Da complexidade às complexidades e o exercício da boa utopia. O pensamento de Edgar Morin. Entrevista especial com José Eli da Veiga e Maria da Conceição de Almeida

O pensamento complexo de Edgar Morin é uma expressão da aventura humana na Terra

Gif: IHU

Por: Patricia Fachin | 12 Julho 2021

 

Na última quinta-feira, Edgar Morin completou cem anos. A celebração do aniversário do sociólogo francês foi uma ocasião para que intelectuais de várias partes do mundo revisitassem, comentassem e avaliassem aspectos de sua extensa obra, indicando-a como um aparato teórico importante para se compreender a realidade e estabelecer um diálogo entre a cultura científica e a cultura humanística.

 

Para José Eli da Veiga, graduado em Agronomia, mestre em Economia Agrícola e doutor em Desenvolvimento Econômico e Social, o que torna Morin um teórico singular é "o fato de rapidamente ter se aventurado pela transdisciplinaridade, em vez de se resignar à bem mais cômoda especialização na 'sociologia do presente'. Tão precoce decisão antirreducionista gerou o mais admirável polímata dos últimos cinquenta anos".

 

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU por e-mail, o pesquisador comenta um ponto central pelo qual Morin é conhecido: a teoria da complexidade. "Não existe 'teoria da complexidade'. Uma revisão do que foi publicado sobre esta ideia, nos últimos quarenta anos, mostra a existência de uma espécie de 'torre de babel', sem que se possa ser otimista sobre a possibilidade de alguma convergência. Muito menos com o sonho de futura 'unificação' das inúmeras especulações sobre a complexidade", pontua. Apesar das revisões sobre o tema, assegura, a contribuição de Morin em O Método, "além de pioneira, foi uma das que mais estimulou grande parte das pesquisas que acabaram gerando a referida 'torre de babel'. Hoje, suas reflexões epistemológicas certamente ajudam as pesquisas científicas em curso sobre as muitas complexidades. E certamente poderão ser decisivas se, no futuro, houver alguma 'decantação' do conhecimento pertinente".

 

A socióloga Maria de Conceição de Almeida, coordenadora do Grupo de Estudos da Complexidade, da Cátedra itinerante Unesco "Edgar Morin" na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, destaca que, ao contrário da obra de outros intelectuais, a de Morin "constela diferentes domínios do conhecimento". "Articulados entre si, esses domínios constroem uma epistemologia da complexidade que religa ciência e filosofia e nos fazer entender a interconexão entre as três grandes áreas separadas pelas ciências modernas: as ciências da Natureza, as ciências da Vida e  as ciências do Homem".

 

Também em entrevista concedida por e-mail ao IHU, ela disse que "a obra de Edgar Morin se coloca hoje, em nível planetário, como um exercício da boa utopia. Mas uma utopia possível. Marcado pela incerteza – portanto pela possibilidade de mudança de via e de projeção de novos futuros –, o pensamento complexo de Edgar Morin é uma Ode ao que há de mais instigante na trajetória da nossa aventura humana na Terra".

 

José Eli da Veiga (Foto: Agência UnB)

José Eli da Veiga é professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo - IEA/USP . Entre seus livros, destacamos O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (2019), Para entender o desenvolvimento sustentável (2015) e A desgovernança mundial da sustentabilidade (2013), todos pela Editora 34: São Paulo.

 

Maria da Conceição de Almeida (Foto: Substantivo Plural)

Maria da Conceição de Almeida é professora do Departamento de Fundamentos e Políticas da Educação do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. É doutora e mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, e graduada em Sociologia e Politica pela Fundação José Augusto. Coordena o Grupo de Estudos da Complexidade, primeiro ponto brasileiro da Cátedra itinerante Unesco "Edgar Morin" na UFRN. É colaboradora e consultora da Multiversidad Mundo Real Edgar Morin e membro da Cátedra itinerante Unesco "Edgar Morin" - Universidad Del Salvador/Instituto Internacional para o Pensamento Complexo.

 

Confira a entrevista.

