Se Deus “chora” por causa do abuso sexual na igreja, o que faz um papa?

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02 Outubro 2015

"O grande teste para a agenda reformista de Francisco sobre a crise dos abusos sexuais é se o tribunal concorda em aceitar testemunhos sob juramento em ações civis e penais como prova de boa-fé em procedimentos do direito canônico", escreve Jason Berry, correspondente de GroundTruthem artigo publicado por The Huffington Post, 28-09-2015. A tradução é de Luís Marcos Sander.

Eis o artigo.

Na quinta-feira, diante do Congresso, o Papa Francisco exaltou Dorothy Day, fundadora do Movimento de Trabalhadores Católicos, “por sua militância social, sua paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos”, comparando sua fé “ao exemplo dos santos”.

Inspirada por Dorothy Day, em meados da década de 1980 Barbara Blaine se mudou para uma Casa dos Trabalhadores Católicos no South Side de Chicago, onde mulheres que fugiam do abuso doméstico encontravam um refúgio seguro com seus filhos e filhas. Os pavimentos cavernosos, há muito deixados pelas religiosas, hospedavam outras jovens radicais que viviam o testemunho de Dorothy Day, trabalhando com pessoas cujas vidas tinham sido rompidas, que estavam em situação precária, vítimas do que o Papa Francisco chama de “cultura do descarte”.

Depois que o homem a quem ela amava morreu em um acidente de trânsito, Barbara Blaine começou a lidar com as consequências traumáticas do fato de ter sido sexualmente abusada na escola secundária que frequentara em Toledo [no estado de Ohio] pelo Padre Chet Warren. Anos mais tarde, ela foi atrás dele, obteve um acordo judicial e, finalmente, conseguiu que ele fosse destituído do sacerdócio.

O caminho para esses encontros foi aberto quando Barbara Blaine fundou a Rede de Sobreviventes de Abusos Cometidos por Sacerdotes (Survivors Network of those Abused by Priests – SNAP, na sigla em inglês) enquanto vivia na Casa dos Trabalhadores Católicos em 1988. A SNAP tem travado uma longa batalha ajudando as vítimas a buscar reparação judicial contra bispos que acobertaram predadores sexuais – e pressionando para obter mudanças estruturais para afastar bispos negligentes.

O Papa Francisco se encontrou com diversas vítimas em Roma e estabeleceu uma comissão especial do Vaticano – da qual fazem parte dois sobreviventes de abuso – para assessorá-lo. As comissões andam devagar, e o que vimos em Filadélfia foi o Vaticano mantendo o papa na linha oficial e as vítimas anônimas fora do ângulo de visão.

Por volta da metade do domingo, quando o papa cumpria sua agenda em Filadélfia, no último dia de sua viagem aos Estados Unidos, o Vaticano emitiu uma declaração em um roteiro cuidadosamente controlado dizendo que Francisco tinha se encontrado com três mulheres e dois homens que tinham sofrido abuso sexual quando crianças.

Por volta do final da tarde de domingo, Barbara Blaine não sabia quem eram as vítimas, e ninguém da mídia tampouco sabia. Os nomes delas não apareceram nos noticiários da segunda-feira.

O roteiro do Vaticano visava abafar a cobertura da mídia sobre a pergunta óbvia: o que aconteceu à pior crise da igreja moderna? Como esse papa tão extraordinário tem enfrentado essa questão central?

“Estou desapontada com o fato de o Papa Francisco não estar usando esta oportunidade para promover mudanças substanciais”, disse Barbara estoicamente de Chicago. Ela vinha dando entrevistas desde que a notícia saíra. “A SNAP tem gente no local, em Nova Iorque e Filadélfia, hoje” – tentando fazer seu recado chegar até a imprensa.

Enquanto ela falava, o papamóvel parou em Filadélfia, a caminho da última missa do Papa Francisco nos EUA. O papa parou em muitos de seus eventos para abraçar uma criança que lhe foi alcançada dentre a multidão.

Na rede MSNBC, Brian Williams disse jovialmente que, se o cardeal Timothy Dolan de Nova Iorque não fosse cardeal, poderia ser prefeito.

Entretanto, como arcebispo de Milwaukee Timothy Dolan escondeu US$ 56 milhões em um fundo para cemitérios naquela que se tornou a mais longa batalha em torno de uma falência na história da igreja, opondo 500 vítimas de abuso à arquidiocese anterior de Dolan.

A crise não resolvida de sacerdotes autores de abuso sexual não era um assunto conveniente para a narrativa da mídia nessa semana. Mas quando Francisco levantou rapidamente a questão ao cumprimentar bispos em Washington no início da semana, Barbara Blaine estremeceu.

“Chamar esses bispos de ‘corajosos’ foi um tapa na cara das vítimas”, disse ela. “Nós acreditamos que eles sejam a causa do problema.”

