O cristianismo antifascista de Dietrich Bonhoeffer

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13 Abril 2015

"Se hoje na Europa ainda podemos dizer-nos cristãos sem ter vergonha é graças a um jovem pastor luterano que num momento entendeu tudo. Enquanto milhões de cristãos na Europa fascista aderiam à ditadura, poucos milhares entenderam que o fascismo não era somente uma idéia política, mas uma operação criminal", escreve Peter Ciaccio, pastor, em artigo publicado por Riforma, 09-04-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Houve momentos na história cristã da Europa que têm sido transmitidos e que ainda são vivenciados como pontos cruciais de virada. Momentos que determinaram a prossecução das vivências do cristianismo no nosso continente. Alguns desses momentos são mitológicos, outros são historicamente discutíveis, mas no complexo são eventos que chegaram a fazer parte do mito, das histórias a transmitir. Do sonho de Constantino – “In hoc signo vinces” – ao Papa Leão Magno que retém Átila, o “Flagelo de Deus”, até as batalhas de Poitiers de 732, de Lepanto de 1571, de Viena de 1683, que frearam a avançada das potências islâmicas na Europa.

Algumas dessas vivências se tornaram parte da retórica dos neofascistas que, sem nenhuma reserva, se definiram cristãos. Com boa paz dos nostálgicos de “quando existia ele”, antifascista tem sido o ponto de virada do século vinte, antifascista a batalha que permitiu ao cristianismo de sobreviver no continente.

Este ponto de virada tem um nome e um cognome: Dietrich Bonhoeffer.

Se hoje na Europa ainda podemos dizer-nos cristãos sem ter vergonha é graças a um jovem pastor luterano que num momento entendeu tudo. Enquanto milhões de cristãos na Europa fascista aderiam à ditadura, poucos milhares entenderam que o fascismo não era somente uma idéia política, mas uma operação criminal. Entre estes poucos, Bonhoeffer. A lucidez do pastor em compreender o significado profundo daquilo que lhe acontecia em torno o eleva ainda hoje, a 70 anos do martírio, a profeta. Bonhoeffer conseguiu falar em nome de Deus, num momento no qual a soberania de Deus era posta em discussão pela impiedade nazista.

A particularidade do ponto de virada na história cristã da Europa encarnado por Bonhoeffer está na sua derrota. Constantino, Poitiers, Lepanto: a vitória dos exércitos “cristãos” era – e é ainda – vista por muitos como sinal da divina providência. Bonhoeffer, ao invés, pende, sua vida foi uma vida de perdedor: não conseguiu convencer os colegas pastores e teólogos evangélicos na Alemanha do erro nazista; grande teólogo, perdeu a cátedra em Berlim para guiar um pequeno seminário clandestino em Finkewalde; foi um grande visionário ecumênico, mas muitos amigos internacionais desconfiaram dele, considerando-o um personagem ambíguo; o atentado a Hitler que, junto a outros, havia organizado, faliu; morre a poucas semanas do rendimento da Alemanha.

Onde esteve a vitória, aquele sinal vencedor que foi a cruz para Constantino? Foi precisamente ali, na sua derrota e na sua morte. “Merece ser chamado teólogo quem compreende as coisas visíveis e manifestas de Deus, olhando para o sofrimento e a cruz”, dizia Martinho Lutero. Dietrich Bonhoeffer, profeta não escutado pelos seus compatriotas e contemporâneos, viveu para testemunhar a fé cristã, confiando-se totalmente à graça de Deus. “A lei diz: “Faze”, e jamais é feito; a graça diz: “Crê”, e tudo já está feito”, dizia ainda Lutero.

Confiando-se à graça, Bonhoeffer permitiu que a boa nova de Cristo continuasse a ser anunciada na Europa. Poucos outros têm estado na altura do testemunho cristão de Bonhoeffer em sua escura época, mas o pastor luterano alemão nos deixou escritos importantes, que admoestam ainda hoje as igrejas a serem diversas daquilo que são. Nós hoje podemos continuar a dizer-nos cristãos na Europa. Agradecemos a Bonhoeffer e ao Espírito de Deus que o animou. Procuremos, todavia, estar na altura do seu exemplo. Exemplo que o levou ao martírio.

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