Ele nasceu onde o Rio de Janeiro decidiu fincar sua universidade mais combativa — a Favela do Esqueleto, chão que hoje abriga o campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) — suprema ironia. Filho de Sônia da Mauriti, e de um mecânico baiano que se afastou da família, Ivanir dos Santos foi criado entre a casa da parteira Dona Abigail e os becos de uma cidade que, nos anos 1960, implementava a frio sua política de "higienização". Tinha sete anos quando o Estado bateu à porta da família e o arrancou dos braços da mãe.
O que veio depois — doze anos de internato no Serviço de Assistência ao Menor (SAM) e na Funabem, o assassinato forjado como suicídio da mulher que o trouxe à vida, as ameaças de morte, os tiros disparados contra o carro onde estava com o filho caçula no colo, a bala que matou outro jovem em seu lugar — é a matéria bruta com que se esculpe um sobrevivente. Mas Ivanir não se contentou em sobreviver. Fez da existência uma usina de sentidos, ergueu sobre as ruínas do que parecia uma biografia perdida uma cátedra, um terreiro e uma trincheira.
Hoje, aos 71 anos, ele é doutor em História Comparada e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Babalaô do Culto de Ifá — "pai do segredo", na precisa acepção iorubá —, liderança internacional da luta pela liberdade religiosa, interlocutor do saudoso Papa Francisco e premiado por governos que, paradoxalmente, também patrocinam o racismo que ele combate. Sua história não é de superação romântica, dessas que anestesiam plateias. É a crônica de um homem que, tendo sido tratado como ameaça antes mesmo de atravessar os portões de ferro do internato, decidiu tornar-se um problema definitivo para quem gostaria de vê-lo morto.
A infância interrompida pela caneta de um juiz de menores depositou Ivanir numa engrenagem desenhada para moer corpos negros e pobres. A Funabem, herdeira do antigo SAM, não foi concebida para formar intelectuais: era o braço "social" da ditadura, a fábrica de disciplina que classificava meninos como ele na categoria de "pré-delinquentes". Contudo, na grande ironia que acompanha a sua trajetória, foi exatamente ali — entre castigos físicos, violência institucional e o odor de morte das celas — que Ivanir encontrou o acesso ao ensino formal que lhe fora negado do lado de fora. Na Escola XV, unidade de elite dentro do sistema, estudou num ginásio de exigência comparável à do Colégio Pedro II, aprendeu música, integrou a banda, devorou revistas e gibis que os colegas traziam das férias, refugiou-se em livros, organizou bailes e sessões de cinema, liderou quadrilhas juninas. Ali, forjou o que hoje chama de "grupo de elite interna". E, quando a ditadura apertou o cerco, cassou o jornal O Grito, ele e seus companheiros criaram O Sombra, um veículo clandestino que circulava entre os internos. Ainda adolescente, redigiu o estatuto de um grêmio estudantil e tentou organizar eleições diretas — afronta insuportável ao regime, que o dissolveu em tempo recorde. Aos 18 anos, desligado do internato sem ter para onde ir, Ivanir foi trabalhar como operário. Levava na bagagem muito mais do que um diploma: tinha a certeza, plantada pelo professor de música Luiz Gonzaga Pires, de que ele "servia para advogado ou fazer política".
A política veio cedo — e veio para ficar. Em 1979, fundou a Associação de Ex-Alunos da Funabem, embrião de todas as suas batalhas posteriores. A Pastoral do Menor, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, o Estatuto da Criança e do Adolescente — gestado sob a campanha "Não Mate Nossas Crianças" — são capítulos que levam, direta ou indiretamente, a impressão digital de Ivanir dos Santos. Enquanto isso, ele estudava. Formou-se em Pedagogia na Faculdade Notre Dame, em Ipanema — corpo negro transitando entre 99,9% de jovens brancos de classe média alta. No mesmo período, iniciou-se no Candomblé em 1981, sob a orientação de Mãe Dusse, do Omolocô. Muito mais tarde, em 2006, cruzaria o Atlântico para ser iniciado em Ifá, em Ogbomosho, na Nigéria, tornando-se Babalaô — sacerdote, intérprete do oráculo, guardião de um corpo de conhecimento milenar que sua fala trata como outra ciência possível. "Não é a ciência acadêmica clássica, mas é um corpo de conhecimento", frisa. "Não podemos tratar esses saberes de forma pejorativa."
Ao longo de quatro décadas, Ivanir dos Santos tornou-se uma das figuras mais incômodas — e, por isso mesmo, mais necessárias — do Brasil. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que fundou em 2008, e a Caminhada pela Liberdade Religiosa de Copacabana, que lidera anualmente, são projetos que reúnem no mesmo espaço católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, budistas, ciganos, povos de terreiros e não religiosos. A Anistia Internacional já lhe dedicou campanhas de proteção, após as inúmeras cartas de ameaça e os atentados que sofreu. Um deles, à porta do CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas); outro, mais grave, quando policiais do 14º Batalhão alvejaram seu carro em frente à sua casa, na Mangueira, enquanto ele segurava o filho caçula. "Só não fui executado ali porque minha companheira estava comigo e interveio", diz, com a mesma dor com que relata que um outro filho seu escapou de ser assassinado porque os policiais o confundiram, por uma fotografia, com outra pessoa — que acabou morta em seu lugar. Questionado sobre o que o mantém de pé, responde: "Quando se tem uma causa maior do que a própria vida, compreende-se que o indivíduo é secundário". E acrescenta, com a autoridade de quem lê o opelê-ifá como se lesse um mapa: "Sinto-me protegido por uma força superior".
