Mais 4 notas de rodapé à exortação apostólica de Francisco

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12 Abril 2016

Com certeza, há uma grande quantidade de texto no novo documento do Papa Francisco sobre a família, intitulado Amoris Laetitia, publicado pelo Vaticano na última sexta-feira. A exortação conta com 60 mil palavras distribuídas em 264 páginas, ou seja: é um documento gigante mesmo.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No entanto, do ponto de vista noticioso, as partes mais fascinantes – e certamente as mais polêmicas – talvez não estejam no texto principal, mas em suas notas de rodapé.

As notas número 336 e 351 em Amoris Laetitia podem entrar para a história como estando entre as notas mais famosas da história papal, dado que é aí onde uma linguagem importantíssima ocorre a respeito de como o discernimento nos casos dos fiéis divorciados e recasados poderia levar a uma mudança que os permitisse receber os sacramentos.

Se o diabo está sempre nos detalhes, no caso de Amoris Laetitia, poder-se-ia dizer, os fogos de artifício estão nas rodas de rodapé.

Nesse espírito, apresento aqui quatro notas adicionais ao documento papal. São pontos que, mais ou menos, se perderam na primeira rodada de comentários sobre o conteúdo da exortação, mas que não obstante parecem relevadores – seja pela inclusão deles no documento, seja pela sua omissão.

Escândalos de abuso

Dado a maneira como os escândalos de pedofilia clerical em várias partes do mundo têm prejudicado a imagem da Igreja e sua autoridade moral, exatamente em termos de seu cuidado às crianças e famílias, é de surpreender que exista somente uma única referência clara a tais escândalos em Amoris Laetitia.

“O abuso sexual das crianças torna-se ainda mais escandaloso, quando se verifica em ambientes onde deveriam ser protegidas, particularmente nas famílias e nas comunidades e instituições cristãs”, escreve o papa no parágrafo 45.

A exploração sexual de crianças aparece cinco vezes no documento, porém no contexto de pais abusadores ou de males sociais mais amplos, não tendo a ver especificamente com a Igreja.

Os críticos já céticos quanto ao empenho do Papa Francisco na luta contra abusos sexuais clericais podem considerar preocupante essa omissão.

Outros, no entanto, podem concluir que o pontífice está sugerindo que o abuso dificilmente ocorre na Igreja, e que um foco indevido sobre nas suas falhas aqui pode acabar atrapalhando a abordagem de desafios sociais mais amplos.

Diáconos

No Capítulo VI, o papa dirige-se a alguns passos pastorais concretos que podem ser dados em apoio às famílias. Entre outras coisas, destaca a necessidade de uma melhor formação do clero.
Francisco sugere que o cristianismo ocidental pode ter algo a aprender com o cristianismo oriental neste tocante: “pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados”, escreve.

O interessante é que a Igreja Católica já possui o seu corpo de clérigos casados.

Além dos sacerdotes das 22 igrejas orientais em comunhão com Roma, bem como os ex-ministros anglicanos e luteranos casados, existem também aproximadamente 45 mil diáconos permanentes na Igreja Católica ao redor do mundo, a maioria dos quais estão casados e possuem famílias.

Curiosamente, Francisco menciona os diáconos no começo do mesmo parágrafo, mas sem apontar que a experiência matrimonial e a vida em família deles poderia ser uma fonte valiosa para um esforço formativo diferenciado.

Claro, muitos diáconos há tempos sentem-se como o “clero esquecido” da Igreja, portanto isso provavelmente não lhes afetará como uma novidade. O certo é que parece haver um verdadeiro potencial destas pessoas em assumir papéis mais visíveis como “ministros para a família”.

Martin Luther King e Bonhoeffer

Dado que o documento contém 264 páginas e 391 notas, é inevitável que muita gente seja citada em Amoris Laetitia.

Durante a coletiva de imprensa no Vaticano nesta sexta-feira (08-04-2016), por exemplo, o Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, mostrou um saudável orgulho dominicano sobre o quão dependente é o Papa Francisco de São Tomás de Aquino no desenvolvimento do seu texto. O papa jesuíta cita o famoso teólogo dominicano 14 vezes.

Para os americanos, é válido notar que a única voz vinda dos EUA a aparecer em Amoris Laetitia é a de Martin Luther King Jr.

A citação de Francisco tirada de um sermão, de 1957, do pastor protestante ocupa uma página inteira, culminando com a reflexão segundo a qual “Alguém deve ter bastante fé e moralidade para a quebrar e injetar dentro da própria estrutura do universo o elemento forte e poderoso do amor”.

Visto também que Francisco inclui Martin Luther King entre os quatro maiores americanos de todos dos tempos num discurso ao Congresso em setembro passado (os outros sendo Abraham Lincoln, Dorothy Day e Thomas Merton), parece claro que ele considera este líder um alguém que encarna o melhor da cultura americana.

É também de surpreender que o pontífice cita o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Assim, temos um papa elevando dois famosos protestantes em um documento da Igreja.

Francisco x Hallmark

De acordo com a empresa Hallmark, aproximadamente 131 milhões de cartões são enviados anualmente no Dia dos Namorado só nos EUA. Isso significa que essa data é a segunda maior em vendas. Também, segundo a National Retail Federation, no Dia dos Namorados de 2015 as pessoas gastaram em média algo próximo de U$ 142,00.

A empresa Hallmark pode querer pensar em pôr no mercado um cartão de felicitações como o papa em destaque, pois parece que ele vem com tudo nessa concorrência.

No parágrafo 208 de Amoris Laetitia, o pontífice discute as várias forças sociais e culturais que podem ajudar os casais e termina mencionando algumas práticas religiosas tradicionais.

“Só para dar um exemplo simples, lembro o Dia de São Valentim [dos Namorados]” – disse ele – “que, em alguns países, é melhor aproveitado pelos comerciantes do que pela criatividade dos pastores”.

Isso soa como se Francisco desejasse ver a Igreja tomar o controle de volta desta comemoração. Se for esse ocaso, o tumulto que vimos nos dois Sínodos dos Bispos que levaram à exortação apostólica recém-publicada pode parecer nada em comparação com os confrontos por vir.

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