 

IHU - O que o senhor aprendeu lendo Edgar Morin?

José Eli da Veiga - Tanta coisa, que dificilmente conseguiria listar. Mas o que mais me influenciou foi seu exemplo de coragem intelectual. Desde sua Autocrítica, publicada em 1959, seguida da longa aventura, iniciada em 1970, que resultou nos seis volumes de O Método e em dezenas de obras satélites.

 

 

Maria da Conceição de Almeida - A obra de Edgar Morin, diferente da obra de cientistas, filósofos e pensadores  marcados pelas especializações temáticas, constela diferentes domínios do conhecimento.  Articulados entre si, esses domínios constroem uma epistemologia da complexidade que religa ciência e filosofia e nos fazer entender a interconexão entre as três grandes áreas separadas pelas ciências modernas: as ciências da Natureza, as ciências da Vidaas ciências do Homem

O que aprendemos com a leitura de seus livros? Aprendemos que não faz sentido opor natureza e cultura, sujeito e objeto, pesquisa empírica e reflexão fundamental, e assim por diante. Essa forma de organização do pensamento está presente em todos os seus livros – sejam aqueles que focam na questão do método de pensar (O Método, em seis volumes); aqueles que circunstanciam suas experiências cotidianas e são classificados como autobiográfico (os Diários – da Califórnia, da China, Um ano sísifo, Meus demônios, Meus filósofos  etc -, livros de entrevistas como Meu Caminho; ou ainda livros que tratam de temas como cultura de massa no século XX em dois volumes (Necrose e Neurose), ou ainda em outros como Sociologia, Ciência com consciência, entre tantos outros.

 

 

O conjunto da obra de Edgar Morin é uma exposição viva de como se expressa o pensamento complexo. Em um de seus últimos livros, A aventura de O Método (2020), temos de forma detalhada esse caminho do pensamento complexo operada por Morin. Lá ele vai mostrando como O Método, considerada sua obra maior, foi sendo construída e alimentada por outros livros e ao mesmo tempo serviu de alimento para eles. Nas sua palavras: “Os livros que elaborei paralelamente a O Método eram, eles próprios, exercícios do pensamento complexo que, alimentados por O Método, reciprocamente o alimentaram”. Em outras palavras, ao ler a obra desse pensador-cientista-filósofo aprendemos a borrar fronteiras disciplinares, a exercitar um bem-pensar que tem por princípio ultrapassar as fraturas instituídas pelo pensamento da fragmentação que insiste em separar obra tecnocientífica de obra de conjuntura ou de divulgação. 

 

Cerimônia do Centenário de Morin na Unesco | Foto: Christelle Alix - Unesco

 

IHU - Quais foram suas principais contribuições?

José Eli da Veiga - A partir de profunda revisão do conhecimento científico contemporâneo, ele propôs reflexões epistemológicas sobre a natureza, a vida, o conhecimento, as ideias, a humanidade e a ética. Depois as teve como base para quatro livros sobre a educação do futuro.

 

IHU - O que distingue Morin de outros intelectuais de sua era, que o torna um pensador singular?

José Eli da Veiga - Muitas coisas. Mas o principal parece ter sido o fato de rapidamente ter se aventurado pela transdisciplinaridade, em vez de se resignar à bem mais cômoda especialização na “sociologia do presente”. Tão precoce decisão antirreducionista gerou o mais admirável polímata dos últimos cinquenta anos.

 

Maria da Conceição de Almeida - A singularidade do modo de construir conhecimento em Edgar Morin se expressa, sobretudo, pelo exercício consciente da implicação do autor no conhecimento que produz, de desvelar  explicitamente suas contradições, dúvidas e incertezas. Gaston Bachelard, a quem Morin atribui a concepção de complexidade, fala da necessidade de os cientistas procederem a uma psicanálise do conhecimento. Penso que Edgar Morin responde com rigor e plenitude a esse apelo bachelardiano.        

 

 

IHU - Das obras dele, quais foram as que mais marcaram a sua vida intelectual e por quê?

