A Bíblia posta de lado e a crise do cristianismo. Artigo de Giuseppe Laras

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15 Janeiro 2015

A erosão do conhecimento da Bíblia, não como "tributo antiquário", mas como "força criadora e regenerativa", é um dos fatos mais inquietantes e dramáticos para o nosso futuro, seja religioso, seja cultural nas suas várias formas, seja em termos econômicos e políticos.

A opinião é do rabino italiano Giuseppe Laras, presidente emérito e honorário da Assembleia Rabínica Italiana e ex-rabino-chefe da Comunidade Hebraica de Milão. O artigo foi publicado no sítio do jornal Corriere della Sera, 13-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "a situação cultural e política ocidental, na qual não se consegue compreender o que acontece e chamá-lo pelo nome, está embebida de ignorância, superficialidade, ineptidão e falta de interesse. A nossa contemporaneidade, tristemente, lembra o período sinistro entre as duas guerras mundiais: uma espécie de colapso sistêmico. A crise que vivemos – e em que, por um longo tempo, continuaremos a viver – não é econômica e demográfica apenas: é uma crise cultural e de valores, ligada à crise do cristianismo e, em certo sentido, de conhecimento da Bíblia, a pedra angular de toda a nossa cultura do ponto de vista urbanístico, artístico, musical, literário, filosófico, jurídico, político e religioso. E, justamente por isso, a Bíblia não está presente nas escolas. E chamamos isso de laicidade!"

Eis o texto.

Estamos em guerra e tomamos consciência de que estamos apenas no início. É a primeira vez desde os dias de Adolf Hitler que as sinagogas na França foram fechadas no sábado. No entanto, é unicamente o trágico e assustador atentado contra o jornal Charlie Hebdo que abalou os europeus: os muitos e contínuos atentados aos indivíduos judeus e às comunidades judaicas em toda a Europa nesses anos perturbaram alguns, mas, para quase todos, tratava-se "apenas" de judeus.

Do mesmo modo, não houve consternação e alerta pelo fato de que, há anos já, com razão, os judeus franceses abandonaram a "laica" França. Isso também acontece em muitos outros países europeus, e o motivo é o mesmo, ou seja, a propagação do terrorismo de matriz islâmica, com a sua carga de ódio antissemita.

Muitos intelectuais e políticos defendem que o problema não é o Islã, mas o terrorismo. É como se dizer que o cristianismo não é o antissemitismo ou o antijudaísmo. Claro! No entanto, é inegável que o antissemitismo e o antijudaísmo foram problemas profundos próprios do cristianismo (e não só). A violência e o fanatismo, a submissão religiosa e o terror não esgotam o Islã, mas são um problema religioso que, de algum modo, diz respeito ao Islã. A autocrítica do Islã (junto com a crítica laica externa) sobre esse ponto parece faltar.

As religiões (mesmo que eu esteja convencido – e, comigo, Rosenzweig, Buber, Heschel, Bonhoeffer, Barth, Ratzinger e Martini – de que judaísmo e cristianismo sejam, acima de tudo, fés e não apenas religiões) podem ser causa de guerras, de violências, e podem, nos seus ensinamentos, abrigar forças destrutivas.

Não é verdade que só a economia causa guerras e barbáries: as religiões, assim como o ateísmo e um certo iluminismo, são especialistas na matéria. No caso do cristianismo, frequentemente trataram-se de problemas interpretativos; com o Islã, o problema mora parcialmente no próprio texto sagrado (e, a esse respeito, convidaria a estudar os livros de Bernard Lewis, Norman Stillman, Georges Bensoussan, Bat Ye'or).

Cristãos e judeus, segundo o Alcorão, estão presentes nos países islâmicos como dhimmis, populações submissas, toleradas, contanto que subalternas e pagantes dos impostos apropriados.

O que devemos perguntar, tanto em nível político e jurídico, quanto em nível inter-religioso, hoje, para os mais autorizados teólogos islâmicos nos países europeus e árabes, também diante da massiva presença demográfica de muçulmanos?

A primeira pergunta é a seguinte: é possível para o Islã, em obséquio ao Alcorão e por necessidade religiosa íntima própria dos muçulmanos observantes, e não só por ser exigido pelos governos ocidentais ou por judeus e cristãos, aceitar teologicamente, apreciando-o, o conceito de cidadania política, em vez do de cidadania religiosa, conflitante, este último, com os valores ocidentais e perigoso para as comunidades cristãs e judaicas, que, na qualidade de minorias, seriam expostas a intolerâncias e arbitrariedades?

Se sim, como difundir essa interpretação e como enraizá-la hoje no seio das comunidades islâmicas? A essa pergunta, necessariamente, deve se seguir a "reciprocidade" nos países islâmicos da plena liberdade de expressão, de imprensa e de culto.

Essa pergunta fundamental, por ignorância, preguiça e ineptidão, nunca foi seriamente feita pelos políticos europeus, que têm responsabilidades enormes, também pelo sangue derramado até agora.

