Principal revista LGBT dos EUA escolhe Papa Francisco como ''pessoa do ano''

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18 Dezembro 2013

Embora 2013 será lembrado pelo trabalho de centenas de pessoas na promoção da igualdade no casamento, ele também será lembrado pelo exemplo de um homem: Jorge Mario Bergoglio.

A reportagem é de Lucas Grindley, publicada na revista The Advocate, 16-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Intertítulos da IHU On-Line.

Ao se decidir quem é a pessoa mais influente de 2013 nas vidas das pessoas LGBT, há escolhas óbvias. Ao menos, assim parece ser no início. (…)

A pessoa mais influente de 2013 não vem do nosso conflito jurídico em curso, mas sim do nosso conflito espiritual – sucessos que são mais difíceis de definir. Não houve nenhuma votação realizada ou decisão emitida, e mesmo assim uma mudança significativa e sem precedentes ocorreu este ano com relação a como as pessoas LGBT são consideradas por uma das maiores comunidades de fé do mundo.

O Papa Francisco é o líder de 1,2 bilhão de católicos romanos de todo o mundo. Há três vezes mais católicos no mundo do que cidadãos nos Estados Unidos. Goste-se ou não, o que ele diz faz a diferença. Claro, todos nós conhecemos católicos que falseiam as regras da religião sobre a moral. Há muito desacordo sobre o papel das mulheres, sobre a contracepção, e muito mais. Mas nada disso deve nos levar a subestimar a capacidade de qualquer papa de persuadir corações e mentes com relação à abertura às pessoas LGBT, e não só nos EUA, mas também globalmente.

Os redutos remanescentes à aceitação às pessoas LGBT na religião, os que bloqueiam o progresso no trabalho a ser feito, provavelmente serão mais persuadidos por uma figura que eles conhecem. Da mesma forma que o presidente Obama transformou a política com a sua evolução nos direitos civis LGBT, uma mudança a partir do papa poderia ter um efeito duradouro sobre a religião.

Francisco e seus antecedentes

A mudança gritante do Papa Francisco com relação à retórica dos seus dois antecessores – que estiveram, ambos, em um momento ou outro, entre os indicados ao prêmio anual Phobie da The Advocate [concedido aos maiores homofóbicos do ano] – faz com que o que ele fez em 2013 seja ainda mais ousado. Primeiro, há o Papa João Paulo II, contra o qual os ativistas dos direitos gays protestaram durante uma visita altamente divulgada aos Estados Unidos em 1987 por causa daquilo que havia ficado conhecido como a "Rat Letter" – uma condenação sem precedentes da homossexualidade como "intrinsecamente má". Ela foi escrito por um dos seus cardeais, Joseph Ratzinger, que veio a se tornar o Papa Bento XVI. Desde 1978, um desses dois homens havia comandado a influência do Vaticano – até este ano.

Quando a revista Time nomeou o Papa Francisco como sua "Pessoa do Ano" na semana passada, ela salientou com justiça a incapacidade da Igreja Católica de se mover rapidamente, chamando-a de "um lugar que mede a mudança em termos de séculos". O Papa Francisco ainda não é pró-gay segundo o padrão de hoje. Ele começou o seu mandato emitindo uma encíclica conjunta com Bento XVI em julho [Lumen fidei], na qual eles reiteram que o casamento deve ser uma "união estável do homem e da mulher". O texto continua: "Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual" [n. 52].

Como arcebispo da Argentina, o cardeal Jorge Bergoglio se opôs à aprovação final da igualdade no casamento no país, dizendo em 2010 que ele é um "ataque destrutivo contra o plano de Deus". Quando Bergoglio se tornou papa, a GLAAD [Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, ONG norte-americana de monitoramento da mídia sobre a questão LGBT] foi rápida em apontar que ele chamou uma vez a adoção por parte de casais do mesmo sexo de uma forma de discriminação contra as crianças.