José Eli da Veiga - Com certeza foi O Método. Mas esta resposta é precária, pois, a rigor, são seis obras. Para mim, o mais marcante foi o tomo 3: O Conhecimento do Conhecimento, pois foi o que mais me ajudou a refletir sobre as possibilidades e limites do conhecimento humano. Por isso, também me ajudou muito a formular algumas indagações sobre as possibilidades e limites das contribuições do próprio Morin. Tais indagações estão no capítulo 4 da coletânea que acaba de ser publicada pela Editora Sulina, organizada por Edgard de Assis Carvalho. Um aprofundamento, concentrado em uma das principais inovações teóricas de Morin – a dialógica –, estará na coletânea latino-americana, organizada por Elimar Nascimento, Mauricio Amazonas e Alfredo Pena-Vega, ainda no prelo (Ed. do SESC-SP).

 

Os seis volumes de "O Método", de Edgar Morin, traduzido para o português por Juremir Machado da Silva, e publicado pela Ed. Sulina.

 

Maria da Conceição de Almeida - Não teria como destacar quais obras  mais me alimentam ou marcam minha vida como um todo, dentro da qual está minha vida intelectual. Gosto igualmente das obras mais conceituais, de método e de fundamento epistemológico e daquelas que expõem pesquisas mais direcionadas a acontecimentos pontuais como seus escritos sobre uma pesquisa com pescadores na comuna de Plozevet, ou sobre a ’sociologia do presente’, ou ainda seus livros mais focados nos desafios da educação. Claro que alguns de seus livros são pra mim mais arrebatadores, como por exemplo, Meus demôniosSobre a estética, Meus filósofos e A aventura de O método. Por outro lado, nada me instiga mais, a voltar sempre e a reler, como os seis volumes de O Método. Entre eles volto com mais frequência aos volumes 1 e 2 – justamente aqueles que aparentemente estão mais longe de minha formação de origem. Como no espaço do GRECOM (Grupo de estudos da complexidade) tenho orientado frequentemente pesquisadores de várias áreas das ciências, esses dois volumes  são aberturas importantes para os doutorandos e pós-doutorandos revisitarem sua formação agora sob a perspectiva das ciências da complexidade. 

 

 

IHU - Morin é conhecido pelo pensamento complexo, que alguns chamam de teoria da complexidade. Como essa teoria é útil para compreendermos a realidade como um todo e a nós mesmos, enquanto espécie humana?

José Eli da Veiga - Não existe “teoria da complexidade”. Uma revisão do que foi publicado sobre esta ideia, nos últimos quarenta anos, mostra a existência de uma espécie de “torre de babel”, sem que se possa ser otimista sobre a possibilidade de alguma convergência. Muito menos com o sonho de futura “unificação” das inúmeras especulações sobre a complexidade. Por isso, penso ser melhor evitar o singular, em busca de discussão mais frutífera sobre “complexidades”, no plural.

 

 

Torre de Babel

Do sistema imune ao mercado, passando por um cérebro ou por um formigueiro, não faltam exemplos análogos, nos quais amplas redes auto-organizadas fazem emergir – mediante simples esquemas operacionais e sem qualquer controle central – sofisticados comportamentos e tratamento de informações. E a maior parte de tais conjuntos também tem capacidade adaptativa, seja por evolução, seja por aprendizado. Esta talvez possa ser a mais concisa resposta à interrogação sobre o significado da complexidade.

Porém, mesmo desconsiderando inúmeras retóricas não científicas sobre o tema, é imensa a dispersão das abordagens propriamente científicas. Por isso, é impossível, por enquanto, vislumbrar razoável consenso. A situação seria menos insatisfatória se, ainda assim, ao menos já fosse possível organizar as aproximações disponíveis em algumas correntes ou tendências. Mas não. Quanto mais o pesquisador avança na exploração da literatura pertinente, mais aumenta a sensação de uma espécie de Torre de Babel.

Impossível notar qualquer tipo de convergência nos excelentes artigos publicados pelos cinco periódicos científicos mais consagrados ao tema. Por ordem de antiguidade: Journal of Complexity (desde 1985), Complex Systems (1987), Complexity (1995), Complexity International (1996), Emergence: Complexity and Organization (1999).