Há uma segunda questão, que se entrelaça com a primeira e que aqueles que estão realmente interessados no diálogo não podem evitar. Para o Islã, os judeus alteraram a Revelação divina, e os cristãos têm práticas cultuais, além de compartilhar com os primeiros uma Revelação alterada, de sabor idólatra. É possível para o Islã, em obséquio ao Alcorão e por necessidade religiosa interior dos muçulmanos observantes, e não apenas por ser solicitado por judeus e cristãos, apreciar positivamente, em uma perspectiva teológica, judeus e cristãos em relação às problemáticas levantadas por esse assunto corânico?

Essa segunda pergunta fundamental, por uma errônea compreensão do diálogo e do respeito, além de um desenfreado bonismo que se contenta com pouco, nunca é feita, nem mesmo pelas mesmas autoridades religiosas cristãs e judaicas.

Tendo em conta que existem centenas de milhares de muçulmanos individuais, pessoas dignas e boas, realmente religiosas, que já responderam a essas perguntas pessoalmente, com o respeito pelo próximo e pela sua fé, com um certo pluralismo e com a integração buscada e praticada, falta, no entanto, uma real, inequívoca, honesta, autorizada e vinculante reflexão teológica islâmica a esse respeito.

É claro que, se as respostas forem majoritariamente negativas, não suficientemente autênticas ou caracterizadas por silêncios e constrangimentos, vamos nos encontrar todos diante de um imenso problema. E, como tal, deverá ser assumido.

Há uma tentação que pode tomar forma, em diversos níveis, seja no cristianismo, seja na política europeia: a de deixar sozinhos os judeus e o Estado de Israel para facilitar uma paz política, cultural e religiosa com o Islã político. Um acordo, por assim dizer, entre maiorias, especialmente na ótica das futuras projeções demográficas religiosas europeias e mediterrâneas.

É uma estratégia falimentar, que os cristãos árabes tentaram com o pan-arabismo e com o antissionismo. Os resultados são bem conhecidos: depois quase todos os países islâmicos se livraram dos "seus" judeus, eles se concentraram com violências e massacres nas bem alimentadas minorias cristãs.

É uma história que se repete e que vai do genocídio armênio (há 100 anos), aos cristãos coptas do Egito, aos cristãos etíopes e nigerianos, até Mosul. Em muitos países europeus, uma "classe" inteira de intelectuais e muitos cristãos do Ocidente têm as mãos gotejantes do sangue dos cristãos do Oriente, já que eles se dispuseram a sacrificá-los nos altares do pacifismo, da oportunidade política, de um mal-entendido conceito de tolerância, da cultura bem-pensante e radical-chic, da "boa" consciência. Diante de silêncios muitas vezes de muitas décadas, não há políticos inocentes ou autoridades religiosas cristãs que, sobre isso, possam dormir serenamente.

A tentação de abandonar os judeus e Israel já existe nos recorrentes episódios de boicote europeu, seja em nível econômico, seja em nível cultural e universitário do Estado de Israel. Existe no silêncio constrangedor ou irritado sobre os mortos judeus na Europa de hoje. Com todo o respeito ao Dia da Memória.

O Dia da Memória, infelizmente, foi domesticado com liturgias públicas e anestesiada pelas cerimônias no Parlamento e no Quirinal. Os mais altos cargos do Estado [italiano] deveriam ir celebrá-lo anualmente em Fossoli, em Bolzano, em San Sabba ou no gueto de Roma, vítima do rastreamento nazifascista, para dar a entender que é uma realidade possível, e como tal repetível, e que ocorreu na Itália, com o aplauso, a colaboração, o consentimento e os silêncios de muitíssimos – demais – italianos.

Organizado como é atualmente, parece dizer respeito a algo distante no tempo, que só ocorreu na Alemanha ou na Polônia. Assim, ele torna-se tão ridículo, incompreendido e sem potencialidades dinâmicas para compreender o presente e incidir nele positivamente.

E a preguiça e a negação europeia sobre as questões presentes e sobre a incapacidade de enfrentar política e culturalmente as armadilhas ligadas aos desvios do Islã político, entregando, assim, a racistas e xenófobos as resoluções do problema, jogam sombras longas que evocam os fantasmas do nazismo e, para os judeus, da perseguição. A incapacidade de compreender o Estado de Israel, definitivamente, se resolve no fato de que, a uma certa política e a uma certa cultura europeia míope, os judeus agradam apenas como mortos a se chorar e a se lembrar, e não como sujeitos vivos para se dialogar e debater, ou seja, hoje, em primeiro lugar, Israel.

Chorar os mortos faz com que se sintam nobres e democráticos; dialogar com os judeus é sinal de liberalidade e cosmopolitismo; para o Estado de Israel, se vai bem, a diretriz é "... sim, mas...!", embora seja precisamente esse o lugar de refúgio para quem foge de uma Europa, evidentemente, não mais segura.