A entrevista foi colhida por telefone por Thiago Gama mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a entrevista foi oferecida para o Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
O senhor ingressou na Funabem como interno e saiu de lá com uma vocação que o trouxe à UFRJ. Sabemos que a Funabem foi historicamente construída para disciplinar corpos negros e corpos pobres — ela não foi pensada para formar intelectuais. O que o Estado imprimiu na sua subjetividade, o que colocou dentro do senhor, dentro daquelas paredes, sem que ele mesmo percebesse o que estava a forjar?
Prof. Dr. Babalaô Ivanir dos Santos: É preciso observar um dado importante: nos anos 1950 e 1960, os negros e os pobres neste país não tinham o direito ao ensino garantido. Não era estritamente proibido, mas o acesso era inexistente na prática. Eram pouquíssimas as famílias negras que conseguiam chegar ao ensino primário e, depois, ao ginasial. Essa era uma dificuldade estrutural.
A grande contradição é que, tanto no SAM — o Serviço de Assistência ao Menor — quanto na Funabem, havia escola. Os internos frequentavam aulas. Ali, ironicamente, encontrava-se o maior número de pessoas negras com acesso ao ensino formal, ao primário e ao ginasial.
Frequentei, no SAM, a escola do Instituto Santa Terezinha, entre 1962 e 1964. Quando o SAM foi extinto e deu lugar à Funabem, em 1964, fui transferido para a escola Padre Anchieta, em Jacarepaguá — que mais tarde passou a chamar-se Escola São Geraldo. Quando cheguei ao quarto ano, fui novamente transferido, desta vez para a Escola XV, com o objetivo de fazer a admissão e o ginasial. A Escola XV tinha um nível de exigência comparável ao do Colégio Pedro II e das escolas técnicas. Se existe um lugar onde o preto e o pobre tinham um ensino público de real qualidade — e ressalvo que isso não se aplicava a todas as unidades da Funabem nem do SAM —, esse lugar era a Escola XV.
Embora houvesse castigos físicos e violência institucional cotidiana, havia também comida garantida todos os dias, de melhor qualidade do que nas outras unidades: carne, proteína, sobremesa, café da manhã, almoço e jantar. E era uma boa escola. A Escola XV funcionava com o chamado Ginasial Industrial Básico: pela manhã, metade da turma tinha aulas teóricas enquanto a outra metade ia para as oficinas aprender uma profissão; à tarde, as turmas trocavam. Acabei integrando o que costumo chamar de um grupo de elite interna: a banda de música. Foi ali que aprendi música.
Tive, portanto, dentro de todas essas contradições, um ensino de qualidade. Isso moldou a minha trajetória. Na Escola XV, a liderança que havia sido despertada nas escolas anteriores se ampliou: organizei bailes, levei sessões de cinema para outras escolas da fundação, organizei quadrilhas de festas juninas de forma mais estruturada.
Ali mesmo, tínhamos um jornal chamado O Grito. Ele surgiu porque, ao chegar à quarta série ginasial, os alunos ganhavam algumas regalias, por ser o último período na instituição. Mas O Grito foi cassado com o endurecimento da ditadura militar. Em resposta, criamos o jornal Sombra, de caráter clandestino.
Nesse período, cursava o primeiro ano do científico. Como não tinha pai nem mãe — não tinha ninguém por mim —, e estava prestes a ser desligado da instituição sem ter para onde ir, decidi organizar um Grêmio estudantil, com estatuto redigido, para que houvesse eleições diretas, em plena ditadura militar. A resposta da instituição foi ilegalizar o Grêmio e transformá-lo num Grêmio Recreativo de sala de jogos. Tive de sair para trabalhar como operário.
Ainda na escola, eu já lia muito. Como não tinha família e não podia sair de férias, ficava na unidade. Os outros alunos, quando voltavam das férias, traziam revistas e gibis. Eu os lia; alguns me eram dados, e eu alugava os demais para conseguir algum dinheiro. Havia toda uma questão de sobrevivência interna da qual ninguém costuma falar.
Tive um professor que foi fundamental — como ser humano e como alguém que abriu a minha consciência: Luiz Gonzaga Pires, meu professor de música. Esse é o lado da história que não se conta habitualmente.
Certa vez, o senhor compartilhou, em sala de aula, a história de sua mãe. Gostaria de dar ao senhor a oportunidade de contá-la aqui, se se sentir à vontade para isso.
Não tenho nenhum problema em falar sobre isso. Inclusive, essa história está presente na minha tese de doutorado, num prólogo que escrevi especificamente para contá-la.
Nasci na Favela do Esqueleto, que é o local onde hoje se situa o campus da UERJ. Sou filho de uma mulher de Campos dos Goytacazes — de um distrito chamado Santo Eduardo, que cruzava com Santa Maria. É uma memória muito escassa que guardo dessa primeira infância. Ela veio ao Rio de Janeiro trabalhar como empregada doméstica e acabou por conhecer um homem baiano, mecânico de profissão. Engravidou dele e teve um filho, que sou eu. Morávamos na Favela do Esqueleto. Em algum momento, ele se afastou dela, por razões que nunca ficaram claras, e ela se viu obrigada a criar o filho sozinha. Naquela época, as patroas raramente aceitavam empregadas domésticas com crianças. Então, para conseguir sustentar o filho, ela se deslocou para a região chamada zona do mangue, próxima à Praça Onze, numa rua chamada Comandante Maurity, onde se prostituía.
Quando eu tinha entre sete e oito anos de idade, fui retirado dela. Andava sempre pelas cercanias, mas o que se configura, com clareza hoje, é que se tratou de um rapto institucional: tiraram-me dela e levaram-me para o SAM. A partir desse momento, nunca mais a vi.
