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23 Setembro 2016

Foi um dos fundadores do movimento autonomista italiano nos anos 70. Da militância nos coletivos definidos maodadaístas, se transformou em um destacado pensador marxista italiano. Franco Berardi, também conhecido como “Bifo”, analisa nesta entrevista a atualidade política da esquerda europeia e latino-americana, nas vésperas do que entende que será um longo período de resistência na “época financeira”.

A entrevista foi publicada por Revista Panamá, 17-09-2016. 

Eis a entrevista.

Muito se fala sobre a crise, mas, às vezes, nos discursos governamentais, parece quase uma entidade abstrata que a princípio está na União Europeia. Do que se trata esta crise?

A crise não é abstrata, é muito concreta na vida das sociedades europeias. Nos últimos cinco anos, a dinâmica essencial na UE foi estabelecida pelo chamado “Pacto de Estabilidade”, que significa que cada estado tem que subtrair recursos, dinheiro, da sociedade, para que seja enviado ao sistema bancário europeu. Esta é a lógica geral da economia europeia nos últimos anos. Retira-se recursos das empresas, das escolas, do trabalho público, do sistema de saúde. Retira-se dinheiro da vida social, e isso significa que no fim do ano se paga menos impostos porque a atividade econômica fica reduzida à esta causa. Ao mesmo tempo, a sociedade está visivelmente empobrecida. Eu conheço muito bem a situação da escola pública italiana, que foi desfinanciada e reduzida, e o efeito é catastrófico. Para sair da crise temos que cancelar esta norma louca que se chama “Pacto de Estabilidade”. Temos que subverter a direção para onde vão os recursos. Não da sociedade para o sistema financeiro, mas ao contrário, temos que redistribuir dinheiro na sociedade, devemos lançar um projeto de renda básica. Somente a renda básica, hoje, pode restabelecer uma condição de visibilidade para a sociedade europeia. Eu espero que Merkel, Renzi e Hollande entendam que o empobrecimento da sociedade europeia, provocado pelas medidas de austeridade, seja a causa direta do desmoronamento da UE e do crescimento da direita fascista e nacionalista.

Chama a atenção como muitos europeus assimilaram nas suas vidas a ideia de austeridade como uma regra justa. No caso da renda básica, que o senhor menciona, por exemplo, os suíços decidiram, em um recente referendo, não aceitar esta opção por ampla maioria. Como funciona este mecanismo que leva milhões de europeus a defender mecanismos de austeridade?

A opinião europeia mudou muito nesses últimos anos. Faz cinco anos que a maioria dos italianos, dos gregos, dos polacos e britânicos era favorável a União Européia. Talvez os britânicos, um pouco menos, os italianos, um pouco mais, mas havia uma adesão geral, inclusive entusiasta ao programa europeu. Hoje, a realidade mudou totalmente. A maioria dos europeus considera a UE como a causa direta do empobrecimento da vida cotidiana. É bem verdade que a maioria dos europeus não entendeu que somente através da renda básica, de uma redistribuição igualitária, se pode sair deste desastre. Este é o efeito da austeridade. Faz cinco anos que a maioria era de democráticos europeístas. Hoje, uma cota crescente, e talvez majoritária da população, tem posições nacionalistas e anti-europeias. É uma situação muito perigosa, porque partimos de um enfrentamento entre o pensamento das classes dirigentes europeias e direita nacionalistas. Eu acho que há somente uma forma de sair de uma perspectiva tão espantosa, que lembra muitíssimo a dos anos 20 na Europa, que é a de que os líderes europeus peçam perdão, admitam que erraram, que não se pode empobrecer a sociedade para engrossar o sistema bancário. Temos que começar uma campanha de redistribuição da renda e de redistribuição do tempo de trabalho. Este último é um problema gigante. A única maneira de fazer frente ao desemprego é a redução do tempo de trabalho e permitir que mais jovens possam trabalhar.

No entanto, a história recente nos indica que os grandes da Europa não pedem desculpas por iniciativa própria. Geralmente, eles devem ser obrigados a fazer isso. Muitos de nós colocamos expectativas em alguns setores da política de esquerda europeia para que freassem as políticas que a UE leva adiante. Podemos ter alguma esperança para o futuro com a esquerda na Europa?

O problema é que os grandes da Europa não são grandes. São muito pequenos. Esta é a verdade. Hollande é um indivíduo pequeníssimo, que se apresentou às eleições presidenciais dizendo que seu programa seria de enfrentamento à violência financeira e de austeridade.

Mas em seu governo somente vimos a aplicação de uma lei brutal contra os direitos do trabalho e a atitude cada vez mais agressiva e autoritária de seu primeiro ministro Manuel Valls. Vimos que a esquerda na Europa não tem o coração, a lucidez, a cultura para enfrentar o problema de maneira radical, que é a única maneira na qual se poderia enfrentá-lo. Pensemos no que aconteceu na Grécia há um ano. Em 5 de julho, a maioria dos gregos disse não à espoliação, à violência, à humilhação que a Troika queria impor. E o que fez Hollande? O que fez Renzi? Nada. Aceitaram a inevitabilidade da vontade da Troika. Aceitaram a vontade das organizações financeiras criminosas que impuseram à Alexis Tsipras que fosse à Bruxelas trair, sem culpa, eu sei, mas abandonar totalmente a vontade democrática do povo grego. O problema está aqui, na humilhação do povo grego. A humilhação do Syriza foi, em certo sentido, uma lápide, uma declaração de morte da União Européia, e a esquerda se comportou de maneira totalmente subalterna. Têm os pequenos grandes da Europa a inteligência de compreender que, se queremos salvar algo da ideia do projeto originário da União Europeia, pensado por antifascistas e anticapitalistas, devemos restituir poder social e político aos trabalhadores? Não sei. Espero que sim.