Mas, na verdade, foi durante o tempo do Papa Francisco como cardeal que a sua diferença em relação a Bento XVI e os linhas-duras da Igreja se tornou aparente. Como o casamento entre pessoas do mesmo sexo parecia encaminhado para ser legalizado na Argentina, Bergoglio argumentou reservadamente que a Igreja deveria se manifestar em defesa das uniões civis como o "menor de dois males". Tudo isso de acordo com o biógrafo autorizado do Papa Francisco, Sergio Rubin. O ativista gay argentino Marcelo Márquez sustentou a história, dizendo ao The New York Times em março que Bergoglio "escutou os meus pontos de vista com muito respeito. Ele me disse que os homossexuais precisam ter seus direitos reconhecidos e que ele apoiava as uniões civis, mas não o casamento entre pessoas do mesmo sexo".

"Quem sou eu para julgar?"

Como papa, ele ainda não disse que a Igreja Católica apoia as uniões civis. Mas o que Francisco diz, sim, sobre as pessoas LGBT já causou reflexão e consternação dentro da sua Igreja. O momento que virou manchete foi durante um voo do Brasil para Roma. Quando perguntado sobre os padres gays, o Papa Francisco disse aos jornalistas, de acordo com uma tradução do italiano: "Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?".

A brevidade dessa afirmação e a atenção descomunal que ela recebeu imediatamente são uma prova da influência do papa. O fato de ele fazer uma questão simples, com raízes muito cristãs, quando proferidas nesse contexto, por esse homem – "Quem sou eu para julgar?" –, tornou-se um sinal para os católicos e para o mundo de que o novo papa não é como o antigo papa.

A visão de Francisco sobre a forma como a Igreja Católica deve abordar as pessoas LGBT foi mais bem explicada em suas próprias palavras durante uma entrevista em profundidade para a revista America em setembro. Ele lembrou: "Uma vez, uma pessoa, de modo provocativo, perguntou-me se eu aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com outra pergunta: 'Diga-me: Deus, quando você olha para uma pessoa homossexual, você aprova a sua existência com afeto ou a rejeita, condenando-a?' É necessário sempre considerar a pessoa".

Ele disse que, quando era cardeal, ele "recebia cartas de pessoas homossexuais, que são 'feridos sociais', porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isso. Durante o [recente] voo de regresso do Rio de Janeiro, eu disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de expressar a própria opinião a serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível".

Ele continuou: "Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isso não é possível. Eu não falei muito dessas coisas, e censuraram-me por isso. Mas, quando se fala disso, é necessário falar em um contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido, e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente".

"Todos são filhos de um mesmo Pai"

Fiel à sua palavra, o Papa Francisco não usou os seus maiores momentos no centro das atenções do mundo para condenar as pessoas LGBT, como Bento XVI fizera. Nessa época do ano passado, o Papa Bento XVI tinha recém-emitido sua mensagem para o Dia Mundial da Paz – celebrado pela Igreja Católica no dia de Ano Novo. Nela, ele advertia que os esforços para permitir que gays e lésbicas se casem, "na realidade, prejudicam [a estrutura natural do matrimônio] e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu caráter peculiar e a sua insubstituível função social". Bento XVI descreveu a igualdade no casamento como "uma ofensa contra a verdade da pessoa humana".

Ao contrário, o Papa Francisco emitiu a sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, na semana passada. A fraternidade, disse ele, "é o fundamento e o caminho para a paz". Ele recontou a história de Caim e Abel como um exemplo do fracasso da humanidade em reconhecer os seus irmãos e, ao invés, encontrar inimigos. "Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, todos são filhos de um mesmo Pai". E continuou: "Todos [os homens e as mulheres] gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus".

O Papa Francisco passa o tempo falando sobre o mal da ganância e da falta de foco na justiça e no combate à pobreza. Por isso, conservadores como Rush Limbaugh o atacaram como marxista. Mas Francisco baseia sua defesa pela igualdade no direito de cada pessoa à autorrealização. "O ser humano tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual", disse o papa na mensagem para o Dia Mundial da Paz.

Pode-se imaginar como a aceitação das pessoas LGBT podem caber na defesa do papa a amar todos os seres humanos e a valorizar a contribuição feita por cada um para a sociedade. Com menos de um ano como papa, Francisco ainda deve mostrar se a sua aspiração acaba não sendo a nossa inimiga. Ele será um agente para combater a nossa discriminação em todo o mundo?

