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22 Fevereiro 2017

Há dezesseis anos, um adoentado Papa João Paulo II criava um número recorde de cardeais no consistório de fevereiro de 2001. Entre eles estava um número recorde de latino-americanos, muitos dos quais desempenham papéis centrais no atual pontificado. Estamos vivendo o momento da “Turma de 2001”.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 20-02-2017. A tradução e de Isaque Gomes Correa.

Os historiadores adoram pincelar momentos que, no retrospecto, acabam sendo pontos de inflexão – limiares para além dos quais a história começa a parecer diferente, quando uma era passa a uma outra.

Há exatamente dezesseis anos vivíamos um destes momentos limiares na vida da Igreja Católica, quando o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, era feito cardeal por João Paulo II.

Este momento foi importante, evidentemente, para ele, pois se “lançava” para dentro da Igreja universal depois de décadas de uma relativa obscuridade. Mas foi igualmente importante para a Igreja regional, que agora, com razão, é o ponto de referência dinâmico para a Igreja no mundo.

Foi o momento em que a Europa perdeu o seu lugar dominante no Colégio Cardinalício. Os europeus ainda eram o maior bloco de eleitores (65), mas foram superados, pela primeira vez, pelo conjunto dos membros não europeus. E entre estes os latino-americanos eram, de longe, o maior bloco: 27 barretes vermelhos na sequência do consistório de fevereiro de 2001, enquanto a América do Norte, a África e a Ásia tinhas 13 cada, com a Oceania possuindo apenas 4.

Muitos daqueles cardeais latino-americanos são, hoje, importantes agentes no pontificado de Francisco, ao ponto de ser possível falar de uma “turma de 2001”.

Dois dos membros do Conselho dos Cardeais atual vêm dessa turma: o seu coordenador, Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, de Honduras, e Francisco Javier Errázuriz, de Santiago do Chile. Há também Claudio Hummes, Arcebispo Emérito de São Paulo (quem sussurrou “não se esqueça dos pobres” a Bergoglio depois da eleição ao papado), que coordena a missão dos bispos brasileiros na Amazônia e que permanece um confidente de Francisco.

O outro brasileiro da Turma de 2001, Geraldo Majella Agnelo, da Bahia, foi presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB na época que Bergoglio liderava a conferência dos bispos argentina.

E poderíamos continuar: Juan Luis Cipriani, de Lima, no Peru, é hoje um dos cardeais do Conselho para a Economia, embora não seja um aliado natural de Francisco; Julio Terrazas Sandóval, cardeal boliviano falecido em 2015, e que era próximo a Francisco; e, claro, o maior amigo de Bergoglio em Roma, o presidente argentino da biblioteca vaticana, Jorge María Mejía, quem teve um papel fundamental em fazer do jesuíta um bispo em 1992 diante da oposição na época encabeçada pelo secretário de Estado, o Cardeal Angelo Sodano

Mejía, que teve um ataque cardíaco no dia em que Francisco foi eleito, morreu em Roma em 2014, tendo vivido para ver uma mudança de era.

Outros três que receberam o barrete vermelho naquele mês de fevereiro de 2001 eram europeus que acabariam sendo fortes proponentes do nome de Bergoglio ao papado, primeiro em 2005 e, de novo, de modo crucial, em 2013: Cormac Murphy-O’Connor, de Westminster; o teólogo Walter Kasper; e Karl Lehmann, de Mainz.

Com o passar do tempo, os três passaram a querer que Bergoglio fosse o herdeiro do manto reformista do Cardeal Carlo Maria Martini, de Milão.

Os dois americanos elevados nesse consistório também acabariam apoiando a ideia de ter o arcebispo de Buenos Aires como papa: Edward Egan, de Nova York, e Theodore McCarrick, de Washington.

Essa foi a geração de cardeais confiada a desenhar a era pós-João Paulo II. O papa polonês já sofria de Parkinson, e os quatro anos seguintes foram a incubadora dos problemas que Bento XVI e, agora, Francisco teria de lidar, sobretudo problemas centrados no dinheiro e em escândalos sexuais.

Aos que receberam o barrete cardinalício naquele ano, o centralismo vaticano e a decadência da cultura curial romana foram tópicos constantes de debate. Eles foram os temas abordados pelos cardeais quando o Papa João Paulo os chamou de volta a Roma para um consistório de dois dias em maio de 2001, e pelos bispos no Sínodo de outubro do mesmo ano, que ironicamente discutiu o papel dos bispos, mas excluía o tópico da colegialidade episcopal.

Bergoglio acabaria desempenhando um papel significativo nesse sínodo depois que o seu relator ou presidente, Egan, teve de retornar a Nova York para lidar com o rescaldo do 11 de setembro.

Aproximadamente 1 em cada 5 dos delegados sinodais haviam tocado na questão do centralismo vaticano, mas a autoridade curial encarregado do Sínodo, o Cardeal Jan Schotte, ordenou que os resumos de suas falas fossem excluídos do texto final. Bergoglio foi elogiado por habilmente navegar no espaço estreito entre as preocupações dos delegados e o controle curial.

Para a maior parte de nós, jornalistas, que cobrimos o Sínodo, Bergoglio não parecia o tipo de pessoa que faria uma grande diferença. Ele nos impressionou por sua clareza e consciência, mas parecia tímido e fora de lugar (relutava a falar italiano, por exemplo), então nós erroneamente o interpretamos como um porto seguro ao status quo.

Mas, vendo em retrospectiva, quando ele disse que o tema da colegialidade “excede os limites específicos deste Sínodo” e que deveria ser abordado “em outro lugar e com uma preparação adequada”, não estava seguindo a linha de Schotte, mas marcando o seu distanciamento dela. Olhando agora também, a Turma de 2001 sabia o que precisava ser feito – e o arcebispo de Buenos Aires foi, cada vez mais, pincelado como aquele que deveria fazer a frente nessa tarefa.

O experiente analista vaticano Sandro Magister, por exemplo, observou em 2002 como o nome de Bergoglio vinha sendo especulado em Roma como um “papabile”. Na ocasião, Magister disse que “os cardeais latino-americanos estão, mais e mais, focados nele, assim como Joseph Ratzinger”.

Como se viu, após a morte de João Paulo II quem seria eleito papa foi Ratzinger, e não Bergoglio. Mas ninguém faria mais pela Igreja latino-americana do que Bento XVI, quem em 2006 deu luz verde àquilo que Sodano tentara impedir: uma conferência geral do episcopado latino-americano.

Aparecida, Brasil, maio de 2007, marcou o momento de amadurecimento da Igreja na América Latina, e o arcebispo de Buenos Aires – eleito por unanimidade para coordenar a equipe de redação – escreveu aquilo que seria, vendo hoje, a agenda do pontificado de Francisco.

As ondulações feitas por uma pedra tocando a água podem ir longe. O barrete vermelho cardinalício de 2001 do arcebispo jesuíta é como uma dessas pedras, e independentemente do que as pessoas acharem de Francisco, todos podem concordar que as ondas, hoje, estão em todos os lugares.

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