A pirâmide invertida: Sínodo e ecumenismo. Artigo de Giovanni Ferrò

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30 Outubro 2015

O momento presente é um kairós, um momento oportuno de graça, para voltar a enfrentar nos níveis máximos aquele debate teológico ecumênico sobre as grandes questões, ao qual se tinha abdicado nas décadas passadas para evitar tensões e desgastes indesejados.

A opinião é do jornalista italiano Giovanni Ferrò, editor-chefe da revista Jesus. O artigo foi publicado na revista Riforma, 27-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como será percebido em nível ecumênico, entre as várias Igrejas cristãs, o Sínodo dos bispos católicos sobre a família que encerrou no último domingo, 25 de outubro? É uma pergunta que eu me fiz várias vezes nas últimas semanas, enquanto acompanhava o debate vivo, às vezes até feroz, que se realizou dentro dos muros vaticanos.

Como sempre, entre comunidades de confissões diferentes, que também têm códigos e linguagens diferentes, o risco é o da incompreensão, do equívoco. Com mais razão, temo eu, neste caso.

Por dois motivos: o primeiro é que, em torno dessa assembleia, foi deliberadamente erguida uma cortina de fumaça midiática (o caso Charamsa, a carta dos 13 cardeais, as falsas notícias sobre um suposto tumor cerebral no papa) que tinha como objetivo enfraquecer o Papa Francisco e a ala episcopal favorável a algumas aberturas.

O segundo motivo é que, em torno desse Sínodo, criaram-se, às vésperas, expectativas muito altas, superiores – realisticamente falando – à capacidade de mudança de um corpo vasto, complexo e diversificado como a Igreja Católica mundial.

E, de fato, se olharmos para as conclusões da assembleia, ou seja, para os 94 pontos do relatório final, vemos que não há bruscas inversões de rota. À parte do nó dos divorciados recasados – sobre os quais se introduz a palavra-chave "discernimento" e se confia mais liberdade aos bispos para avaliar caso a caso se devem readmitir aos sacramentos os fiéis que contraíram um novo casamento – não emergem outras novidades sensacionais no catálogo dos temas candentes de moral sexual e familiar.

De não menos importância, na minha opinião, esse Sínodo foi uma virada epocal para a Igreja Católica. Mais importante do que o Sínodo em si mesmo e as suas conclusões de "mérito", de fato, a grande novidade foi a "sinodalidade" como método e como visão eclesiológica. Aqui, sim, a mudança é radical. Basta olhar para o debate interno entre os bispos, que foi verdadeiro, sofrido, aceso: ao contrário de alguns momentos do passado, o papa não quis chamar os bispos para Roma para que servissem de claque de aplausos para decisões que ele ou a Cúria Romana já tinham tomado.

"Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta", disse Bergoglio. E escuta em todos os níveis: dos pastores em relação às pessoas que vivem "lá fora", do papa em relação aos bispos. Com o método da sinodalidade, além disso, toda uma série de competências e de responsabilidades são descentralizadas: o papa restitui poder para as Igrejas locais, para as Conferências Episcopais.

O "romano pontífice", assim, deixa de ser um monarca absoluto fechado na sua torre de marfim e volta realmente ao seu papel de "bispo de Roma", "servo dos servos de Deus", como era no primeiro milênio cristão, antes dos grandes cismas que levaram ao nascimento das Igrejas Ortodoxas, por um lado, e das Igrejas da Reforma, por outro.

Certamente, a estrutura eclesiológica da Igreja Católica continua sendo a de uma pirâmide, mas, como explicou Bergoglio com grande sabedoria espiritual, "uma pirâmide invertida", em que "o vértice se encontra abaixo da base" e desta obtém a sua autoridade, porque "a única autoridade é a autoridade do serviço".

Se essas minhas considerações não estiverem totalmente erradas, então tudo isso tem consequências muito poderosas no plano ecumênico. O papado – um dos principais obstáculos no caminho rumo à plena reconciliação entre as Igrejas cristãs – muda de forma. Abrem-se espaços de diálogo novos, que, por décadas, haviam sido mortificados e reduzidos a um lampejo.

Eu tenho a impressão, em suma, que o momento presente é um kairós, um momento oportuno de graça, para voltar a enfrentar nos níveis máximos aquele debate teológico ecumênico sobre as grandes questões, ao qual se tinha abdicado nas décadas passadas para evitar tensões e desgastes indesejados.

Mas a Ortodoxia, a Comunhão Anglicana e as Igrejas da Reforma terão a coragem, a força e a generosidade para tomar essa estrada?

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