Em Roma a causa de beatificação dos três mártires argentinos próximos a Angelelli

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30 Junho 2015

Chegou a Roma a causa de beatificação do franciscano conventual Carlos Murias, do sacerdote francês “fidei donum” [dom da fé] Gabriel Longueville (sequestrados na base aérea do Chamical, na Argentina, aos 18 de junho de 1976, torturados e assassinados), e de Wenceslao Pedernera, organizador do Movimento Rural Católico, também assassinado em sua casa ante a presença de sua esposa e de suas três filhas poucos dias depois (aos 25 de julho).

A reprotagem é de Iacopo Scaramuzzi e Stefania Falasca, publicada por Vatican Insider, 27-06-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Anunciou isto o bispo de La Rioja, mons. Marcelo Colombo, o mesmo religioso que se encarregou de por em marcha a causa de beatificação de seu predecessor Enrique Angelelli (18 de julho de 1923 – 4 de agosto de 1976), quem, poucos dias depois, regressando de Chamical, onde havia celebrado uma missa em memória de Murias e Longueville, faleceu, segundo a polícia e a magistratura da época, num acidente automobilístico; sem embargo, no passado dia 4 de julho um tribunal reconheceu que se tratou de um homicídio

Em agosto de 2006, Jorge Mario Bergoglio celebrou uma missa no dia do trigésimo aniversário da morte de mons. Angelelli, e também recordou Carlos Murias, a Gabriel Longueville e Wenceslao Pedernera. O então arcebispo de Buenos Aires falou sobre esse “diálogo do bispo com sua Igreja e nesse diálogo do bispo com seu povo se insere todo o crescimento da Igreja, todo o caminhar da Igreja” de La Rioja (à qual o próprio Bergoglio chegou na companhia do geral dos jesuítas, Pedro Arrupe), “um diálogo que cada vez foi mais perseguido, uma Igreja que foi perseguida, uma Igreja que foi se fazendo sangue, que se chamou Wenceslao, Gabriel, Carlos, testemunhos da fé derramando seu sangue”.

“O sangue destes homens que deram sua vida pela pregação do Evangelho – acrescentou então Bergoglio – é verdadeiro triunfo e hoje clama por vida, por vida esta Igreja riojana que hoje é depositária”. Por isso, a recordação de Wenceslao, Carlos, Gabriel e do bispo Enrique não é somente uma evocação, e sim um desafio que nos impele a inspirar-nos em seu caminho de homens que só consideraram o Evangelho, recebendo-o com plena liberdade. É assim que devemos ser, acrescentou: “Assim nos quer hoje a pátria, homens e mulheres livres de preconceitos, livres de composições, livres de ambições, livres de ideologias, homens e mulheres de Evangelho; somente o Evangelho e, quando muito podemos acrescentar-lhe um comentário, o que lhe acrescentaram Wenceslao, Carlos, Gabriel e o bispo, o comentário da própria vida”. 

“Para Gabriel, Carlos e Wenceslao – indicou mons.. Marcelo Colombo em meados de junho em Roma, quando entregou à Congregação para as Causas dos Santos a documentação – começou uma causa de beatificação por martírio, cuja fase diocesana já está encerrada. Levamos à Congregação das Causas dos Santos quatro caixas com a documentação. A causa de Angelelli começa agora e talvez em certo momento se possa pensar numa unificação, mas, por ora, cada uma destas duas causas tem seu próprio curso e é preciso levá-las em frente eficazmente, com respeito às normas processuais e canônicas e, sobretudo, com respeito do sentido com que a Igreja vai a estas causas, isto é, tornar claro o testemunho cristão destes homens”. 

A decisão sobre a causa de beatificação de Angelelli, disse mons. Colombo, “era desejada por muita gente, porque parecia correto que se lhe reconhecesse esse papel de testemunho que teve para a sociedade de La Rioja, bem como para a sociedade e a Igreja da Argentina. Mas, para por em marcha o processo de beatificação esperamos se concluísse a causa penal em curso num tribunal estatal. Quando chegou a sentença, no passado dia quatro de julho, que também publicamos (com a condenação a prisão perpétua do ex-general do exército Luciano Benjamin Menéndez, de 86 anos, e do ex-vice Comodoro Luis Fernando Estrella, de 82 anos, “reconhecidos coo os autores intelectuais do homicídio, ndr.), começou a causa de beatificação. Se esperou que a justiça dissesse claramente que aquele acidente não havia sido casual, senão que havia sido provocado para matar o bispo”. 

Ele era um pastor de almas e Mons. Agnelelli traduzia numa vida social mais justa o que ensinava o Evangelho, recordou mons. Colombo, ele era um bispo do Concílio, pois participou dele e se expressou com oito votos sobre a vida sacerdotal; acompanhava os pobres com a experiência das cooperativas, os movimentos rurais da Ação Católica, pertencia a um grupo de bispos, sacerdotes e leigos que se chamava COEPAL (Comissão Episcopal Pastoral), que trabalhava na aplicação concreta do Vaticano II na Argentina, e presidia a comissão de religiosidade popular. Era, sublinhou, um pastor de almas e traduzia numa vida social mais justa o que ensinava o Evangelho. Começou como bispo em agosto de 1968 e, quando se lê sua primeira homilia, se constata que se tratava de uma leitura guiada pela “Gaudium et spes”; era um homem que impelia para a comunhão com o Papa, com a Igreja na Argentina, na própria diocese, mas infelizmente sofreu muito com as incompreensões em La Rioja.

