Martini, um homem alheio a toda hierarquia

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15 Fevereiro 2017

Há uma frase de Hélder Câmara, arcebispo brasileiro, que explica bem o pensamento de outro arcebispo, Carlo Maria Martini: “Quando dou comida aos pobres chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres chamam-me de comunista”. Frase que Ermanno Olmi, em colaboração com o jornalista Marco Garzonio (que, pelo jornal Corriere della Sera, acompanhou e contou Martini desde a sua chegada em Milão, em 1979, até a sua morte, em 2012), quis citar no seu intenso retrato do cardeal, vedete, sono uno di voi [vejam, sou um de vocês. Sim, a grafia é em minúsculo, pois Martini não apreciava as maiúsculas, segundo o diretor do filme. Nota da IHU On-Line], que será lançado em março.

A reportagem é de Antonello Catacchio, publicada por Il Manifesto, 11-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Olmi não é nem quer ser um biógrafo que enrola histórias e anedotas, mas cava profundamente, permite que o homem Martini levite, como o pão camponês, enquadra-o “como uma árvore que cresceu para fora do jardim, onde a ordem hierárquica não é avaliada em termos econômicos, mas de função”.

Reunindo entrevistas, clipes, fotografias, material de arquivo e imagens escolhidas com cuidado, Olmi acompanha o relato com a sua própria voz “para falar com honestidade” e oferece o percurso de um personagem singular, natural de Turim, de origens abastadas, que decidiu se tornar sacerdote desde pequeno, depois jesuíta, teólogo, estudioso da Bíblia, convicto defensor do diálogo entre as religiões.

Um grande intelectual da Igreja, chamado, a despeito de si mesmo, por Wojtyla para se tornar arcebispo de Milão em 1979. Cidade difícil, atravessada por todas as contradições da época, e Martini, de algum modo se transformou, entendeu que “estar nos passos do homem é mais importante do que qualquer livro”.

Um episcopado sofrido e próximo dos sofredores. Com uma primeira e inquietante carta pastoral, “a dimensão contemplativa da vida”, a lectio divina na Catedral, as vigílias na praça com os trabalhadores, as frequentes visitas à prisão. As hierarquias, muitas vezes, não compartilharam as suas escolhas, como a de batizar os gêmeos de dois membros das Brigadas Vermelhas nascidos na prisão, assim como a rejeição à lógica do lucro como motor de civilização e progresso, mas também a constituição do “fundo de solidariedade em favor das famílias necessidades dos demitidos e dos desempregados” (1982). Ou, melhor, alguns levantaram a hipótese de um dualismo entre Wojtyla e Martini, que foi colocado em posição antagônica ao papa, obscurecendo uma possível sucessão.

Na Sexta-feira Santa de 1984, Martini celebrou uma procissão penitencial rezando para derrotar em Milão as três pragas do momento: “a violência, a solidão, a corrupção”. Passam-se apenas dois meses, e são entregues no arcebispado sacos cheios de armas das Brigadas Vermelhas. Ele chegou também a instituir uma “cátedra dos não crentes”, ou seja, uma série de encontros sobre “perguntas da fé”, um debate “estranho e imprudente” entre pensantes e não pensantes.

Liberdade, justiça, democracia, temas caras também a Olmi (“Hoje, a democracia tornou-se uma grande máscara”), que também consegue citar a ilha de Chios, onde as pessoas modestas que ele gosta e estima desde sempre inventaram a democracia, mas que “não deve ser vivida passivamente”.

Agora, Martini já amadureceu as suas escolhas; segundo ele, a Igreja deve se renovar, chegou a afirmar que ela “está 200 anos atrás”. Ele não gostava de toda a ênfase e a prosopopeia da ostentação. Tinha sido um dos primeiros a intuir como a santificação do lucro trazia consigo os gérmens da corrupção e, curiosamente, foi justamente em Milão que explodiu ruidosamente a bolha da Tangentopoli [escândalo de corrupção na Itália nos anos 1990].

“Para perseguir a riqueza, tornamo-nos pobres”, recorda Olmi. Ele que acaricia com olhar respeitoso o seu protagonista, compartilha-o antes mesmo de narrá-lo, mostra-o quando, depois de ter renunciado ao cargo de arcebispo de Milão, foi a Jerusalém, cidade de contradições devastadoras, mas também de grande oração: “Na sexta-feira, os muçulmanos. No sábado, os judeus. No domingo, os cristãos”. E, sobre tudo, recorre uma constante, aquele quartinho do Alosianum de Gallarate, onde Martini expirou aos 85 anos e onde tinha feito o seu noviciado aos 17 anos.

No filme, ele não está nem podia estar, mas Garzonio e Olmi quiseram recordar como o Papa Francisco, na sua primeira aparição, saudou os romanos simplesmente com um “boa noite”. Um sinal de proximidade com a simplicidade de Martini, que, na sua chegada a Milão, não quis celebrações. Uma proximidade que encontrou outros pontos de contato, não por último a luz verde para a beatificação de Câmara.

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