Para casais gays inter-religiosos, outro obstáculo para o casamento

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05 Novembro 2013

Certa manhã alguns meses atrás, Connie Knapp recebeu um telefonema de seu pastor. Vários dias antes, a Suprema Corte tomou uma decisão que fortaleceu o movimento pró-casamento de mesmo sexo. O pastor dela, o reverendo Chip Low, sentia que Knapp e sua parceira, Anne Corey, poderiam querer se casar.

A reportagem é de Samuel G. Freedman, publicada no jornal The New York Times, e reproduzida pelo portal Uol, 02-11-2013.

Por 30 anos, desde que se conheceram em um clube de corrida e se apaixonaram durante um jantar com espaguete ao molho de mariscos em Nova York, Knapp e Corey se consideraram um casal. Mas após o casamento gay ter sido autorizado no Estado de Nova York, elas prometeram não se casar enquanto a Lei de Defesa do Casamento permanecesse uma lei federal.

Agora a Suprema Corte tinha derrubado uma parte chave da medida, que negava benefícios federais aos casais de mesmo sexo. Após anos suportando o opróbrio dos conservadores religiosos, de ouvirem que gays e lésbicas eram o mal, imorais, intrinsecamente problemáticos e que provocaram o Todo Poderoso a causar o 11 de Setembro, as mulheres tinham um pastor amistoso que pendurou a bandeira do arco-íris do lado de fora de sua igreja e estava se oferecendo para realizar a cerimônia delas.

Esse era apenas um obstáculo. Knapp, nascida e criada católica, agora era uma presbiteriana estudando para o ministério. Corey era de formação judaica. As mulheres, ambas com 65 anos, estavam prestes a descobrir que em uma era de crescente aceitação do casamento gay, elas não teriam dificuldade em encontrar membros do clero dispostos a realizar a cerimônia de mesmo sexo. Mas uma cerimônia inter-religiosa parecia improvável.

Se essa percepção as surpreendeu, Knapp e Corey não foram as únicas. À medida que cresce rapidamente a tolerância ao casamento de mesmo sexo, casais gays inter-religiosos estão descobrindo que os mesmos líderes espirituais que apoiam o direito civil de se casarem podem fazer objeção, com base teológica, em cerimônias religiosas mistas.

"Eu tenho observado o aumento desse fenômeno ao longo dos anos", disse Idit Klein, diretora executiva da Keshet, uma organização de defesa para judeus que são gays, lésbicas, bissexuais ou transgênero. "Eu vi passar de ser difícil encontrar um rabino que realizasse um casamento de mesmo sexo a agora ter rabinos que me ligam e dizem: 'Eu nunca realizei um casamento gay e eu quero realizar' - uma verdadeira disposição de demonstrar solidariedade. Algo mudou profundamente."

"Mas o que não mudou significativamente é a visão da maioria dos rabinos a respeito de um casamento inter-religioso", disse Klein. "Ter famílias inter-religiosas na congregação é uma coisa, mas realizar o casamento é outra."

A Keshet tem um banco de dados de 713 rabinos ou sinagogas dispostos a realizar casamentos de mesmo sexo. Mas dentre esses, estimou Klein, apenas aproximadamente 20% estão dispostos a realizar cerimônias inter-religiosas.

Dentro do movimento da Reforma Judaica, que conta com um retrospecto de décadas apoiando os direitos dos gays, apenas metade de seus rabinos realiza cerimônias inter-religiosas, independente da orientação sexual do casal. A associação rabínica do movimento conservador publicou diretrizes para casamentos de mesmo sexo, mas proíbe seus membros de realizarem casamentos inter-religiosos.

As diversas regras e normas dentro do rabinato, por sua vez, colocam o clero cristão em uma posição reativa. Entre os pastores dispostos a realizarem casamentos de mesmo sexo, até mesmo dentro da própria seita, quase todos são de seitas liberais protestantes.

Na prática, como casais como Knapp e Corey descobriram, regras fixas às vezes importam menos que o nível de conforto pessoal. Alguns rabinos realizarão a cerimônia de um casal inter-religioso apenas se toda a liturgia for judaica; outros, se o casal prometer criar seus filhos como judeus. Alguns rabinos realizam a cerimônia em conjunto com um clérigo não judeu, enquanto outros não. Eles podem ou não aceitar o uso de símbolos e textos não judaicos na cerimônia.

Misturar e casar heranças parecia simples para Knapp e Corey ao longo de grande parte de suas décadas juntas. Elas celebram juntas anualmente um Sêder de Pessach lésbico desde meados dos anos 80, com seu próprio Hagadá recortado e colado. Corey vai à igreja com Knapp no Natal e na Páscoa. Elas leem um livro de meditações religiosas toda manhã.

Quando Low chegou há poucos meses para iniciar o planejamento do casamento, o ato de equilibrismo religioso se tornou mais difícil. Knapp, uma professora universitária, queria se casar na igreja de Low, a Primeira Presbiteriana de Yorktown Heights, na qual participava ativamente. A exigência de Corey era que não houvesse referência a Jesus na cerimônia.

"Quando Chip chegou e disse: 'Nos fale sobre sua família, sobre ser judia', repentinamente a sensação foi de que aquilo era importante para mim", disse Corey, uma professora aposentada. "Eu pensei nos meus ancestrais que vieram para cá para escapar do pogrom."

Low contatou um rabino local, Robert Weiner, do Templo Beth Am em Yorktown Heights, para explorar a possibilidade de realizarem conjuntamente a cerimônia. O rabino já tinha realizado vários casamentos gays, inclusive um de um casal inter-religioso. Mas os cônjuges tinham que se comprometer a "criar um lar judaico" em vez de "seguirem por uma estrada religiosa dupla", ele disse em uma entrevista.

Por sua vez, Low se sentiu marginalizado por uma cerimônia em que não houvesse menção de Jesus. "Eu entendo que não seja fácil para a fé judaica ouvir quão importante Jesus é para os cristãos, quão central", ele disse em uma entrevista na semana passada. "Mas é preciso a habilidade de duas fés estarem em diálogo e em tensão uma com a outra."

Sem ressentimentos, mas com o relógio correndo, Knapp e Corey continuaram sua busca por clérigos. Por meio de uma organização de famílias inter-religiosas, elas foram encaminhadas para uma mulher que se descrevia como uma "capelã rabínica". Mas, lembrou o casal, ela disse que não dividiria as funções com um pastor.

À medida que se aproximava a data do casamento delas em 13 de outubro, Knapp e Corey recorreram a uma amiga que foi ordenada online pela Igreja da Vida Universal. A cerimônia, realizada em um centro de conferência, incluiu uma chupá, a tenda sob a qual se realiza o casamento judaico, e a tradicional quebra do copo. As Sheva Brachot (sete bênçãos) vieram de fontes apaches e budistas, entre outras. Em reconhecimento à herança irlandesa de Knapp, uma bênção foi uma oração em gaélico.

Em um aspecto, a dificuldade para planejar o casamento pode ter provado um ponto importante para os defensores do casamento gay. "Essa é realmente uma grande demonstração das liberdades religiosas que existem", disse Ross Murray, que cuida da iniciativa religiosa para o grupo de defesa GLAAD. "As pessoas que defendem a igualdade no casamento continuam dizendo que ninguém forçará o clero a realizar cerimônias de mesmo sexo. A questão difícil dos casais inter-religiosos mostra isso."

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