Mais tarde, quando já estava na Escola XV, com cerca de 14 anos, num domingo em que fui assistir a um jogo no Maracanã — única saída permitida aos alunos sem família —, reencontrei um colega chamado Carlos Henrique, que morava na Praça Onze. Decidi ir com ele até lá, ávido por tentar reencontrar minha mãe depois de tantos anos. Foi aí que me disseram — pois todos me conheciam naquela região — que ela havia morrido. Disseram que tinha jogado álcool sobre o próprio corpo e ateado fogo. Pode imaginar o impacto que é para um jovem de 14 anos receber uma notícia dessas?
Voltei para a Escola XV em estado de choque. Saí de lá mais tarde para trabalhar como operário, mas mantive sempre comigo o desejo de resgatar essa história, de procurar as origens da família, de chegar até os parentes dela em Campos. Nessa peregrinação, descobri que tive um padrasto no Esqueleto, na Mangueira, um homem chamado Broto. Rastreei a família dele por meio de um ex-aluno, que me indicou que moravam na Vila Kennedy — para onde boa parte dos moradores do Esqueleto havia sido removida. Fui até lá e descobri que esse homem estava preso na Ilha Grande. Desloquei-me até à Ilha Grande para conversar com ele.
Nessa caminhada de reconstrução da memória, já adulto, quando exercia o cargo de Subsecretário de Estado de Direitos Humanos no governo de Benedita da Silva, tive de voltar à Praça Onze. Havia alguém que havia namorado minha mãe e queria me dar informações importantes. Foi aí que descobri que as pessoas não falavam abertamente sobre o assunto, mas que ela não tinha se suicidado. Na verdade, ela havia sido assassinada por um agente policial da Invernada de Olaria.
Essa versão foi confirmada recentemente, no dia 23 de abril, dia de São Jorge. Eu caminhava perto da Igreja de São Jorge, no centro do Rio, quando encontrei um grupo de pessoas do Candomblé, do axé Bamboxê. Um senhor negro, Ogã, olhou para mim e disse: "Eu conheço a sua história. Conheço bem a história de sua mãe; foi forjado um suicídio que, na verdade, não foi suicídio nenhum." Ele sabia de tudo — disse-me inclusive que o autor havia sido um delegado de polícia. Conhecia os detalhes, mas não me revelou o nome. E a verdade é que o nome já não é o que mais me importa. O que importa é o fato: ela não se suicidou.
O senhor é mestre, doutor e pós-doutor, e retornou à academia após os 60 anos de idade — não por necessidade de titulação, mas, como costuma afirmar, para inspirar outras pessoas. O que a academia lhe proporcionou, em termos de ferramentas ou de visão, que o terreiro já não lhe havia entregado muito tempo antes?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que o terreiro me conferiu um sentido de pertencimento coletivo. A ancestralidade me guiou durante todo o percurso. Diria que o terreiro me humanizou.
Quando se é criado num internato, a vida transforma o indivíduo numa pessoa muito dura. A sabedoria milenar africana preservada no Brasil possibilita uma descoberta fundamental: a de que se é filho de todo o mundo, pai de todo o mundo, amigo de todo o mundo. Passa-se a ter uma família ampliada — o que foi decisivo para mim, que não tive família biológica presente.
Um dado importante na cronologia: em 1974, logo após sair da Funabem, trabalhei como operário na AGGS, uma empresa de artes gráficas do Gomes de Sousa. Aos trancos e barrancos, concluí o ensino médio e fiz o vestibular, indo estudar na Notre Dame, uma faculdade católica. O contraste era absoluto: eu vinha de um lugar onde 98% das pessoas eram negras e pobres, inseridas num discurso oficial que as classificava, na melhor das hipóteses, como em situação de "pré-delinquência". De repente, estava numa faculdade de elite em Ipanema, onde 99,9% das pessoas eram brancas e de classe média alta. Por ser uma instituição confessional, era obrigado a cursar Teologia. Assim, estudei Teologia no mesmo período em que me iniciava no Candomblé, em 1981. Entrei na faculdade em 1979, formei-me em Pedagogia e fui, desde sempre, um militante. Até hoje, sou militante do movimento negro e da luta pelos direitos humanos.
Nunca busquei o título acadêmico de forma imediata. Já era, de certa forma, um intelectual orgânico — e um intelectual público muito antes de retornar à pós-graduação. Havia pautas, como o próprio ECA e a abolição do trabalho infantil, nas quais contribuímos diretamente para a formulação. O Estatuto da Criança e do Adolescente nasceu a partir de uma campanha intitulada "Não Mate Nossas Crianças". Fundei a Associação de Ex-alunos da Funabem em 1979; foi a partir dessa associação que muitos processos começaram. A Pastoral do Menor surgiu um pouco depois, assim como o Movimento de Meninos e Meninas de Rua.
Estive envolvido em todas as agendas contemporâneas do movimento negro — a política de cotas, a Conferência de Durban, pesquisas e debates públicos. Até que, entre 2013 e 2014, o professor Chevitarese me pediu auxílio para organizar um congresso. Eu estava à frente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e organizávamos a Caminhada pela Liberdade Religiosa em Copacabana, todo terceiro domingo de setembro. Ao me ouvir falar sobre Estado laico e democracia, Chevitarese me convidou para o doutorado. Muniz Sodré, ao me ouvir no mesmo contexto, foi mais direto: disse-me que eu teria de fazer o doutorado com ele, porque "aquela narrativa não existia na academia". Junto com o professor Flávio Gomes — que viria a ser também meu orientador —, convenceram-me de que era politicamente importante ocupar aquele espaço acadêmico.
