Quando a floresta morre, morre a vida. Entrevista com Dom Edson Damian

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01 Novembro 2017

Edson Tasquetto Damian, 69 anos, desde 2009, é bispo de São Gabriel da Cachoeira, ex-prelazia apostólica da Amazônia desde 1925 e diocese desde 1981. Ela se estende em uma superfície de 294.598 quilômetros quadrados (a Itália inteira ocupa 302.073) e conta com uma população de 99.500 habitantes, quase todos católicos, reagrupados em 10 paróquias, atendidas por seus sacerdotes diocesanos e por 10 religiosos.

A reportagem é de Francesco Strazzari, publicada no sítio Settimana News, 25-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Excelência, que impressão lhe causou o anúncio do Sínodo extraordinário sobre a Amazônia de outubro de 2019?

Mais do que uma agradável surpresa! Surpresa que nos enche de alegria e de esperança. Este Sínodo se coloca no espírito das reformas relatadas na encíclica programática Evangelii gaudium, que nos convida a ser uma Igreja em saída rumo às periferias geográficas e existenciais, a optar pelos pobres, pelos excluídos, pelos descartados.

Acho que a questão ecológica influenciou muito a decisão do Papa Francisco.

Certamente sim. Este Sínodo, de fato, assumirá concretamente a ecologia integral delineada profeticamente na encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum. Os parágrafos 37 e 38 descrevem “a importância da Amazônia para o futuro da humanidade”. Os ecossistemas das florestas tropicais têm uma biodiversidade de grande complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas, quando essas florestas são queimadas ou arrasadas ao solo para aumentar os cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, e tais áreas são transformadas em desertos áridos (...).

De fato, existem “propostas de internacionalização da Amazônia, que servem apenas aos interesses econômicos das multinacionais”. Junto com o cuidado da casa comum, o Sínodo reunirá representantes de 99 circunscrições eclesiásticas presentes nos nove países que fazem parte da “Panamazônia”, para buscar novos caminhos para a evangelização dos povos que vivem nessa macrorregião. No anúncio do Sínodo, o papa se referiu explicitamente aos povos indígenas, que são esquecidos e excluídos pelos grandes projetos econômicos. Assim a Laudado si’ fala a respeito: “É indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida” (n. 146).

É muito conhecida a escassez de ministros ordenados. O senhor acha que esse problema será levantado?

Dado o número insuficiente de ministros ordenados, deve-se investir mais nos cristãos leigos e leigas, para que assumam o seu protagonismo na sociedade e exerçam com competência a missão de catequistas, ministros da celebração da Palavra, diáconos. Esperamos que, até a realização do Sínodo, a comissão encarregada pelo papa apresente propostas concretas para a ordenação de mulheres diáconos. Também esperamos que sejam tomadas decisões que acelerem a ordenação presbiteral de viri probati uxorati, de homens casados. Há um grande número de comunidades espalhadas ao longo dos rios e no meio da floresta que os presbíteros conseguem visitar apenas duas ou três vezes por ano. Os nossos irmãos pobres e distantes dos centros urbanos são privados até da Eucaristia, fonte que alimenta a vida e a espiritualidade dos cristãos.

Certamente, a inculturação do Evangelho nas diversas culturas estará sobre a mesa.

Não há dúvida. Serão levados em consideração os percursos realizados no esforço de inculturação do Evangelho nas diversas culturas da Amazônia. Na diocese de São Gabriel da Cachoeira, isso já está acontecendo, à luz deste princípio: “A boa notícia das culturas indígenas acolhem a Boa Notícia de Jesus”. O ponto de partida é a identificação dos valores humanos, semina Verbi dos povos indígenas. Muitos desses valores coincidem com o Evangelho e são iluminados por ele. Desse modo, a inculturação, com o protagonismo de irmãos e irmãs, permite que os povos indígenas acolham no coração das suas culturas a Boa Notícia de Jesus.

O senhor acha que líderes indígenas serão convidados?

Eu acredito sim: líderes indígenas e de outros povos tradicionais, para que testemunhem as suas lutas, sofrimentos, perseguições e esperanças. Lembro-me do tuchaua Jacir José de Souza, líder Makuxi, que lutou por 30 anos com os povos indígenas de Roraima até, finalmente, ver demarcada e homologada a terra indígena Raposa Serra do Sol.

O espírito ecumênico também soprará?

É o espírito ecumênico que nos anima na comemoração dos 500 anos da Reforma protestante à luz da declaração conjunta “Do conflito à comunhão”. Portanto, também deverão ser convidados os representantes das Igrejas cristãs para trazerem o testemunho deles.

Os mártires da Amazônia serão lembrados?

Certamente, não poderá faltar no Sínodo a memória dos inúmeros mártires que deram a vida em defesa dos direitos dos povos indígenas, agricultores mestiços e ribeirinhos, que lutaram pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Recordo alguns: Pe. Rofolfo Lunkenbein e o índio Simão Bororo, Cacique Marçal, que cumprimentou o Papa João Paulo II quando este visitou Manaus em 1980, Pe. Ezequiel Ramin, Ir. Vicente Cañas, Pe. Josimo Morais Tavares, Ir. Dorothy Stang, que costumava dizer: “A morte da floresta é o fim da nossa vida”.

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