A situação cultural e política ocidental, na qual não se consegue compreender o que acontece e chamá-lo pelo nome, está embebida de ignorância, superficialidade, ineptidão e falta de interesse. A nossa contemporaneidade, tristemente, lembra o período sinistro entre as duas guerras mundiais: uma espécie de colapso sistêmico. A crise que vivemos – e em que, por um longo tempo, continuaremos a viver – não é econômica e demográfica apenas: é uma crise cultural e de valores, ligada à crise do cristianismo e, em certo sentido, de conhecimento da Bíblia, a pedra angular de toda a nossa cultura do ponto de vista urbanístico, artístico, musical, literário, filosófico, jurídico, político e religioso. E, justamente por isso, a Bíblia não está presente nas escolas. E chamamos isso de laicidade!

Foi necessário um ator cômico, indubitavelmente muito bom, para fazer com que se falasse novamente, de modo interessante, da Bíblia e do Decálogo: Benigni! Que debacle que tenha sido preciso ele, depois de dois mil anos de cristianismo e 2,2 mil anos do judaísmo na Itália! Evidentemente, alguma coisa está errada; no entanto, parece que bispos, pastores e rabinos ainda dormem sonos tranquilos.

A erosão do conhecimento da Bíblia, não como "tributo antiquário", mas como "força criadora e regenerativa", é um dos fatos mais inquietantes e dramáticos para o nosso futuro, seja religioso, seja cultural nas suas várias formas, seja em termos econômicos e políticos.

Erroneamente, acredita-se que os direitos humanos universais, aqueles que, com tanto esforço, sofrimento e milhões de mortes, em parte, conseguimos conquistar, derivam exclusivamente do direito grego e romano, dessas culturas e das suas sucessivas evoluções.

Os direitos, da forma como nós os entendemos, devem ser válidos sempre e para todos, e é justamente isso que os torna, em certa medida, universais. Pois bem, na Grécia, era "igual" e, portanto, investido de direitos apenas quem era do sexo masculino, livre, grego, adulto e não precisava trabalhar para viver, algo indecoroso, caso contrário.

Foi a Bíblia hebraica, a Torá, que revolucionou tudo isso. Foi a Bíblia hebraica que introduziu na civilização humana a liberdade como DNA constitutivo do homem e da criação, especular à liberdade do Criador (liberdade, e não a submissão!). Foi a Bíblia hebraica que defendeu que o trabalho humano torna o ser humano semelhante a Deus no criar. Foi a Bíblia hebraica que colocou, com a extraordinária revolução introduzida pelo Shabbat, um limite ao trabalho, caso contrário, deletério, tornando o homem semelhante a Deus, inclusive no repousar. Foi com o Shabbat que foram inventados os "direitos humanos universais", incluindo homens, mulheres, estrangeiros, escravos e até mesmo animais. Foi com o Shabbat e com os preceitos bíblicos de ajuda aos pobres e de construtiva solidariedade com os excluídos da sociedade que encontrou fundamento a nossa ideia de "welfare", e não de outras culturas. Foi a Bíblia, tanto hebraica quanto cristã, que supôs, de algum modo, uma possível divisão entre política e religião.

Muitos intelectuais, incluindo muitos pensadores crentes judeus e cristãos, acreditaram, erroneamente, que esses valores e que essas conquistas – hoje extremamente frágeis e sob ataque – eram autoevidentes e não decorrentes de uma história bem específica.

Carlo Maria Martini tinha razão ao dizer que a Bíblia é o livro do futuro da Europa e do Ocidente, mas ele não foi ouvido. Bento XVI tinha razão na famosa conferência de Regensburg, mas foi vítima do descrédito midiático e cultural. E a Bíblia foi escrita por judeus, para judeus, em hebraico, e o judaísmo ainda hoje sobrevive justamente graças à Bíblia. E, igualmente, acredito, o cristianismo.

O fato de levar a Bíblia como fundamento da cultura e da ética é um compromisso religioso possível pela extraordinária fecundidade compartilhável entre judeus e cristãos: um empenho do qual se percebe a urgência imperiosa e dramática nestes anos de crise, de confusão ensurdecedora, de feroz violência e de grande mediocridade. Tal contribuição religiosa, cultural e moral, comum a judeus e cristãos, é hoje quase inédita e extremamente necessária.

No entanto, hoje, como disse, com razão, o filósofo judeu E. Fackenheim, sem a real referência positiva e não ambígua a Israel, não será nem autêntico nem produtivo o diálogo entre judeus e cristãos.

Por fim, dados os tempos calamitosos em que nos encontramos e nos encontraremos ainda mais amanhã, convido todas as pessoas conscientes e responsáveis, tanto judeus quanto cristãs e muçulmanas, assim como de outras religiões, a se reunir em oração invocando do alto o impulso em cada um de nós para agir pelo respeito do próximo e da paz, conceito e realidade, esta última, demasiadas vezes ideologicamente abusada, extremamente difícil, mas que, justamente por isso, deve ser buscada com perseverança, lucidez e obstinada determinação.

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