Voltei já com cerca de 60 anos. Costumo dizer que a academia sistematizou a minha experiência de vida. Minha tese, intitulada Marchar não é caminhar, compara a Marcha para Jesus com a Caminhada pela Liberdade Religiosa, analisando o que é o autoritarismo de quem tenta impor uma religião aos outros e o que é a convivência em diálogo. Quando entrei na pós-graduação, pedi para ingressar no mestrado, pois sentia que estava há muito tempo fora. Mas, após um ano, na qualificação, a banca me enviou diretamente ao doutorado. Não cheguei a defender dissertação de mestrado. Concluí o doutorado, fiz o pós-doutorado e tornei-me professor colaborador no Programa de História Comparada da UFRJ, orientando mestrado e doutorado.
O que molda a minha reflexão é a experiência. Trabalho com a ideia de que no Candomblé existe uma sabedoria intrínseca, e a academia é o suporte, a instrução formal. O desafio é fazer esses dois saberes dialogarem, sem que um tente dominar o outro como se fosse a única verdade absoluta.
A academia é um lugar de autoridade na sociedade, mas não pode ignorar as trajetórias de vida e os saberes dos grupos tradicionais — onde também existe ciência. Não é a ciência acadêmica clássica, mas é um corpo de conhecimento. Não podemos tratar esses saberes de forma pejorativa. Não sou um pensador cartesiano; a academia é muito cartesiana, mas procuro manter esse diálogo constante entre o ensino e a aprendizagem. O professor ensina, mas também aprende.
O senhor viaja todos os anos à Nigéria. Para um público que, em larga medida, não conhece as nuances do Candomblé — seja ele católico progressista, seja de esquerda laica —, gostaria que o senhor explicasse o que é o Candomblé, qual a sua diferença fundamental em relação à Umbanda, e o que é o Culto de Ifá. E por que a Nigéria é uma paragem obrigatória anual na sua vida?
Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que, como aluno da Funabem, fui batizado na Igreja Católica. Na instituição, éramos obrigados a assistir à missa todos os domingos. Na juventude, toquei em muitos grupos de jovens da Igreja nos anos 1970 — sou músico, embora poucos saibam disso. A minha aproximação inicial com a matriz africana deu-se por volta de 1974 ou 1975, através da Mãe Dusse, que era do Omolocô — vertente da umbanda negra mais tradicional. Fui iniciado no Candomblé em 1981 e, em 2006, fui iniciado em Ifá, na Nigéria. Não fui "buscar" algo: fui conduzido até lá.
A minha primeira viagem internacional, curiosamente, não foi para a África. Foi para Cuba e para Moscou, em 1984: era vice-presidente do comitê pró-Festival Mundial da Juventude, que se realizaria em Moscou em 1985, em plena abertura do regime militar. Mas, em relação à Nigéria, fui iniciado para Ifá na cidade de Ogbomosho. Vou à Nigéria para vivenciar a relação comunitária com a comunidade na qual fui iniciado e para participar do meu festival de Ifá.
Sobre as diferenças: a Umbanda não é uma invenção do início do século XX, como muitos pensam. As pesquisas atuais demonstram que a Umbanda, vinda da macumba carioca e de outras manifestações bantos, já existia muito antes de Zélio de Moraes. A Umbanda de Zélio de Moraes, essa sim, tem uma base kardecista e cristã. Isso está referenciado na minha tese e no meu livro Marchar não é caminhar, pela Editora Pallas.
Já o Candomblé é uma recriação brasileira, ocorrida no século XIX, das tradições iorubás, que acabou influenciando expressões fons e angolanas, todas muito ligadas às tradições africanas.
Ifá é o oráculo, é o caminho. Não há contradição entre Ifá e Candomblé — não existe Orixá que não exija a consulta a Ifá, seja pelo jogo de búzios, seja pelo opelê-ifá, que é um cordão de consulta, seja pelo ikin, as sementes sagradas utilizadas na adivinhação. No Brasil, alguns tentam separá-los, mas na tradição iorubá qualquer iniciação exige a consulta ao oráculo para ouvir os sinais. Para que os católicos compreendam, basta olhar para o Antigo Testamento: lá existia a consulta ao oráculo, o diálogo com Deus através de sinais. O Culto de Ifá é essa tradição oracular milenar — e vários povos têm, cada um à sua maneira, essa cultura de comunicação com o Criador. Sou, aliás, consultor religioso da novela Nobreza do amor, da Rede Globo, onde essa tradição está representada.
O senhor é autor de documentos sobre violência policial e institucional e denuncia recorrentemente violências praticadas por setores neopentecostais contra terreiros. Ao mesmo tempo, já se posicionou em defesa da Igreja Católica diante de ataques semelhantes. A pergunta é direta: o senhor já foi ameaçado de morte? E, se foi, o que lhe dá a força para não recuar?
Não apenas fui ameaçado — sofri atentados reais. Houve um período em que andei com segurança policial permanente. Já dispararam contra a porta do CEAP; recebi inúmeras cartas de ameaça. A Anistia Internacional chegou a fazer uma campanha internacional para me proteger. Meu carro foi alvejado por policiais do 14º Batalhão em frente à minha casa, na Mangueira, enquanto eu estava com o filho caçula ao colo. Só não fui executado ali porque minha companheira estava comigo e interveio; os policiais acabaram por me levar à delegacia, onde o delegado me reconheceu. Um outro filho meu quase foi assassinado: policiais o confundiram comigo através de uma fotografia e acabaram por matar outra pessoa no lugar. Passei por tudo isso. E não estou livre de passar de novo.
Mas há algo que me conduz: quando se tem uma causa maior do que a própria vida, compreende-se que o indivíduo é secundário. Sinto-me protegido por uma força superior. Já estive em pelo menos duas ocasiões à beira da execução e, em ambas, algo intercedeu no último momento.
