Indígenas brasileiros descobrem que os valores da cultura bíblica sempre estiveram presentes em suas tradições

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Por: Jonas | 05 Julho 2016

Um momento histórico, qualificava o bispo diocesano de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Damian (foto), o encontro de catequese inculturada indígena, que aconteceu nesta semana, com a presença de 60 catequistas do conhecido como “Triângulo Tukano”, e que ocupa uma ampla região das bacias dos rios Uaupés e Tiquié, extremo noroeste brasileiro.

 
Fonte: http://goo.gl/aOM6Bl  

A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 02-07-2016. A tradução é do Cepat.

De fato, podemos dizer que esta iniciativa é um elemento decisivo para realizar o trabalho evangelizador em uma região onde mais de 90% da população é indígena.

Falar de catequese inculturada é uma novidade, inclusive para os catequistas locais, com destacava Pedro Meirelles, catequista do povo tukano, e que desenvolve sua missão catequética na comunidade de Ananás, desde 1967, pois era uma coisa que não existia. Começou seu trabalho de catequista como ajudante de seu avô e, naquela época, sua função se limitava a ensinar e organizar as diferentes orações, sobretudo, a observar quem frequentava a capela, assumindo o papel de “promotor eclesial”, em uma época em que, segundo nos conta, os missionários chegavam a puxar as orelhas de quem não rezava ou iam buscar em suas casas aqueles que não haviam chegado à Igreja para a missa dominical.

Reconhece que não foi fácil falar de catequese inculturada por parte da Igreja, pois as pessoas acusam os missionários de suprimir as tradições, culturas, línguas indígenas que agora querem ser retomadas a partir da própria Igreja católica. Na opinião do veterano catequista, pouco a pouco, o mundo indígena está aceitando as mudanças, ajudando o fato de que vão surgindo sacerdotes e religiosos indígenas e vão compreendendo o valor deste novo modo de evangelizar.

Se não é fácil para quem está há quase cinquenta anos como catequista, também não é para quem está começando, como acontece com Jusara Pedrosa Brito, jovem catequista tariana, que também reconhece a novidade deste tipo de catequese, que irá permitir reviver as tradições e pensamentos dos antepassados que foram se perdendo, fazendo com que os catequistas despertem e possam transmiti-los aos catequizandos.

Poderíamos dizer que ainda é mais interessante conhecer a opinião de quem, sendo indígena, consagrou sua vida ao trabalho evangelizador. María Bernardete Barbosa, religiosa salesiana indígena, do povo tariano, destaca que, nos primeiros momentos da Evangelização, “a Igreja não reconheceu o mistério que continham os povos indígenas e o reconhecimento que a Igreja está efetivando é uma renovação e um reviver nossa cultura, buscando essa memória que foi perdida durante muito tempo”.

Em sua opinião, “isto provocou a perda dos valores, do mistério, do Espírito que os povos indígenas tinham”. Por isso, “a catequese inculturada irá fazer com que o povo indígena tenha os pés no chão e compreender que os valores desse Deus que conheceram através da Igreja já estavam presentes em sua cultura e que as raízes que um dia foram deixadas de lado estão sendo recuperadas, deixando um legado para as novas gerações”.

A religiosa salesiana destaca que “é uma catequese que leva a reconhecer as tradições indígenas e desafia a aprofundá-las”. Destaca o papel dos anciãos, considerados como sábios pelos povos indígenas, que orientam a vida como verdadeiros filósofos.

Para tentar combinar a cultura bíblica com as culturas indígenas e poder avançar no trabalho de catequese inculturada, o encontro contou com a assessoria de Francisco Orofino, um dos mais destacados biblistas brasileiros, quando falamos de leitura popular da Bíblia, que diz lê-la a partir de seu contexto social, em uma leitura sociológica que o leva a dizer que para interpretar o texto bíblico devemos descobrir o contexto que lhe deu origem, fazendo uma leitura contextualizada. Por isso, falava mais de cultura bíblica do que de doutrina, pois isso pode ajudar a dialogar melhor com as culturas dos povos indígenas.

Orofino destaca que, como já descobriu em uma experiência em Moçambique, vê nos povos do Alto Rio Negro a luta pelos valores de solidariedade tribal, o que faz com que seja muito fácil reconstruir textos bíblicos a partir da lógica indígena, sobretudo os textos patriarcais que mostram a vida das famílias em um ambiente tribal, a partir da relação entre pais e filhos, a relação conjugal, o papel das mulheres, dentro de um contexto de solidariedade, tendo como meta maior a construção da casa, pois a grande utopia bíblica, inclusive na cabeça de Jesus, é uma casa perfeita.

Foi a partir do conceito bíblico de casa, que nos povos pode ser identificado com a aldeia, a partir de onde tentou estabelecer pontes entre a realidade bíblica e a indígena, sabendo que um esquema catequético consiste em conhecer a casa, descobrir o que a prejudica e como reconstruir essa casa.

O assessor do encontro reconhece que não tinha consciência da importância da catequese inculturada até receber o convite de Dom Edson Damian para orientar este curso. Como uma coisa que permaneceu na memória, recorda que, há uns quinze anos, em Manaus, encontrou pessoas do Alto Rio Negro, que haviam entrado em uma dinâmica marcada pelo consumo, o que se acentuou com a chamada Feira Indígena, ao ver que ali eram vendidos os instrumentos sagrados das religiões do Alto Rio Negro, que equivaleria a se um dia nós, católicos, aderíssemos a outra cultura e puséssemos à venda o material litúrgico. Desde aquele momento, desejou fazer um trabalho bíblico na região.

Reconhece a importância da catequese inculturada como um duplo processo de conversão. Em primeiro lugar, da Igreja para a cultura indígena, pois uma evangelização inculturada é um reconhecimento dos erros cometidos pela Igreja, o que converte a catequese inculturada em uma nova evangelização. Em segundo lugar, dos próprios indígenas, através de uma proposta que é conflitiva para eles próprios, pois para os indígenas a cultura branca é um processo de ascensão social na sociedade brasileira, o que leva a negar as origens indígenas.

Há aqueles grupos que assumem a catequese inculturada para trabalhar sua identidade e para ter orgulho de dizer que são tukanos, desanos, tukukas, não apenas índios, mas com a própria identidade.

A partir da própria Igreja católica e dos povos indígenas, enxerga-se este momento como uma oportunidade de retornar a um caminho comum, após um longo período de exílio, no qual dos povos indígenas foi arrancado aquilo que fazia parte de sua identidade mais profunda.

Por fim, a catequese inculturada é uma tentativa de preservar o Espírito, de reconhecer que em todas as culturas existem elementos válidos que a sustentam e serpentes que a destroem. O desafio é encontrar o que há de bom na cultura indígena e bíblica para assim poder assumir a espiritualidade do Bem Viver e ser felizes.

O Papa pede oração pelo respeito às culturas indígenas

O Papa Francisco pede que se reze, ao longo deste mês de julho, “para que sejam respeitados os povos indígenas ameaçados em sua identidade e até em sua própria existência”, segundo se pode perceber nas intenções do Apostolado da Oração.

Em declarações a Rádio Vaticano, reunidas por Europa Press, o diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, o padre jesuíta Frederic Fornos SJ, recordou que “no vídeo do Papa, deste mês, Francisco também pede, de todo o seu coração, que sejam respeitados os povos indígenas, ameaçados em sua identidade e em sua própria existência”.

“Ainda que este desafio pareça distante de nossas preocupações cotidianas, abramos nossas janelas para estes horizontes, para descobrir a riqueza cultural destes povos e seu cuidado com a Criação, nossa casa comum”, especifica.

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