Quanto a livros, pode-se começar por selecionar alguns dos 51 recomendados neste site. Sejam quais forem os critérios eliminatórios retidos, fatalmente se notará, entre os finalistas, sérias divergências nas possíveis maneiras de se entender a complexidade. Por isso, não são obsoletas duas coletâneas de entrevistas com pesquisadores da complexidade, publicadas nos primeiros anos do século: pelo marroquino Réda Benkirane (2002) e pelo mexicano Carlos Gershenson (2008). E a primeira traz no título os termos “promessas” e “vertigens”.

Dá para entender, então, por que, no final do século passado, o célebre jornalista científico John Horgan havia sido tão impiedoso e mordaz ao explorar os resultados de suas próprias entrevistas – realizadas até 1996 – com a dúzia dos principais pesquisadores, ironicamente tachados de “caoplexologistas”: Ilya Prigogine, Stuart Kaufman, Murray Gell-Mann, Philip Anderson, John Holland, Seth Lloyd, Gregory Chaitin, Per Bak, Mitchell Feigenbaum, Joshua Epstein, Norman Packard e Christopher Langton.

Além de ressaltar a existência de 31 definições de complexidade (conforme uma misteriosa lista que teria sido compilada pelo físico Seth Lloyd), o livro de Horgan (1996) sobre os limites de conhecimento científico revela, no demolidor oitavo capítulo, muitas incoerências, mesmo no interior do coeso grupo pioneiro fundador do Instituto Santa Fé, a partir do Laboratório Nacional de Los Alamos.

Também estão bem longe de convergir a dúzia das melhores obras introdutórias disponíveis: Szilagyi (s/d), Arthur (2015), Miller (2015), Holland (2014), Mitchell (2009), Johnson (2007), Rescher (1998), Kauffman (1995), Gell-Mann (1994), Lewin (1992), Waldrop (1992) e Bonner (1988) [1].

Finalmente, mas ainda mais importante, é chamar a atenção para a dificuldade encontrada por todos os pesquisadores citados ao relacionarem a complexidade à teoria darwiniana da evolução. Quase sempre a evolução aparece como um dos mais importantes vetores da complexidade, mas também há quem prefira a direção oposta, discutindo a evolução da complexidade (Corning, 2005), ou definindo adaptação, diversidade e complexidade como os três pilares da evolução (Brandon e McShea, 2020). Pior que uma Torre de Babel, então.

 

 

Maria da Conceição de Almeida - De fato, o pensamento complexo e o método complexo, arquitetados por Edgar Morin, são ampliações do que se poderia chamar de teoria da complexidade. O pensamento complexo é mais propriamente um operador cognitivo, uma forma de conceber os fenômenos em sua multidimensionalidade. Não se reduz a uma teoria – na acepção formal da palavra. É uma reorganização de teorias que se conjugam pelas proximidades de seus limites, por suas aberturas epistemológicas. O problema da “utilidade” da concepção complexa do mundo é uma das ultrapassagens operadas pelo pensamento complexo. No que tange, por exemplo, às proposições de Edgar Morin para a reforma de educação, ele é enfático ao defender a ideia de que uma tal reforma requer, ao mesmo tempo, uma reforma pragmática e uma reforma paradigmática. Daí porque é importante se atentar para o fato de que livros como A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento e Os sete saberes necessários à educação do futuro. Esses são livros que dialogam entre si, se complementam. Mais que isso: são livros que deveriam ser lidos pelos educadores ao lado de outros como Ensinar a viver: Manifesto para mudar a educação e, igualmente as Jornadas temáticas (livro que expõe a experiência de Edgar Morin no que se refere à reforma da educação na França).

 

 

De um modo ampliado é possível afirmar que os livros desse pensador não se restringem a expor princípios para repensar as ciências, mas, e sobretudo, por meio da tríade indivíduo-sociedade-espécie seus livros constroem meta-princípios em permanente inacabamento, capazes de complexificar a nossa compreensão de mundo, de sociedade, da política, da cultura e de nós mesmos.

