Edgar Morin e a riqueza, contradição e ambivalência humana

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Por: Jonas | 08 Outubro 2013

No último sábado, 5 de outubro de 2013, nas dependências da PUC-PR, realizou-se a penúltima etapa do Ciclo de Estudos sobre “O Método” de Edgar Morin, uma atividade realizada pelo Cepat/CJ-Cias em parceria com a Pastoral da PUC e o Instituto Humanitas Unisinos. Com as provocativas contribuições do professor Ricardo Antunes de Sá (foto), da Universidade Federal do Paraná, refletiu-se a respeito do Método V: “A humanidade da humanidade”.

Inicialmente, o professor Ricardo destacou alguns atributos que podem ser conferidos a Edgar Morin: epistemólogo, sociólogo, filósofo, pedagogo, poeta, mas acima de tudo um intelectual extremamente honesto.

Morin não tem medo de se aventurar pelas sendas do conhecimento. A partir da sua tese de religação dos saberes, considera que as novas ciências ensinam que é preciso religar ao invés de fracionar o conhecimento. Como grande intelectual, atento às tramas sociais estabelecidas na história contemporânea, procura manter a lucidez diante da tentação comum de se cair nos extremos da manipulação ideológica.   

Entender o humano, em suas múltiplas facetas, não é tarefa simples. A ciência moderna deu provas suficientes de que não é capaz de dar conta desse desafio. Nesse sentido, Morin é um crítico à racionalidade moderna. A proposta de uma ciência límpida, com ideias claras e distintas, sob as raízes cartesianas, não dá conta da complexidade do termo humano: rico, contraditório e ambivalente. Para Morin, quanto mais se avançar no conhecimento, mais surgirão mistérios insondáveis. Neste sentido, o processo do conhecer é inesgotável. É preciso partir da complexidade, que é inerente à condição humana, tanto em seu modo de ser, como de interpretar o mundo.

O professor Ricardo realçou que pensar o complexo permite conceber, inseparavelmente, a unidade e a diversidade humanas. O complexo leva em conta todas as dimensões ou aspectos da realidade humana (físicos, biológicos, psicológicos, sociais, mitológicos, econômicos, sociológicos, históricos, etc.) que, infelizmente, geralmente são concebidos como separados e compartimentados. O complexo é capaz, inclusive, de juntar verdades separadas e que se excluem. Trata-se, é claro, de um paradoxo e paradoxos não se resolve, convive-se com eles.

Como, então, entender o que é o humano? Primeiramente, Morin considera que “conhecer o humano não é expulsá-lo do universo, mas aí situá-lo”, ou seja, enxergá-lo dentro de um universo que obedece uma dialógica entre a harmonia e a cacofonia. O ser humano é resultado de um complexo desenvolvimento, que vai das condições favoráveis da luz solar sobre o planeta Terra às condições biofísicas que geraram a biosfera e, no interior deste processo, a animalidade, na qual está inserido. É nesta dinâmica que o ser humano, a partir de uma organização físico-química, que gerou qualidades emergentes, recebeu a vida.

Para que o ser humano elaborasse a cultura foi necessário passar por um processo de hominização biológica, mas, ao mesmo tempo, a emergência da cultura foi essencial para a continuidade desse processo. Morin integra e não separa os elementos constitutivos desse processo de formação do humano, quando afirma que “não há cultura sem as aptidões do cérebro humano, mas não haveria palavra, nem pensamento, sem a cultura”.

O professor Ricardo enfatizou que Morin considera a cultura como o primeiro capital humano, fora dela o ser humano seria um mero primata de baixo escalão.  A cultura é condição para aprender e conhecer, ao mesmo tempo é, também, o que impede de conhecer e aprender fora de seus imperativos e normas. Nesse ponto, para exemplificar, o professor Ricardo citou o enrijecimento dos mais velhos, com seus hábitos e conformações culturais, frente às gerações mais jovens, com seus ímpetos de mudanças e desejo de novos desafios.

O professor Ricardo também salientou o que Morin entende como noosfera: a esfera das coisas do espírito (saberes, crenças, mitos, lendas, ideias). Disse, também, que o intelectual francês considera que os grandes sentimentos humanos (amor, ternura, afeição, amizade, ódio, respeito, desprezo, etc.) são universais. Ressaltou, ainda, que em todo indivíduo e sociedade há, simultaneamente, pensamento racional (empírico e técnico) e pensamento simbólico (analógico e mágico).

Morin define o ser humano a partir da trindade indivíduo/sociedade/espécie. O indivíduo está dentro da sociedade e dentro da espécie. A sociedade e espécie estão dentro do indivíduo. Cada indivíduo carrega em si a forma inteira da condição humana.

Por fim, olhando para a instituição do Estado, Morin avalia que este é, simultaneamente, bárbaro e civilizador, emancipador e escravizador. O antídoto à onipotência do aparelho de Estado e à loucura do poder pessoal encontra-se na democracia. Essa é a aposta de Morin: a democracia. Somente o enraizamento das regras democráticas na cultura e na prática pode garantir uma tradição crítica de liberdade de espírito.

O professor Ricardo Antunes de Sá, no término do debate com os participantes, advertiu a respeito da centralidade do diálogo aberto e franco como uma condição essencial para a vida em sociedade. De fato, somente o diálogo pode garantir o estabelecimento de uma sociedade de homens e mulheres livres, distantes da tentação de onipotência, responsável por trágicas marcas na breve história da humanidade.

O texto é de Jonas Jorge da Silva (Cepat/CJ-Cias) e as fotos são de Sidney Lemes dos Santos (Pastoral/PUC-PR).

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