas, incluindo as vestes litúrgicas elaboradas.

“Será que a comunidade LGBT realmente quer agir nesse sentido? Os gays querem zombar dos bispos como efeminados, quando muitos gays provavelmente foram zoados com estas mesmas coisas no passado? Essas práticas não são uma maneira de perpetuar o ódio?”, perguntou Martin.

A compaixão pela comunidade LGBT significa estar com eles, como qualquer outra comunidade católica, na alegria e na dor. E isso começa com a escuta.

“É quase impossível entender a vida de uma pessoa, ou ser compassiva, se não a escutamos”, se não lhe fazemos perguntas”, acrescentou o jesuíta. Perguntem pela vida dessas pessoas, seja agora em idade adulta, seja na fase de crescimento, assim como perguntem sobre a experiência de Deus e de Igreja que elas têm.

Mas a compaixão também exige que a Igreja vá além da escuta e se coloque ao lado das pessoas LGBTs nos momentos em que são perseguidas, disse Martin, novamente voltando ao tema do magistério católico para que se evite “todo sinal de discriminação injusta”. Depois do ataque em junho a uma boate em Orlando geralmente frequentada pela comunidade LGBT, o padre jesuíta disse que se sentiu “desanimado” pela resposta de muitos bispos americanos que não declararam, imediatamente, o seu apoio, como poderiam ter feito caso fosse um outro grupo alvejado.

“Por que não declararam um apoio no caso de Orlando? Isso me pareceu uma falha, uma falta de compaixão, não se colocaram na experiência alheia, uma falha em sofrer com outro. O caso na cidade de Orlando nos convida a refletir sobre o assunto”, disse.

Mas uma maior sensibilidade não pode se desenvolver sem a Igreja envolver, de forma mais deliberada, a comunidade LGBT, continuou o palestrante, fazendo lembrar o chamado do Papa Francisco para que a Igreja seja “uma Igreja do ‘encontro’ e do ‘acompanhamento’”.

“Não podemos ser sensíveis à comunidade LGBT somente emitindo documentos sobre elas, somente pregando sobre elas, ou tuitando sobre o tema, sem conhecê-las”, ou sem ter amigos cuja sexualidade é assumida publicamente, completou.

O padre encorajou os demais clérigos a olhar para os encontros de Jesus com o centurião romano e o coletor de impostos Zaqueu, onde a sua primeira resposta não foi chamá-los de “pagão” ou “pecador”, mas sim fazer amizade com eles.

“Jesus via além das categorias; ele se encontrava com as pessoas onde estavam e as acompanhava”, disse.

Voltando à comunidade LGBT, Martin pediu que, ao demonstrarem uma maior compaixão, isto é, “saber como é a vida de uma pessoa”, para com a hierarquia católica, primeiramente deve-se reconhecer as numerosas responsabilidades de um bispo moderno: entre outras, os problemas advindos dos escândalos de pedofilia, o declínio no número de vocações, o fechamento de paróquias e escolas, e a arrecadação de fundos.

Além disso, o palestrante falou que a compaixão é reconhecer que alguns líderes eclesiais “podem estar lutando consigo mesmos” no tocante à sua própria sexualidade, talvez este sendo um fator que os levou à vida religiosa, na privacidade que ela lhes proporcionou bem como um ambiente seguro às atitudes odiosas que puderam ter vivenciado na juventude.

Martin reconheceu que muitos na comunidade LGBT acabaram vendo a Igreja institucional como inimiga e perseguidora. Conquanto seja verdade que alguns clérigos “de fato disseram e fizeram coisas ignorantes, dolorosas e odiosas”, o padre disse acreditar que estes representam uma minoria na hierarquia, minoria cuja influência na Igreja estaria “mudando lentamente” no atual papado, em direção a “ajudar a curar algumas dessas feridas”.

Partilhando uma história de como os seus pais responderam quando lhes informou, aos 27 anos de idade, que entraria para a Companhia de Jesus, Martin disse que o seu diretor espiritual o aconselhou dar-lhes o “dom do tempo” para chegarem a uma decisão que ele havia tido a vida toda para processar.

“Pergunto se a comunidade LGBT pode dar à Igreja institucional este tempo. Um ‘dom do tempo’ para ela vir a conhecê-los”, disse. “O mundo está vindo a conhecer vocês. O mesmo acontece com a Igreja. Sei que é um fardo, mas talvez ele não nos deve surpreender. Levamos certo tempo para conhecer as pessoas. Portanto, talvez a comunidade LGBT possa dar à Igreja institucional o dom da paciência”.

No tocante à sensibilidade, Martin pediu aos presentes que reconheçam os níveis variados de autoridade magisterial na Igreja associados com determinadas declarações, e que quando o papa ou uma congregação vaticana se pronuncia, em geral estão falando ao mundo inteiro – e não só aos Estados Unidos.

Martin disse-se desapontado com que alguns católicos gays e lésbicas tenham desqualificado o chamado de Francisco na exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Evangelho), segundo a qual “antes de tudo (...), cada pessoa, independentemente de sua orientação sexual, deve ser respeitada em sua dignidade e tratada com consideração, sendo que ‘todo sinal de discriminação injusta’ deve ser cuidadosamente evitado, particularmente qualquer forma de agressão e violência”.

“Talvez nos países ocidentais estas palavras soam insuficientes”, disse Martin antes de acrescentar: “Imaginem-se lendo isso num país onde a violência contra as pessoas LGBTs é galopante e onde a Igreja permanecia silenciosa (...) O que parece árido às pessoas LGBTs em um país pode ser, em outro, água em um deserto estéril”.

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