Estavam ali, explicou o bispo Colombo, os que se sentiam desafiados por um modelo de Igreja diferente, por exemplo, os grupos ameaçadores como os Cruzados da Fé, que usavam ideologicamente a religião, e chegaram a expulsá-lo de uma cidade do interior da Argentina, Anillaco, onde nasceu o presidente Menem, aos 13 de junho de 1973, quando uma multidão de comerciantes e proprietários de terras, que entraram à força na Igreja durante a celebração da Missa, começou a jogar pedras contra Angelelli, porque apoiava os mineiros e os trabalhadores rurais, e ele não pôde celebrar a missa patronal.

Além disso, continuou mons. Colombo, Angelelli interditou canonicamente os Cruzados da Fé. Também denunciou claramente o tráfico de pessoas, o jogo de azar, que tinham nome e apelido. Pode-se ler nos quatro volumes de suas homilias que a diocese de La Rioja publicou. E havia inclusive um periódico, “El Sol”, que atacava o bispo diariamente: chamavam-no Satanelli, em lugar de Angelelli.

O bispo era um pesadelo para muitos dos proprietários de terras que tinham interesses econômicos. Mais tarde os militares foram os que mais o hostilizaram, porque ele denunciava episódios irregulares (monjas detidas para uma revisão de seus documentos), pedia notícias sobre as pessoas que não saiam do cárcere. Angelelli era, pois, um obstáculo para a ideologia da segurança nacional, como a definiu o documento de Puebla de 1979, que, por exemplo, baixou os princípios da revolução dos militares, privilegiava certo conceito de ordem e a subordinação de tudo a ele, uma deificação da segurança que absolutizava o Estado frente às pessoas. Ele, pelo contrário, sublinhava o valor de cada pessoa, tomando-a da imagem do próprio Cristo. Entre todos estes interesses hostis contra Angelelli havia muitas relações. Por isso, sentenciou mons. Colombo, foi assassinado. Se disse que os que o mataram eram cristãos, mas “como se pode fazer uma afirmação semelhante se subordinaram sua fé a uma ideologia:”. 

É sabido que chegou do Vaticano ao tribunal argentino a documentação que permitiu a conclusão do processo. Como sucedeu? “Faltavam poucos dias e pensávamos que faltava um documento que também sabíamos que o tinha consigo Angelelli. Quando morreu, estava regressando de algumas investigações sobre a morte dos outros três. No carro havia uma pasta de arquivo que desapareceu com esse documento, e depois voltou a aparecer na mesa de um dos militares. Mas faltava algo: uma das cartas que ele tinha enviado por outro meio, mediante o geral dos franciscanos, à Secretaria de Estado. Eu pedi essa documentação e, graças à intervenção do Papa, a carta foi enviada. Foi muito importante, o final de um trabalho bem artesanal que fizeram a diocese e a justiça argentina, que nestes anos tem feito muito para escutar as vítimas. Falava-se também de outra carta, mas ela estava disponível em nossa diocese. A justiça disse agora claramente que mons. Angelelli foi assassinado. Uma coisa que o povo já sabia, bem como muitos outros sacerdotes e bispos. E mesmo assim ainda há quem aluda à primeira versão do acidente, mas a natureza da morte é, pelo contrário, muito clara. Além disso, quando alguém sofre um acidente, a polícia não vai à sua casa abrir a porta e registrar as habitações, coisa que sucedeu depois da morte do bispo: foram à casa de Angelelli, mas por sorte não a abriram. O cadáver, ademais, tinha um claro sinal de golpe na cabeça. Há, pois, muitos sinais que falam por si”. 

Mons. Angelelli, sublinhou seu sucessor em La Rioja, “era filho de italianos, muito afetuoso, próximo ao povo. Há bispos na Argentina que recordam que, quando estudava em Roma, havia sido eleito por seus colegas como representante dos estudantes. Era comunicativo, solidário, era um líder”. Um pastor ao qual o Papa Francisco dedicou uma homenagem na “Evangelii gaudium”, na qual escreve que é preciso ter “um ouvido ao Evangelho e um ouvido ao povo: é uma expressão de Angelelli e uma chave de discernimento pastoral”. 

Em geral, concluiu mons. Colombo, a causa de beatificação de Angelelli que acaba de iniciar, a beatificação de Óscar Arnulfo Romero, a causa dos três mártires que acaba de chegar a Roma, além da de outro bispo que faleceu em outro estranho acidente, Carlos Ponde de León, bispo de San Nicolás de los Arrojos (17 de março de 1914 – 11 de julho de 1977), demonstram que “estamos num momento de plena luz da Igreja: uma nova luz que nos permite compreender qual foi a vida religiosa na América Latina e como sucederam estas coisas contra uma Igreja que queria ser verdadeira Igreja, Igreja em saída, Igreja samaritana, Igreja que vive a fraternidade, golpeada à morte para arrancar uma verdadeira aplicação não só do Concílio, ou das denúncias que faziam padres da Igreja como Crisóstomo, senão do Evangelho de Jesus”.

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