A Europa também, na última década, nos acostumou a outra esquerda, a que não está nos governos e parlamentos, a que se chamou de esquerda social, que vai desde aquela que o senhor representou nos anos 70, passando pelo movimento antiglobalização, até chegar aos indignados. Uma esquerda jovem, europeia, desobediente e muito ativa, que, no entanto, hoje parece muito calada.

Existem dois níveis políticos para analisar. O primeiro é o nível eleitoral. Em alguns casos o movimento social se transformou em uma força eleitoral, e até ganhou, como aconteceu na Grécia. Na Espanha aconteceu algo parecido, e até o momento conseguiu paralisar a política espanhola, e não sabemos como vai terminar. Mas eu não acredito muito na eficácia da via eleitoral. Nós vimos que na Grécia a democracia não funciona, não existe democracia. Na época financeira, a democracia ou está na vida cotidiana ou não serve, se estiver fechada na vida parlamentar. É verdade que o movimento social europeu está calado, porque a experiência do movimento global culminou na matança de Gênova, nos colocando de frente ao problema da relação com a violência do Estado, e que hoje se apresenta diretamente como fascismo e militarização da realidade euro-mediterrânea.

Depois vivemos a grande experiência de 2011 na Espanha com os indignados, nos Estados Unidos com os movimentos Occupy, no norte da África com as Primaveras Árabes. Mas entendemos que esta forma de oposição ética, moral e política não pode mudar a direção das coisas. Eu acredito que temos que inventar algo totalmente novo, que não parte do nível da política, que não se ocupa do que se passa ao nível dos governos. Os governos, como os parlamentos, não têm nenhum poder. O poder está integralmente nas mãos dos automatismos financeiros. Temos que criar um movimento que seja capaz de ser autônomo diante disso tudo. Que se manifeste através da ocupação das áreas da cidade, de lugares urbanos, que mudem a vida cotidiana, sua economia, sua ecologia. Nápoles, Barcelona e Madrid estão vivendo uma experiência que é muito interessante neste nível, porque são comunidades urbanas que criam as condições políticas e, sobretudo, sociais, para resistir por longo prazo. Porque os próximos dez anos serão anos de guerra civil no euro-mediterrâneo. Serão anos de violência financeira e violência fascista. Temos que nos preparar para um longo período de autonomia urbana, de sobrevivência e de reinvenção de uma sociedade que o capitalismo financeiro destruiu.

Como o senhor viu esta década latino-americana, marcada por governos progressistas e de esquerda? Há algum ponto de encontro com a experiência europeia?

Não me parece que neste momento a experiência de deslocamento e de conquista do poder institucional esteja indo muito bem. Nem na Argentina, nem no Brasil, nem na Venezuela. A tentativa de Lula no Brasil e de Kirchner na Argentina foram muito importantes para estabelecer um nível estatal de força da autonomia social. Não digo que se tenha esgotado, mas não me parece que hoje o caminho seja muito luminoso nesta direção. Na América Latina também temos que voltar a uma concepção centrada sobre o problema da autonomia social. Na Argentina, isto significa a experiência dos piqueteiros, do Coletivo Situaciones, de muitas realidades sociais que a partir de 2001 souberam transformar a vida, não somente as instituições. O problema é transformar a vida, a cara da cidade, as relações afetivas e sociais, este é o problema, não o governo.

Parte do que o senhor disse, eu posso encontrar desenhado na experiência das comunas venezuelanas, talvez uma experiência mais próxima para uma redefinição política da vida cotidiana, mas a partir da iniciativa de um movimento que conduz o Estado… 

Pode ser. O problema é que a experiência de governo de um Estado Nacional pode ser muito útil para o crescimento das experiências sociais de autonomia, auto-organização. Mas no longo prazo não pode permanecer nos limites da dimensão nacional. Venezuela está sendo estrangulada pelo capitalismo estadunidense e pelo capitalismo financeiro global. Temos que ser realistas. Eu quero ser. O poder político é somente uma ferramenta que pode funcionar em um período e pode não funcionar em outro. O poder social é o problema verdadeiro. Quer dizer, qual é a relação entre trabalhadores e capital, entre inquilino e dono? A transformação da vida social sob este ponto de vista, eu acho que é muito mais importante. Há uma semelhança grande entre Europa e América Latina neste nível. Se apontamos nossas estratégias somente para a conquista do poder político, perdemos. Se somos capazes de criar situações de auto-organização no nível da vida cotidiana, teremos a capacidade de resistir por longo prazo, de sobreviver no período sombrio para o qual o neoliberalismo levou o planeta.

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