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19 Novembro 2019

Chegaram os dias frios, muitas vezes tristes e, sem precisar nem mesmo decidir, ficamos mais em casa, talvez como eu ao lado de uma lareira, passando horas lendo e pensando. Aprender a pensar significa, de fato, aprender a ler: ler o mundo, as situações, os eventos, o que está "escrito" porque outros o colocaram "preto no branco".

O comentário é de Enzo Bianchi, monge italiano, fundador da Comunidade de Bose, Itália, publicado por la Repubblica, 18-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não é por acaso que na Idade Média faziam derivar a palavra latina intellegere - literalmente "entender" - de intus legere, "ler de dentro". Ler é sempre tentar interrogar e interpretar: para fazer isso, é preciso se afastar do "comércio" que nos rodeia, esquecer o que está presente aos nossos sentidos e concentre-se no que queremos ler. Ler é, portanto, fixar os olhos e a atenção em sinais escritos, em uma sucessão de espaços em branco e traços de tinta dispostos ordenadamente sobre a superfície de uma página, até quase sair de nós mesmos (ou descer em nossas profundezas ...) para mergulhar no escrita.

Para ler, só é preciso encontrar tempo, saber possuir e ordenar tempo, parando de dizer: "Não tenho tempo!", e é preciso um livro ao qual possa dedicar a atenção. Mesmo no meio da multidão, no trem, no ônibus, essa operação permanece possível e o "leitor" se torna, para quem o observa, um ícone de interioridade, uma imagem de recolhimento, uma alusão à jornada da mente. A leitura, de fato, é uma conversa, um diálogo com quem está ausente, que pode estar a milhares de quilômetros de distância no tempo e no espaço: é um receber a palavra de um outro e assumi-la para si, interpretando-a no diálogo da própria intimidade.

Santo Agostinho comparava as Escrituras a um espelho que revela o leitor a si mesmo, Gregório Magno falava da "Escritura que cresce junto com o leitor" e Marcel Proust, no final de sua monumental obra Em busca do tempo perdido, abria a ela novos horizontes, ainda mais ilimitados, afirmando que seus leitores seriam "leitores de si mesmos", já que seu livro era apenas o meio oferecido a eles para que pudessem ler dentro de si mesmos.

Sim, também e sobretudo na nossa sociedade da imagem, a leitura continua sendo uma operação de grande humanização: é uma resistência à ditadura da informação instantânea, é uma viagem empreendida com as palavras do outro, um caminho para edificar a própria interioridade, para aprender e afirmar a liberdade, para comer e beber a palavra, ou seja, alimentar-se! Claro, quando a barbárie avança, se mostra primeiramente como tal justamente pela hostilidade em relação à leitura, até à destruição dos livros, à fogueira das bibliotecas. Não vamos esquecer o aviso de Heinrich Heine: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas!"

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