É fundamental esclarecer: não luto contra os evangélicos nem contra os cristãos. Luto contra o racismo, contra a intolerância religiosa e contra o desrespeito pelos direitos humanos, independentemente de onde venham os ataques. Sinto-me na obrigação ética de estar ao lado da Igreja Católica quando ela é atacada por acusações de idolatria ou quando tem as suas imagens destruídas. Isso vale para os ciganos, povos de encantaria, para os budistas, para os judeus diante do antissemitismo, para a comunidade islâmica diante da islamofobia, para a comunidade LGBT quando há homofobia, e para as mulheres quando há misoginia. Temos de ser coerentes na luta pelo direito. Não podemos lutar apenas por particularismos.
A Caminhada pela Liberdade Religiosa demonstra que é possível reunir religiosos de matrizes diversas e não religiosos num mesmo espaço. Quando o Papa Francisco esteve no Brasil, fui um dos poucos líderes religiosos não cristãos a encontrá-lo. Mesmo que eu esteja ameaçado, se cheguei aos 71 anos de vida e sobrevivi, é porque havia um propósito a cumprir.
Que energia o senhor sentiu nesse encontro com o Papa Francisco? O que um Babalorixá sente quando abraça o chefe da Igreja Católica?
Quando fui iniciado no Culto de Ifá, foi-me revelado que eu teria um encontro com uma pessoa muito importante. O oráculo sempre me disse isso, e eu não sabia o que seria. Em janeiro de 2013, quando fui à Nigéria cumprir minhas obrigações espirituais no festival de Ifá, o oráculo me disse que seria naquele ano que esse encontro aconteceria.
Quando voltei ao Brasil, logo em março, recebi um telefonema do diácono Nelson, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, em nome do Cardeal Arcebispo D. Orani João Tempesta, O.Cist, pedindo meus dados — sob a condição de que eu mantivesse a informação em absoluto sigilo. Fui informado de que havia sido escolhido pela Arquidiocese para encontrar o Papa.
Houve três tentativas. A primeira foi cancelada porque ele ficou gripado. A segunda, em Copacabana, foi cancelada por causa da chuva. A última possibilidade seria um encontro no Theatro Municipal. As outras lideranças religiosas, temendo novo cancelamento, não foram. Eu fui. Quando cheguei e fui credenciado, disseram-me que me sentaria logo à frente. Apenas eu e o representante das lideranças religiosas indígenas estávamos presentes.
Tratava-se do maior líder da Igreja Católica do mundo, em um país historicamente marcado pela intolerância religiosa e pelo papel que a própria Igreja Católica teve na escravidão — ela foi o Estado na Colônia e no Império, não podemos esquecer isso. Num cenário como esse, o encontro entre a principal liderança católica mundial e um Babalaô foi histórico e simbólico. O Criador promoveu esse encontro. Não era o Ivanir ali: era o representante de uma religiosidade de matriz africana, portador de um simbolismo de resistência e de presença que representa milhões de pessoas. Não foi um ato de subordinação, mas um abraço fraterno entre duas pessoas que exercem uma atividade religiosa de peso simbólico distinto. E há um ponto que não pode ser esquecido: tudo começa na África. O Éden é lá. Todo o constructo religioso — inclusive o dos povos hebreus — têm raízes africanas. Foi o encontro da origem. O encontro que demonstra que o Criador é um só.
O senhor é reconhecido pela disposição para o diálogo em qualquer contexto. No entanto, há uma pessoa no Brasil com quem o senhor recusa sistematicamente o diálogo: Silas Malafaia. Por quê?
Vou explicar de forma simples. Quem lembra do meu debate com ele no Programa do Bial, da TV-Globo, sabe que o convidei para a Caminhada pela Liberdade Religiosa, e ele recusou, alegando que era um ato político. Ao longo de todos esses anos, ele não fez outra coisa na vida. O que afirmou recusar, foi exatamente o que praticou ininterruptamente. Logo depois do debate, passou a me tratar com um certo desrespeito — e deixo claro que não divirjo da pessoa, mas do seu pensamento. Há uma diferença.
Naquele debate, fui muito respeitoso. Mas Malafaia tem uma postura de arrogância e prepotência que não condiz com o cristianismo. E há, na forma como lida com interlocutores negros, uma componente racista muito clara. É muito comum que pessoas brancas não se coloquem no mesmo plano quando o interlocutor é negro.
O segundo motivo foi a questão do réveillon do Rio. Quando levantei a discussão sobre o palco gospel, fui extremamente cortês: disse que nada tinha contra o palco em si, mas que exigia equidade, lembrando que a tradição de passar o ano de branco na praia foi criada pelos umbandistas — qualquer arquivo de memória do país pode comprovar isso. Em resposta, ele me atacou de forma grosseira e pessoal. Não é uma pessoa preparada para o debate.
Não se consegue dialogar com quem só ouve a própria voz. Diálogo exige a capacidade de ouvir, de reconhecer a divergência e, eventualmente, encontrar convergências. O que não funciona é o grito no lugar do argumento. Se um dia ele mudar de postura e quiser uma conversa baseada no respeito e no argumento, estarei disponível.
A sociedade brasileira está exausta desta polarização hostil, que divide famílias e ambientes de trabalho. O Brasil precisa crescer através do diálogo — e diálogo significa ter a capacidade de ouvir a divergência sem tentar medir a fé do outro. Fé é subjetiva. Não há régua para medir a fé de ninguém. Quando alguém coloca a fé como argumento numa discussão, eu interrompo — porque a partir daí a conversa não avança.
Antes de 2019, já havia recebido outros reconhecimentos: em 1996, o Prêmio Adolph Bloch, conferido pela Comunidade Judaica no Rio de Janeiro; em 2001, na Conferência de Durban, um prêmio internacional da UNESCO, concedido pela comunidade do Bahrein; e um Prêmio de Direitos Humanos no governo Dilma, pela Caminhada pela Liberdade Religiosa.
