Encontro de Jon Sobrino com o Papa reflete resgate da ‘Igreja dos pobres’ pelo Vaticano

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23 Novembro 2015

Em celebração aos 50 anos do Pacto das Catacumbas, o Vaticano realizou, no último sábado, 14 de novembro, um seminário, em Roma, para tratar da atualidade da proposta firmada por 42 padres conciliares, nas Catacumbas de Domitila, em 1965. Na ocasião, o teólogo espanhol Jon Sobrino palestrou sobre o impacto desse acordo na Igreja de hoje e sobre a urgência de se voltar à "Igreja dos pobres”. Na segunda-feira, 16, foi celebrada uma Eucaristia nas Catacumbas, com a presença do Papa Francisco, quando então o renomado teólogo da libertação, já censurado anteriormente pelo Vaticano, encontrou-se com o Papa, que recomendou a ele: "continue escrevendo”.

A reportagem é de Cristina Fontenele, publicada por Adital, 19-11-2015.

Ao centro, Jon Sobrino cumprimenta o Papa Francisco. O teólogo já foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 2007, pela análise de suas obras "Jesus Cristo libertador” e "A fé em Jesus Cristo”, cujas proposições foram consideradas "errôneas ou perigosas”.

Ao centro, Jon Sobrino cumprimenta o Papa Francisco. O teólogo já foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 2007, pela análise de suas obras "Jesus Cristo libertador” e "A fé em Jesus Cristo”, cujas proposições foram consideradas "errôneas ou perigosas”. Foto: Reprodução

Em sua homilia durante o seminário, Sobrino ressaltou que o Pacto das Catacumbas se converteu no legado "secreto” do Concílio Vaticano II. E citou os aspectos que mais ajudaram a criar uma corrente episcopal, como o fato do Pacto ter sido reconhecido na Conferência de Medellín [1968], onde os bispos levaram a sério o clamor dos pobres. Sobrino se referiu ao monsenhor salvadorenho Oscar Romero como "fiel aos pobres até o martírio”, e lembrou os mártires da Universidade Centro-Americana (UCA), que, por sua vida e morte, ainda geram esperança. "Que sua paz nos transmita aos vivos a esperança, e que sua lembrança nos deixe descansar em paz.”, destacou.

Em seu discurso, Sobrino agradeceu ainda ao Papa Francisco que, para ele, a seu modo, com humor e simplicidade, com dureza e com carinho, quer reformar a Igreja. "Ajudemo-lo, não somente aplaudamos”, instou.

Jon Sobrino é sacerdote jesuíta e desde 1957 reside em El Salvador, onde atua como professor da UCA. Considerado uma das maiores referência da Teologia da Libertação latino-americana, o teólogo é sobrevivente da chacina da UCA, que vitimou oito pessoas, em 16 de novembro de 1989, em um ataque realizado pelas forças militares da ditadura salvadorenha. De acordo com Leonardo Boff, Sobrino escapou do massacre por estar na Ásia, ministrando um curso sobre Jesus Cristo, no qual substituía o brasileiro.

"Juntos nos formamos na Alemanha e juntos temos trabalhado na Teologia, e fomos companheiros também de tribulações, por causa do nosso compromisso pela libertação dos oprimidos, a partir da prática de Jesus. Embora distante está sempre perto do meu coração.”, revela Boff em seu blog.

À Adital, Francisco de Aquino Júnior, presbítero da diocese de Limoeiro do Norte (Ceará) e doutor em Teologia pela Universidade de Münster (Alemanha), comenta a importância do encontro entre Jon Sobrino e o Papa Francisco. Segundo Aquino Júnior, o momento reuniu duas das figuras mais representativas da Igreja dos pobres. "Sobrino é uma das referências mais importantes desse movimento, o teólogo mais fiel à causa dos pobres, um testemunho da caminhada dos mártires e uma das memórias mais vivas de Oscar Romero”.