Abertura e diálogo

A revista Time destaca o grupo incomum de oito bispos que o Papa Francisco convocou para assessorá-lo regularmente. Entre eles está o cardeal Oswald Gracias, da Índia, que neste mês condenou publicamente a criminalização da homossexualidade no seu país. A Suprema Corte da Índia tinha recém-emitido uma decisão chocante que restabelecia a punição de até 10 anos de prisão contra o sexo gay. "A Igreja Católica nunca se opôs à descriminalização da homossexualidade porque nunca consideramos as pessoas gays como criminosas", disse ele, de acordo com a Asia News.

"A Igreja Católica se opõe à legalização do casamento gay, mas ensina que os homossexuais têm a mesma dignidade de todo ser humano e condena todas as formas de discriminação injusta, assédio ou abuso". No início deste ano, ele disse a um grupo LGBT da Índia, de acordo com a Time, que "dizer que as pessoas com outras orientações sexuais são pecadoras é errado" e que " devemos ser sensíveis nas nossas homilias e na forma como falamos em público, e por isso vou aconselhar os nossos padres".

O jornal italiano La Repubblica informou que um grupo LGBT católico italiano, o Kairòs, de Florença, escreveu uma carta ao papa em junho, pedindo "abertura e diálogo", e ressaltando que a falta disso "sempre alimenta a homofobia". Os católicos LGBT tinham escrito para papas anteriores, mas Francisco é o primeiro que lhes escreveu uma resposta. Ambos os lados têm mantido grande parte do conteúdo da sua conversa de forma privada, exceto para destacar com um alto nível de admiração que o papa deu a sua bênção ao grupo LGBT.

"O Papa Francisco falou com compaixão"

Uma coisa que sabemos a partir de 2013 é que não importa a dedicação dos nossos ativistas; no fim, somos frequentemente confrontados com uma pessoa heterossexual que decide o nosso destino. As nove pessoas heterossexuais sentadas na Suprema Corte – seis das quais são católicas romanas – irão emitir alguma vez uma decisão de longo alcance que torne legal a igualdade no casamento em todos os 50 Estados [norte-americanos]? A Câmara dos Deputados – da qual cerca de um terço dos membros são católicos, mais do que qualquer outra religião – irá aprovar a Employment Non-Discrimination Act [Lei de Não Discriminação no Emprego]? Algum deles irá levar em consideração os conselhos do papa contra lançar julgamentos?

Nada disso vai afetar se os norte-americanos LGBT que abandonaram a Igreja Católica estão inclinados a retornar. O impacto do papa não tem a ver se estamos nos decidindo a sentar nos bancos da igreja; tem a ver com as pessoas que já estão nos bancos. Mais do que isso, tem a ver com os devotos que estão lá todos os domingos, mais nos dias da semana, e que se voluntariam para o trabalho de caridade, e que, às vezes, são a nossa mais ardente oposição.

Mesmo assim, os católicos LGBT que permanecem na Igreja agora têm mais razões para esperar que a mudança está vindo. Ouça as reações ao comentário "Quem sou eu para julgar?" do papa. "O Papa Francisco hoje proferiu algumas das palavras mais encorajadoras que um pontífice jamais falou sobre pessoas gays e lésbicas", disse um comunicado da organização católica LGBT Equally Blessed.

"Ao fazer isso, ele estabeleceu um grande exemplo para os católicos de todas as partes". O texto continuou com ainda maior antecipação: "Os líderes católicos que continuam depreciando gays e lésbicas não podem mais alegar que as suas considerações inflamatórias representam os sentimentos do papa. Os bispos que se opõem à expansão dos direitos civis básicos – como o fim da discriminação nos locais de trabalho – não podem mais alegar que o papa aprova a sua agenda discriminatória. O Papa Francisco não articulou uma mudança no ensino da Igreja hoje, mas falou com compaixão e, ao fazê-lo, encorajou uma conversa já vívida que pode, um dia, tornar possível que a Igreja abrace plenamente os católicos gays e lésbicas".

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