Se não fez outra coisa, a jornada desse papa aos Estados Unidos ao menos dramatizou a profunda sensibilidade de Francisco para com as pessoas que vivem em bairros periféricos habitados por hispânicos, prisões e projetos habitacionais para populações de baixa renda. Ele usou palavras vigorosas depois de se encontrar com o pequeno grupo de sobreviventes em Filadélfia, dizendo o seguinte a bispos, seminaristas e sacerdotes:

“Deus chora por causa do abuso sexual de crianças. Esses abusos não podem ser mantidos em segredo, e eu me comprometo com uma fiscalização cuidadosa para garantir que os jovens sejam protegidos e todos os envolvidos sejam responsabilizados. As pessoas que sobreviveram a esse abuso se tornaram verdadeiros arautos da misericórdia – humildemente, devemos a cada uma delas nossa gratidão por sua grande coragem ao terem sofrido esse terrível abuso sexual de menores”, disse Francisco.

Barbara Blaine não estava atribuindo grande importância ao cumprimento feito aos “arautos da misericórdia”.

“Queremos ver o que ele vai fazer com os bispos que foram cúmplices, como vai mudar a estrutura”, disse ela a GroundTruth.

Historicamente, os bispos têm operado com uma imunidade de facto para transgressões, como, p. ex., transferindo autores de abusos sexuais. A crise que abalou os fundamentos do catolicismo na Europa, na América do Norte e na Austrália se espalhou para países latino-americanos.

O comportamento patológico em uma cultura clerical não se detém nas fronteiras geográficas.

A forma como o Vaticano orquestrou o episódio das vítimas de abuso mostrou um outro lado em um momento transmitido pela rede de televisão CNN. Enquanto o âncora Jake Tapper estava sentado com os sacerdotes-comentaristas Edward Becker e James Martin, a câmera mostrava Francisco passando por uma fila de apenados na penitenciária em Filadélfia.

Tapper se admirou de como o papa, que tinha acabado de ver vítimas de abuso, estava agora se encontrando com detentos. Do que não se falou foi a luta de muitos e muitas sobreviventes de abusos que se sentem prisioneiros de seu passado, sentem a incapacidade da criança de proteger a pessoa adulta que se tornaram.

Francisco não teve um histórico destacado quanto a essa questão dolorosa quando foi Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos Aires. Ele não se encontrou com quaisquer vítimas nessa época nem mostrou qualquer liderança nessa questão – um aspecto que os grupos de sobreviventes na Argentina ficam enfatizando a qualquer repórter que esteja ao alcance de sua voz.

Mas o Papa Bergoglio, como o chamam alguns italianos, mostrou ser um papa com uma agenda vigorosa, voltada para reformas. Um assunto que frequentemente se perde na mídia americana é o esforço dele para mudar a dinâmica interna da Cúria romana.

Agindo com base nos conselhos de sua comissão para a proteção de crianças, Francisco autorizou um tribunal especial dentro da Congregação para a Doutrina da Fé para julgar bispos que sejam acusados de cumplicidade ou negligência crassa ao lidar com autores de abusos sexuais.

Esse é um âmbito novo do direito eclesiástico. E a SNAP não tem ninguém que esteja em condições de manter um diálogo ou qualquer forma de negociação com o Vaticano. O grupo tem, pelo contrário, criticado implacavelmente toda medida do papa em relação à crise como sendo irrelevante.

Mudar a maior instituição do mundo, com 2 mil anos de idade, exige que se compreenda seu funcionamento interno falando com as pessoas em seu interior.

As autoridades do Vaticano e os bispos que temem a própria ideia de conversar com alguém da SNAP fariam bem em olhar a mudança de relacionamento de Cuba com os EUA, que se tornou possível com a ajuda do Papa Francisco. O avanço diplomático levou décadas, mas aconteceu entre os mais implacáveis inimigos geopolíticos com um forte cutucão do Supremo Pontífice, um homem da América Latina que viu uma igreja crescente nesse país marxista e concluiu que qualquer coisa que ele pudesse fazer para fortalecer o diálogo e o progresso valeria a pena.

O tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé poderia ter um impacto vigoroso sobre o comportamento dos bispos – e sobre o poder deste papa e de papas futuros para afastá-los rapidamente – o que muito contribuiria para “proteger as crianças”, que é um mantra da SNAP.

O grande teste para a agenda reformista de Francisco sobre a crise dos abusos sexuais é se o tribunal concorda em aceitar testemunhos sob juramento em ações civis e penais como prova de boa-fé em procedimentos do direito canônico. Se esse precedente for estabelecido, os militantes contra os abusos em qualquer país que tenham documentos forenses a respeito de um determinado bispo para sustentar suas demandas terão um processo em jogo.

Esse papa tem tudo a ver com processo. Nesta semana, o drama de sua personalidade ofuscou enormemente sua abordagem para com as mudanças internas na Igreja de Roma. Mas as muitas declarações e sermões e gestos simbólicos que ele fez pelos caminhos secundários das três cidades da Costa Leste de fato deixam um grande legado.

Ele até está mais em evidência agora, dizendo que “Deus chora” por causa de sacerdotes autores de abuso sexual.

O que, então, faz o papa?

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