Não significa dizer que o Papa Francisco seja um adepto da Teologia da Libertação, explica o padre Júnior, mas há uma sintonia evangélica grande entre o Papa e a Igreja da América Latina, relacionada com o projeto da "Igreja em saída”, para as periferias. "Uma Igreja pobre e para os pobres, um projeto de uma Igreja misericordiosa, que tem no coração os miseráveis do mundo. Igreja que sai para o mundo e enfrenta os problemas da humanidade sofredora”.

Padre Júnior observa que o encontro entre o Papa e os teólogos da libertação, a exemplo do ocorrido com Gustavo Gutierrez, em maio deste ano, durante a 20ª Assembleia Geral da Cáritas Internacional, em Roma, implica o fortalecimento da Igreja latino-americana e a ampliação dos horizontes da Teologia da Libertação. O Papa aborda as diferentes formas de sofrimento – os migrantes, a questão ambiental, a fome, os conflitos religiosos, a depressão que se instala na sociedade, as famílias que se veem dilaceradas e com as relações rompidas. "Um conjunto de questões, que obriga a Igreja a alargar os horizontes.”, destaca.

Segundo padre Júnior, o encontro do Papa com os teólogos da libertação, a exemplo de Gustavo Gutierrez, implica o fortalecimento da Igreja latino-americana e a ampliação dos horizontes da Teologia da Libertação

O teólogo comenta que Francisco tem ajudado a Igreja a recuperar o compromisso com os pobres e já não é mais tão estranho nas igrejas se falar sobre essa temática, mesmo que haja uma espécie de "Cisma Branco” contra o Papa, na Cúria Romana. Significa dizer que as propostas do Papa são ouvidas, mas alguns setores ainda não se vinculam totalmente às suas ideias.

Padre Júnior aponta ainda que estamos vivendo um Kairós, um tempo privilegiado, com Francisco representando um sinal do Espírito Santo na Igreja e no mundo. Pontua que o Papa tem a tarefa de impor os processos de renovação da Igreja, mas adverte que tal conduta é uma tarefa de todos. "Devemos movimentar as paróquias e fazer ecoar o grito de Francisco, comprometendo-nos com o sofrimento humano e com as lutas da sociedade. Não só admirá-lo, mas também assumirmos o compromisso, sem medo de nos enlamear, de cairmos e nos acidentarmos no caminho”. Este é o atual desafio, destaca Aquino Júnior, atualizar o Pacto das Catacumbas e assumir a partir dos contextos sociais que, "onde quer que alguém sofra, nenhum cristão pode dormir em paz”.

 

 

Em sua homilia durante o seminário, Sobrino ressaltou que o Pacto das Catacumbas se converteu no legado "secreto” do Concílio Vaticano II. E citou os aspectos que mais ajudaram a criar uma corrente episcopal, como o fato do Pacto ter sido reconhecido na Conferência de Medellín [1968], onde os bispos levaram a sério o clamor dos pobres. Sobrino se referiu ao monsenhor salvadorenho Oscar Romero como "fiel aos pobres até o martírio”, e lembrou os mártires da Universidade Centro-Americana (UCA), que, por sua vida e morte, ainda geram esperança. "Que sua paz nos transmita aos vivos a esperança, e que sua lembrança nos deixe descansar em paz.”, destacou.

Em seu discurso, Sobrino agradeceu ainda ao Papa Francisco que, para ele, a seu modo, com humor e simplicidade, com dureza e com carinho, quer reformar a Igreja. "Ajudemo-lo, não somente aplaudamos”, instou.

 

reproducao
Por ocasião dos 50 anos do Pacto das Catacumbas, uma série de eventos ocorreram ao longo de 2015, culminando com uma Eucaristia nas Catacumbas de Domitila, em Roma, com a presença do papa Francisco.

