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14 Dezembro 2017

Era setembro de 1942, quando em uma de suas transmissões na BBC, destinadas ao público na Alemanha, Thomas Mann relatou aos alemães as notícias (aqueles que na época conseguia obter) sobre o destino dos judeus na Polônia e no resto da Europa ocupada. Ele falou do gueto de Varsóvia, dos trens apinhados de pessoas destinadas a morrer, do gás com o qual eram realizados os assassinatos em massa. Como filho da era do Iluminismo, o Nobel da literatura pensava que explicando "como estavam as coisas", enunciando "a verdade dos fatos”, fazendo entender que o sangue dos inocentes cairia sobre as cabeças do povo dos carrascos, teria levando os seus compatriotas a um movimento de indignação e de rebeldia; para salvar suas almas e, talvez, até mesmo suas vidas.

O artigo é de Wlodek Goldkorn, polonês, radicado na Itália, foi editor de Cultura da revista italiana Espresso, publicado por Repubblica, 13-12-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Hoje, 75 anos depois daquele discurso, 72 anos depois da abertura dos portões de Auschwitz e com os fascistas que agitam suas bandeiras nas cidades do Velho Continente (o renascimento do fascismo não é só um fenômeno italiano) sabemos que um discurso orientado por uma forma de pensamento racional e racionalista, ligado à fé na capacidade dos seres humanos para estarem no lado do Bem, desde que eles compreendam a situação, é um discurso que não é suficiente para lutar contra o fascismo. E sabemos também que a própria memória e testemunho são postas em discussão.

Em suma, a decisão antifascista parece ter caído.

Ágnes Heller, 88 anos, judia, filósofa e, portanto, testemunha do Holocausto e analista da condição humana, afirma: "Não basta indicar o Mal para que as pessoas não façam o mal. A racionalidade não é suficiente. Tomemos uma criança: dizer-lhe para não torturar o gato não é suficiente, porque a criança sempre pode responder "isso machuca o gato, não a mim”. E então? "E então é preciso encontrar uma maneira para que a criança sinta e não apenas saiba que não precisa causar o mal. Para citar Pascal, existem as razões do coração".

Entre as razões do coração que até agora cultivamos temos justamente os relatos das testemunhas, as viagens para os campos de extermínio, principalmente o de Auschwitz, imagens e vídeos transmitidos desde a época do nazismo. Todos, com funções pedagógicas e de advertência: vejam ao que leva o fascismo, portanto "nunca mais". No entanto, as testemunhas (a quem desejamos uma vida muito longa) estão começando a desaparecer. As viagens para Auschwitz certamente aproximam da dimensão do horror, mas talvez não sejam o suficiente para os estudantes do ensino médio que visitam o campo para entender com que facilidade podemos nos tornar não só vítimas, mas inclusive carrascos.

Dan Diner, historiador alemão e israelense, um dos principais especialistas dos acontecimentos do último século e do povo judeu explica a esse respeito: "O Holocausto marca o colapso da própria episteme do Ocidente. Trata-se de uma catástrofe que tornou inúteis e obsoletas as categorias usuais com que costumávamos pensar e rescindiu o vínculo entre causa e efeito". A consequência disto é que hoje, há três gerações de distância, temos a tendência de ver apenas o que nos parece "concreto", incapazes, segundo Diner, de criar metáforas, abstrações e generalizações.

De fato, a palavra fascismo agora significa bem pouco, no máximo é referência histórica. Além disso, talvez nós estejamos presos demais às narrações das vítimas. É escandaloso pensar assim? Talvez seja apenas paradoxal. Tomemos um exemplo drástico e extremo. As imagens que conhecemos do Holocausto. Em sua grande maioria são fotografias tiradas pelos nazistas de suas vítimas, um instante antes de matá-las. O nosso olhar sobre os assassinados do Holocausto, sobre as pessoas conduzidas para as câmaras de gás (imagens que deveriam nos induzir a repetir "nunca mais") é o olhar dos carrascos; empatia sim, mas empatia estética, a estética do Mal. Além disso, não temos outras imagens, exceto umas poucas que foram tiradas em condições de quase clandestinidade.

E a propósito das imagens. Jürgen Stroop, que comandava as tropas nazistas no gueto de Varsóvia, depois da derrota do Levante de 1943, escreveu um relatório para seus superiores em Berlim. Ele anexou mais de cinquenta fotos: documentos de seu triunfo. São compostas aproximadamente como as pinturas do século XV: à direita os bons, os alemães; à esquerda os maus, os judeus. Falta o crucifixo no meio. Mas, a coisa mais importante, entre aquelas fotos há pelo menos duas imagens emblemáticas. A primeira, muito famosa: a criança com as mãos levantadas; vítima inocente. Todo mundo já a viu dezenas de vezes, agora reproduzida ad infinitum. A outra, mostra três insurgentes, duas mulheres e um homem, jovens, lindos, com as mãos levantadas, mas cerradas em um punho, com os olhos que transmitem orgulho e desafio; no fundo, as chamas e a fumaça dos prédios em chamas. Os três são a imagem da luta, do heroísmo e da esperança. Mas essa fotografia - em que, a despeito de sua intenção, o fotógrafo nazista imortalizou um gesto arcaico que renova cada combatente convicto de suas próprias boas razões do coração - só é conhecida pelos especialistas. Então, talvez para combater o fascismo que hoje renasce e para recuperar uma função política da memória, é preciso voltar a falar sobre a Resistência, mais do que das vítimas indefesas.

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