 

IHU – Mas, então, como fica a reputação de Morin, de grande teórico da complexidade?

José Eli da Veiga - Fica intacta, pois sua contribuição – em O Método –, além de pioneira, foi uma das que mais estimulou grande parte das pesquisas que acabaram gerando a referida “torre de babel”. Hoje, suas reflexões epistemológicas certamente ajudam as pesquisas científicas em curso sobre as muitas complexidades. E certamente poderão ser decisivas se, no futuro, houver alguma “decantação” do conhecimento pertinente.

 

IHU - Por que a obra de Morin ainda é pouco estudada no Brasil? A que atribui isso?

José Eli da Veiga - Há uma parte da obra de Morin que – bem ao contrário – tem sido muito estudada no Brasil. Mais do que no resto do mundo, inclusive França. Esta parte é a que se refere à educação. Ele é um autor muito popular entre os educadores brasileiros, que em muitos de seus escritos encontraram fértil reflexão sobre as perguntas que mais se fazem. Mas, sim, é certo que Morin continua a ser um autor quase ignorado por nossas comunidades científica e filosófica.

No Brasil, são raríssimos os cientistas que estudam a filosofia da ciência que praticam. Estes poucos, certamente, visitaram alguma obra de Morin, mas provavelmente não tiveram estímulos para mergulhar na transdisciplinaridade exigida pela leitura. Quanto aos filósofos, dois problemas talvez expliquem, sem que eu possa dizer qual dos dois é o principal. Por um lado, há forte rejeição por aventuras teóricas de autores que também não sejam filósofos. Por outro, há pesada influência das tradicionais conexões com filósofos franceses, em grande maioria avessos às gigantescas pretensões do polímata Edgar Morin. Por último, mas não menos importante, pesou muito a antipatia de Pierre Bourdieu, venerado pela maioria dos sociólogos brasileiros.

 

 

IHU - Por que os jovens que estão em formação deveriam ler a obra de Edgar Morin?

José Eli da Veiga - Não creio que a leitura da obra de Morin seja recomendável a todos os estudantes. A maioria dos pós-graduandos nem tem a bagagem necessária para enfrentar tal desafio. Todavia, é uma leitura fundamental para todo aluno – desde a graduação – que quiser ser imunizado contra o reducionismo das especializações disciplinares. Para estes, o melhor conselho é que formem grupos de estudo, para leitura e discussão dos seis tomos de O Método. Um por semestre, por exemplo. Terão muitas boas perguntas a fazer em classe, muitas das quais vão embaraçar seus professores.

 


Homenagem da UNESCO aos 100 anos de Edgar Morin

 

IHU - O que o senhor sugeriria para quem está conhecendo o autor neste momento?

José Eli da Veiga - A sugestão só pode ser o livro Meu Caminho (Bertrand Brasil, 2010). Não há melhor introdução à monumental obra de Morin do que estas treze entrevistas, concedidas, em 2008, à jornalista Djénane Tager. Em linguagem coloquial, estão realçadas suas contribuições sociológicas, os estudos de física e biologia que o levaram à teoria da complexidade, a justificativa da escolha do termo “método”, sua maneira de analisar o estado do mundo, sua visão da educação do futuro. Tudo em meio a reflexões sobre a vida e a morte. Depois desta leitura, o ideal será que os mais entusiasmados entrem em contato com algum dos melhores conhecedores brasileiros da obra de Morin, os professores Edgar de Assis Carvalho (PUC-SP), Elimar Nascimento (CDS/UnB) e Juremir Machado da Silva (PUC-RS).

 

IHU - Durante a pandemia, Morin concedeu entrevistas e publicou artigos, refletindo sobre a incerteza, o presente e o futuro.  No artigo "Um festival de incerteza", Morin também menciona as diversas crises em curso hoje: econômica, nacional, social, civilizacional, intelectual e existencial. Como ele nos ajuda a compreender este momento particular que estamos vivendo, mas também o "inesperado", que surge em todas as épocas?