 

 

Jon Sobrino é sacerdote jesuíta e desde 1957 reside em El Salvador, onde atua como professor da UCA. Considerado uma das maiores referência da Teologia da Libertação latino-americana, o teólogo é sobrevivente da chacina da UCA, que vitimou oito pessoas, em 16 de novembro de 1989, em um ataque realizado pelas forças militares da ditadura salvadorenha. De acordo com Leonardo Boff, Sobrino escapou do massacre por estar na Ásia, ministrando um curso sobre Jesus Cristo, no qual substituía o brasileiro.

"Juntos nos formamos na Alemanha e juntos temos trabalhado na Teologia, e fomos companheiros também de tribulações, por causa do nosso compromisso pela libertação dos oprimidos, a partir da prática de Jesus. Embora distante está sempre perto do meu coração.”, revela Boff em seu blog.

À Adital, Francisco de Aquino Júnior, presbítero da diocese de Limoeiro do Norte (Ceará) e doutor em Teologia pela Universidade de Münster (Alemanha), comenta a importância do encontro entre Jon Sobrino e o Papa Francisco. Segundo Aquino Júnior, o momento reuniu duas das figuras mais representativas da Igreja dos pobres. "Sobrino é uma das referências mais importantes desse movimento, o teólogo mais fiel à causa dos pobres, um testemunho da caminhada dos mártires e uma das memórias mais vivas de Oscar Romero”.

Não significa dizer que o Papa Francisco seja um adepto da Teologia da Libertação, explica o padre Júnior, mas há uma sintonia evangélica grande entre o Papa e a Igreja da América Latina, relacionada com o projeto da "Igreja em saída”, para as periferias. "Uma Igreja pobre e para os pobres, um projeto de uma Igreja misericordiosa, que tem no coração os miseráveis do mundo. Igreja que sai para o mundo e enfrenta os problemas da humanidade sofredora”.

Padre Júnior observa que o encontro entre o Papa e os teólogos da libertação, a exemplo do ocorrido com Gustavo Gutierrez, em maio deste ano, durante a 20ª Assembleia Geral da Cáritas Internacional, em Roma, implica o fortalecimento da Igreja latino-americana e a ampliação dos horizontes da Teologia da Libertação. O Papa aborda as diferentes formas de sofrimento – os migrantes, a questão ambiental, a fome, os conflitos religiosos, a depressão que se instala na sociedade, as famílias que se veem dilaceradas e com as relações rompidas. "Um conjunto de questões, que obriga a Igreja a alargar os horizontes.”, destaca.

 

reproducao
Segundo padre Júnior, o encontro do Papa com os teólogos da libertação, a exemplo de Gustavo Gutierrez, implica o fortalecimento da Igreja latino-americana e a ampliação dos horizontes da Teologia da Libertação.

 

O teólogo comenta que Francisco tem ajudado a Igreja a recuperar o compromisso com os pobres e já não é mais tão estranho nas igrejas se falar sobre essa temática, mesmo que haja uma espécie de "Cisma Branco” contra o Papa, na Cúria Romana. Significa dizer que as propostas do Papa são ouvidas, mas alguns setores ainda não se vinculam totalmente às suas ideias.

Padre Júnior aponta ainda que estamos vivendo um Kairós, um tempo privilegiado, com Francisco representando um sinal do Espírito Santo na Igreja e no mundo. Pontua que o Papa tem a tarefa de impor os processos de renovação da Igreja, mas adverte que tal conduta é uma tarefa de todos. "Devemos movimentar as paróquias e fazer ecoar o grito de Francisco, comprometendo-nos com o sofrimento humano e com as lutas da sociedade. Não só admirá-lo, mas também assumirmos o compromisso, sem medo de nos enlamear, de cairmos e nos acidentarmos no caminho”. Este é o atual desafio, destaca Aquino Júnior, atualizar o Pacto das Catacumbas e assumir a partir dos contextos sociais que, "onde quer que alguém sofra, nenhum cristão pode dormir em paz”.

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Cristina Fontenele

Repórter.
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