Em 2019, recebi o prêmio do Departamento de Estado americano num momento muito difícil para o Brasil. O governo que estava aqui instalado incentivava a intolerância religiosa. Receber esse reconhecimento foi, de fato, paradoxal: estávamos sob as administrações de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil, governos que, em muitos aspectos, incentivavam a intolerância, o racismo e a misoginia. Sou uma pessoa progressista. Quase não aceitei o prêmio por questões ideológicas, mas fui convencido de que se tratava de um reconhecimento ao trabalho, não a um governo específico. Fui o único representante do Hemisfério Ocidental a recebê-lo; os outros três premiados eram do Chipre, do Iraque e do Sudão.
Naquele momento de grande conservadorismo no Brasil, o prêmio funcionou como uma proteção e conferiu visibilidade internacional a um grupo religioso perseguido. Uma pessoa negra, do Candomblé, recebendo um reconhecimento dessa dimensão. Pareceu-me também que o Departamento de Estado dos Estados Unidos, apesar de todas as suas contradições internas, estava exercendo um gesto democrático. Recebi o prêmio não como algo pessoal, mas em nome da visibilidade de um grupo religioso que é extremamente perseguido — o que me incentiva a continuar a luta que realizamos até hoje.
Para encerrar, gostaria que o senhor deixasse suas últimas palavras sobre o Cais do Valongo, a Pequena África no Rio de Janeiro, e sobre o que significa o pertencimento negro no Brasil de hoje.
O Cais do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados no Brasil — a maior leva entrou por ali. Mas é importante observar que não entrou apenas mão de obra escravizada. Por aquele cais também chegaram a nossa espiritualidade, a nossa cultura, a nossa sociabilidade, o conhecimento científico dos ferreiros, o conhecimento da medicina. As pessoas imaginam que foi só trabalho forçado. Foi muito mais do que isso, e isso marcou profundamente a sociedade brasileira.
Precisamos olhar para o Cais do Valongo e para a Pequena África como um lugar de esperança — que marca a civilidade do nosso país. A Pequena África é resistência. Mas é também uma marca muito dura. A eugenia praticada ali — para retirar as pessoas negras daquele lugar e dispersá-las pela cidade, a fim de transformar o Rio numa cidade de aparência europeia — é um capítulo que não pode ser esquecido.
A descoberta do Cais trouxe uma memória muito forte. Mas a bem da verdade: ele não foi descoberto. Todo mundo sabia que estava ali. Qualquer historiador sabe que abaixo do Cais da Imperatriz estava o Cais do Valongo. Em frente, está a Docas Pedro II, criada por André Rebouças. É um centro de memória. O Brasil e o Rio de Janeiro precisam olhar para ali para compreender a contribuição dos africanos à cidade e ao país.
Não podemos esquecer que os ex-escravizados deste país não receberam o mesmo amparo que os imigrantes europeus receberam do Estado — o mesmo incentivo, o mesmo apoio na inserção social. Isso é um ponto central do debate sobre reparações que, com o reconhecimento da ONU de que a escravidão transatlântica foi o maior crime contra a humanidade, agora se abre com mais força. Esse debate precisa ser feito com serenidade e responsabilidade — por negros e brancos juntos.
A Pequena África não pode ser apenas memória e sentimento. Tem de ser uma possibilidade — aquela que a República não conseguiu dar: o direito pleno de cidadania para essa população.
Uma boa escola, um bom lugar para morar, saúde de qualidade, emprego com dignidade. Isso, com certeza, devolveria ao Brasil algo que ele ainda não tem. Quem discute segurança pública apenas como ameaça, sem falar em investimento em educação e saúde, está errado. Não existe solução para a violência sem políticas públicas e respeito à cidadania. Moro no Morro da Mangueira. O fato de morar numa favela me tira o direito de ser cidadão? Onde está escrito isso?
Eu poderia estar morto há muito tempo. Se não dermos às pessoas a possibilidade de uma educação de qualidade e de uma contribuição real à sociedade, isso é o que continuará a acontecer. O que me move — e o que espero inspirar em outros — é que a educação ninguém tira de você.
A Nobreza do Amor — Telenovela exibida pela TV Globo em 2026, escrita por Duca Rachid e Júlio Fischer. A trama, ambientada em um reino africano fictício, mobiliza elementos de ancestralidade e realeza negra. Ivanir dos Santos foi consultor da produção.
AGGS (Artes Gráficas Gomes de Sousa) — Empresa do ramo gráfico fundada por Gilberto Huber, onde Ivanir trabalhou como operário após deixar a Funabem. A gráfica foi uma das maiores do país nas décadas de 1970 e 1980.
Aliança para o Progresso — Programa de ajuda econômica e social lançado pelo presidente John F. Kennedy em 1961. Financiou parte das remoções de favelas no Rio de Janeiro, incluindo a construção da Vila Kennedy.
André Rebouças (1838-1898) — Engenheiro militar, inventor e abolicionista negro. Junto com o irmão Antônio, foi responsável por importantes obras de infraestrutura, como as Docas Pedro II, e atuou intensamente no movimento pelo fim da escravidão.
Axé Bamboxê — Família de axé do Candomblé que remonta a Bamboxê Obitikô (Rodolfo Manoel Martins de Andrade), babalaô e sacerdote de Xangô, figura central na expansão do culto aos orixás na Bahia e no Rio de Janeiro no século XIX.
Babalaô (ou Babalawo) — Sacerdote do Culto de Ifá, iniciado nos mistérios de Orumilá, a divindade da adivinhação. O termo, do iorubá, significa "pai do segredo". Ivanir foi iniciado como babalaô em Ogbomosho, na Nigéria, em 2006.