Maria da Conceição de Almeida - Em primeiro lugar é importante destacar que a quantidade de entrevistas, artigos em jornal, nas redes sociais e pronunciamentos de Edgar Morin sobre a pandemia e o momento que vivemos é uma das características do modo de ser intelectual desse “eterno estudante”. Em todas as crises das quais participou, seja no cenário europeu ou em outros lugares, Edgar sempre se pronunciou no momento mesmo em que as coisas estavam acontecendo. Ele se distingue com muita ousadia e clareza dos intelectuais que aguardam o desfecho dos acontecimentos para poder se pronunciar – como se fosse um médico legista a fazer a autópsia do cadáver. Ao contrário. Morin tem consciência de que a narrativa crítica dos intelectuais pode oferecer uma melhor compreensão e também, talvez mesmo, uma transformação sobre o fluxo dos acontecimentos. Daí porque ele não omite sua opinião nesses momentos de crise e, mais ainda, ele sabe que crise sugere quase sempre um momento de abertura de novas vias e oportunidades. Por isso ele afirma o pensamento complexo deve estar sempre atento ao inesperado. “É preciso esperar pelo inesperado”. Essa concepção ganha inteligibilidade se compreendermos que o princípio da incerteza, anunciado por Werner Heisenberg em 1927, é uma das bases da noção de complexidade.

 

 

A abordagem que Edgar faz desse momento que vivemos como um momento de uma policrise ou de um ‘festival de incertezas’ é um exemplo que uma narrativa complexa alimentada por uma sociologia do presente. Nada mais complexo do que afirmar que a pandemia do Covid-19 não se reduz a um problema sanitário, mas é a ponta de um iceberg e remete a uma multiplicidade de crises anteriores que estão submersas. Longe, entretanto, de fazer a crítica pela crítica, nosso pensador anuncia vias de saída para a superação desse momento dramático por que passa o planeta. Para ele, a globalização é uma interconexão das nações e culturas da qual está ausente a solidariedade. Reconheço nessa abordagem um desdobramento de suas ideias já em desenvolvimento há algum tempo.

No ano de 2000, em Vilanova i la Gertrú, distrito de Barcelona/Espanha, estive presente no Simpósio Internacional Pensar las conplejidades del Sur, coordenado por Edgar, com a presença de representantes de cinco continentes. Em 2011, ele coordenou outro evento, dessa vez no Rio de Janeiro, patrocinado pelo SESC e evocou o mesmo tema. Do Encontro Internacional para um Pensamento do Sul, participaram 41 convidados, entre brasileiros e estrangeiros. Esse encontro teve como pauta a apreciação da matriz ainda inédita do texto “Para um Pensamento do Sul”, posteriormente publicado. A ideia de um Pensamento do Sul, nada tem de geográfico. Para o artesão do pensamento complexo, como as vezes se autodenomina, o pensamento do Sul tem a ver com “reservas de humanidade”, “reservas de complexidade”, pequenas “ilhas” ou “oásis” onde se cultivam valores como gratuidade, solidariedade, convivência na fraternidade, entre outros valores que se opõem a uma sociedade de mercado, do lucro e da competição. Justamente este ano, em uma de suas entrevistas recentes, Edgar Morin sugere, como uma das via de superação para a crise planetária que vivemos, a existência de uma Confederação onde possam coexistir “Zonas desmundializadas”.

A obra de Edgar Morin se coloca hoje, em nível planetário, como um exercício da boa utopia. Mas uma utopia possível. Marcado pela incerteza – portanto pela possibilidade de mudança de via e de projeção de novos futuros –, o pensamento complexo de Edgar Morin é uma Ode ao que há de mais instigante na trajetória da nossa aventura humana na Terra.

 

Um Itinerário do Pensamento de Edgar Morin. Artigo de Maria da Conceição de Almeida. Cadernos IHU Ideias, Nº 18. Clique na capa para acessar

 

Edgar Morin e o pensamento complexo. Revista IHU On-Line, Nº 402, 10-09-2012. Clique na capa para acessar

 

Nota:

[1] Referências listadas pelo entrevistado:

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