Benedita da Silva — Professora, assistente social e política. Primeira mulher negra a ser eleita deputada federal constituinte, senadora e governadora do estado do Rio de Janeiro. Ivanir foi seu subsecretário de Direitos Humanos.
Cais do Valongo — Principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, localizado na região portuária do Rio de Janeiro. Estima-se que por ali tenham entrado cerca de um milhão de pessoas entre os séculos XVIII e XIX. Foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2017.
Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa — Ato inter-religioso anual realizado na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, sempre no terceiro domingo de setembro. Criada por Ivanir dos Santos e pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, em 2025 chegou à 18ª edição.
Candomblé — Religião afro-brasileira que se organizou na Bahia ao longo do século XIX a partir da fusão de tradições de diversas etnias africanas, sobretudo iorubás, fons (jejes) e bantos. Caracteriza-se pelo culto aos orixás e pela prática de rituais que envolvem música, dança, oferendas e transe ritualístico.
Carlos Lacerda (1914-1977) — Governador do estado da Guanabara entre 1960 e 1965. Sua administração ficou marcada por uma ampla política de remoção de favelas, incluindo a extinção da Favela do Esqueleto para dar lugar ao campus da UERJ.
CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas) — Organização não governamental fundada por Ivanir dos Santos, sediada no Rio de Janeiro. Atua há mais de três décadas na defesa dos direitos humanos, no combate ao racismo e à intolerância religiosa e na promoção de políticas de ações afirmativas.
Colônia e Império no Brasil — Períodos históricos em que a Igreja Católica detinha o padroado régio, exercendo funções de Estado. Essa ligação estrutural entre o trono e o altar é mencionada por Ivanir para contextualizar o peso simbólico de seu encontro com o Papa Francisco.
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) — Fundada em 2008, reúne lideranças de diferentes tradições religiosas com o objetivo de mapear, denunciar e combater casos de desrespeito e violência motivados por crença. Ivanir é seu interlocutor e um de seus principais articuladores.
Conferência de Durban — Nome pelo qual ficou conhecida a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, realizada em setembro de 2001, em Durban, na África do Sul. Ivanir recebeu um prêmio da UNESCO durante o evento.
Docas Pedro II — Obra portuária projetada pelo engenheiro André Rebouças e seu irmão Antônio, hoje integrada ao espaço do Cais do Valongo.
D. Orani João Tempesta, O.Cist. — Cardeal brasileiro, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro desde 2009. Foi o responsável por viabilizar o encontro entre Ivanir dos Santos e o Papa Francisco em 2013.
Eugenia — Teoria pseudocientífica que preconiza o "melhoramento" da população por meio do controle da reprodução. No Brasil do início do século XX, inspirou políticas de embranquecimento e remoção de populações negras de áreas centrais.
Escola XV (Escola Técnica Estadual XV de Novembro) — Unidade da Funabem localizada no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro. Oferecia ensino de qualidade, com currículo equivalente ao do Colégio Pedro II e formação profissionalizante. Foi nessa escola que Ivanir estudou e desenvolveu sua liderança.
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — Lei nº 8.069, sancionada em 13 de julho de 1990. Substituiu o antigo Código de Menores e estabeleceu a doutrina da proteção integral, reconhecendo crianças e adolescentes como sujeitos de direito. Ivanir participou ativamente de sua formulação.
Favela do Esqueleto — Comunidade que existiu entre as décadas de 1930 e 1960 no terreno onde hoje se encontra o campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Foi removida durante o governo de Carlos Lacerda.
Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor) — Criada pela Lei nº 4.513, de 1º de dezembro de 1964, em substituição ao SAM. Vinculada ao Ministério da Justiça, foi o principal instrumento da ditadura militar para a assistência — e o controle — de crianças e adolescentes pobres.
Flávio Gomes, professor doutor — Professor associado do Instituto de História da UFRJ e um dos mais destacados historiadores da escravidão e da pós-emancipação no Brasil. Orientou Ivanir dos Santos no doutorado.
Ginasial Industrial Básico — Modalidade de ensino técnico-profissionalizante oferecida na Escola XV. Dividia o dia entre disciplinas teóricas e oficinas de marcenaria, serralheria, eletricidade, entre outras.
Marchar não é caminhar — Livro de Ivanir dos Santos publicado pela Editora Pallas (2019). Resulta de sua tese de doutorado e analisa as interfaces políticas e sociais da Marcha para Jesus e da Caminhada pela Liberdade Religiosa.
Ifá — Sistema filosófico-religioso de origem iorubá baseado na adivinhação e no culto a Orumilá. Ivanir foi iniciado em Ifá na cidade de Ogbomosho, na Nigéria, e retorna anualmente ao país para participar do festival ligado à sua comunidade religiosa.
Igreja de São Jorge — Templo católico situado no centro do Rio de Janeiro. São Jorge é sincretizado no Candomblé com Ogum, o orixá da guerra. Foi nas imediações dessa igreja, no dia 23 de abril, que Ivanir recebeu a confirmação de que sua mãe fora assassinada.
Ilha Grande — Localizada no litoral sul fluminense, abrigou o presídio Cândido Mendes, que funcionou entre 1903 e 1994. Foi lá que Ivanir entrevistou seu padrasto, Broto, durante a peregrinação em busca da história de sua mãe.
Invernada de Olaria — Delegacia de polícia situada no bairro de Olaria, subúrbio do Rio de Janeiro. Notabilizou-se nas décadas de 1960 e 1970 pela brutalidade no trato de detidos, sendo associada a práticas de tortura e ao chamado "Esquadrão da Morte". Foi um agente dessa delegacia quem, segundo apurou Ivanir, assassinou sua mãe e forjou o suicídio.
Jogo de búzios — Método divinatório do Candomblé no qual um sacerdote lança conchas e interpreta sua disposição para transmitir a mensagem dos orixás.
Jornal O Grito — Periódico estudantil que circulava entre os internos da Escola XV. Foi cassado pelo endurecimento da ditadura militar, levando Ivanir e seus colegas a criar o clandestino Sombra.
Luiz Gonzaga Pires — Professor de música e um dos fundadores da banda da antiga Funabem. Teve papel determinante na formação de Ivanir, oferecendo-lhe acolhimento e despertando sua consciência.
Mãe Dusse — Líder religiosa da vertente Omolocô que iniciou Ivanir nos cultos de matriz africana por volta de 1974, no Rio de Janeiro.
Muniz Sodré, professor emérito — Professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ, onde fundou o Programa de Pós-Graduação. Intelectual de referência nos estudos de comunicação, cultura e relações raciais, foi quem primeiro apontou que a narrativa de Ivanir precisava ocupar a academia.
Notre Dame, Faculdade — Instituição de ensino superior católica situada em Ipanema, Rio de Janeiro. Ivanir ali cursou Pedagogia e foi obrigado a frequentar aulas de Teologia, no mesmo período em que se iniciava no Candomblé.
Ogã — Título conferido a protetores e auxiliares masculinos nos terreiros de Candomblé. Escolhidos pelo orixá, desempenham funções rituais específicas, como tocar atabaques e zelar pela segurança do espaço sagrado.
Opelê-ifá — Cordão divinatório utilizado por babalaôs no culto de Ifá. É considerado um instrumento auxiliar de Orumilá, a divindade da adivinhação.
Ikin — Sementes sagradas de dendezeiro empregadas na adivinhação do sistema de Ifá. São utilizadas exclusivamente por babalaôs no processo de consulta aos odu.
Omolocô — Religião afro-brasileira sincrética que mescla elementos de tradições bantos, nagôs e espíritas. Ivanir iniciou-se no Omolocô por intermédio de Mãe Dusse antes de ser iniciado no Candomblé e no Culto de Ifá.
Orixá — Divindades do panteão iorubá que representam forças da natureza e arquétipos humanos. São cultuados no Candomblé e na Umbanda, cada qual com seus símbolos, cores, cantos, comidas votivas e domínios específicos (guerra, amor, justiça, cura etc).
Oxalá — Orixá associado à criação do mundo e da espécie humana. Considerado o pai de todos os orixás, representa a paz, a sabedoria e a pureza.
Xangô — Orixá da justiça, dos raios, do trovão e do fogo. Foi rei da cidade de Oió, na atual Nigéria. Bamboxê Obitikô, patriarca do Axé Bamboxê, era seu sacerdote.
Iemanjá — Orixá feminina, mãe de todos os orixás e deusa das águas salgadas. É uma das entidades mais populares das religiões afro-brasileiras, festejada no dia 2 de fevereiro.
Ogum — Orixá da guerra, do ferro, da tecnologia e dos caminhos. No sincretismo católico, é associado a São Jorge. Rege a luta e o trabalho.
Oxóssi — Orixá da caça, da fartura e da prosperidade. Conhecido como "caçador de uma flecha só", é o guardião das matas e dos animais.
Oxum — Orixá feminina das águas doces, do amor, da fertilidade e da riqueza. Seu domínio são os rios e cachoeiras.
Exu — Orixá mensageiro, guardião da comunicação entre os mundos material e espiritual. É a divindade que abre os caminhos e protege as encruzilhadas.
Pastoral do Menor — Organização da Igreja Católica fundada na década de 1970 com a missão de promover e defender a vida de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social.
Pequena África — Denominação dada à região da zona portuária do Rio de Janeiro que, entre os séculos XIX e XX, concentrou forte presença de africanos escravizados e seus descendentes. Abrange locais como a Pedra do Sal e o Cais do Valongo.
Praça Onze — Região do centro do Rio de Janeiro que abrigou uma expressiva comunidade negra e foi berço do samba carioca. Próxima à Zona do Mangue, era o local onde trabalhava Sônia, mãe de Ivanir.
Prêmio Internacional de Liberdade Religiosa — Concedido anualmente pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos a ativistas que se destacam na defesa do direito à liberdade de crença. Ivanir foi o único representante do hemisfério ocidental a recebê-lo em 2019.
SAM (Serviço de Assistência ao Menor) — Criado pelo Decreto-Lei nº 3.799, de 5 de novembro de 1941. Órgão subordinado ao Ministério da Justiça, já era alvo de críticas por seu caráter repressor quando foi extinto e substituído pela Funabem em 1964.
Santo Eduardo — Distrito do município de Campos dos Goytacazes, no interior do estado do Rio de Janeiro. É o local de origem da família materna de Ivanir.
Sombra, jornal — Periódico clandestino criado por Ivanir e seus colegas da Escola XV após a cassação do jornal O Grito, durante os anos mais duros da ditadura militar.
Sônia da Mauriti — Mãe de Ivanir, natural de Campos dos Goytacazes. Trabalhou como empregada doméstica e, posteriormente, foi forçada a se prostituir na Zona do Mangue para sobreviver. Foi assassinada por um agente da Invernada de Olaria, crime maquiado como suicídio até ser denunciado por Ivanir décadas depois.
Umbanda — Religião brasileira que Ivanir divide em duas vertentes: a Umbanda negra (ou macumba carioca), anterior ao século XX, e a Umbanda branca de Zélio Fernandino de Moraes (1891-1975), de base kardecista e cristã.
Vila Kennedy — Conjunto habitacional construído na Zona Oeste do Rio de Janeiro no início da década de 1960. Financiado pela Aliança para o Progresso, foi um dos principais destinos dos moradores removidos da Favela do Esqueleto.