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12 Novembro 2019

Em 1670, Baruch Spinoza, filósofo holandês de origem judia-portuguesa, publicou uma obra chamada Tratado Político-Teológico, escrita na linguagem científica da época, o latim. Bem, em uma das primeiras páginas, ele formulava seu programa de maneira muito clara e específica: Sedulo curavi actiones humanas non ridere, non lugere, neque detestari, sed solum inteligere [Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por compreendê-las].

O comentário é de Gianfranco Ravasi, cardeal italiano e prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 03-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O empenho constante de sua pesquisa era o de não zombar, nem deplorar, nem odiar, mas compreender em profundidade (intelligere de intus legere) os comportamentos humanos. Esse é um saudável exercício intelectual e ético muito importante, inclusive em nossos dias tão superficiais, onde reinam o berro, a prevaricação e a incompetência, adotados sem pudor como método. Tendo reconhecido esse princípio básico, no entanto, é preciso acrescentar um complemento necessário que equilibra o nosso juízo sobre a realidade de uma maneira mais global. Na verdade, sabemos que nosso conhecimento é polimórfico, é realizado por vários e diferentes canais: é claro que é capital o da inteligência e da racionalidade, mas igualmente importantes são os percursos da estética (arte e literatura), da espiritualidade e da religião (fé e teologia), do amor que tem suas próprias leis. E, nesse ponto, devemos acrescentar o caminho do sentimento, da paixão, da emoção, da intuição, da afetividade: foi precisamente o que Espinosa e, posteriormente, o Iluminismo racionalista procuraram excluir, considerando-o como uma espécie de névoa que o vento cristalino da razão precisaria varrer para longe. Até mesmo os historiadores em sua maioria ignoravam, na reconstrução dos eventos humanos, essa dimensão, ao contrário valorizada pela antropologia, psicologia e ética, para deter-se apenas sobre as ações e os dados factuais e sobre os eventuais projetos decorrentes.

Diferente é a abordagem historiográfica contemporânea que começou a assumir também esses componentes em sua bagagem documental: significativa, nesse sentido, foi - começando pelos franceses Annales já em 1941 - a opção de “reconstruir também a vida afetiva de uma dada época, como afirmava o historiador Lucien Febvre. Em 1985, chegou a ser criado um neologismo horroroso "emocionologia" por Peter e Carol Stearns, enquanto em 2012 um historiador alemão, Jan Plamper, publicou um ensaio intitulado Geschichte und Gefühl, ou seja, "História e sentimento", impropriamente traduzido na versão italiana do 2018 como o equivalente a História das emoções. Dada a qualidade muito simples e essencial das páginas que virão, não é nossa tarefa anexar a impressionante pesquisa que se desenvolveu sobre sentimentos e emoções (já é complexa a distinção de valor entre esses dois termos, frequentemente usados como sinônimos).

Vamos apenas lembrar que duelam entre si duas teses. Existe a concepção "sócio-construtivista" que está convencida da pluralidade experimental e expressiva das várias culturas em relação aos sentimentos: eles seriam moldadas pelas características linguísticas, culturais e sociais dos vários povos e, portanto, mutáveis e variáveis de acordo com as diferentes etnias e civilizações.

Pelo contrário, a visão "universalista" considera que emoções e sentimentos sejam realidades estruturais comuns e inatas para toda a humanidade, tese defendida por neurocientistas como os conhecidos Antonio Damasio e Giacomo Rizzolatti, mas também por psicólogos (Paul Ekman e Silvan Tomkins) e até mesmo por historiadores de arte como David Freedberg. Muito mais simplesmente e redutivamente, nós nos contentaremos em oferecer ao leitor um pequeno florilégio de sentimentos de forma imediata, adotando como código de referência – dada a nossa limitada finalidade de índole moral e religiosa - o texto bíblico que é sempre a base não apenas da espiritualidade, mas também da civilização ocidental. Em alguns casos, haverá expansões que vão além do puro e simples sentimento, levando em consideração o fato de que experiências antropológicas fundamentais como, por exemplo, o amor ou o sofrimento, sempre têm uma implicação emotivo-sentimental.

Por esse motivo, falávamos acima de florilégio, isto é, uma antologia que, semelhante à corola de uma flor, escolhe algumas pétalas com matizes diferentes, mas não esgota o espectro da gama cromática de uma determinada e complexa realidade humana. Para esse propósito, gostaríamos de recorrer apenas a uma exemplificação lexical. Escolhemos apenas dois extremos que também enfrentaremos: a alegria e o sofrimento. Ora, se folharmos o vocabulário dos sinônimos, veremos a multiplicidade variegada dessas duas experiências justamente com base em termos homogêneos.

Assim, ao "alegrar-se" também se aproxima uma sequência de experiências como a alegria, o gozo, o prazer, a bem-aventurança, o êxtase, a euforia, o entusiasmo, a satisfação e assim por diante. Da mesma forma, sob o mesmo guarda-chuva da "dor" ou do "sofrimento", há também a pena, o desespero, a solidão, a tristeza, a amargura, a desolação, o abatimento, as patologias depressivas e muito mais.

Os sentimentos, além disso, geralmente se movem em pares antitéticos porque, por exemplo, ao prazer corresponde em negativo o desprazer, ao amor o ódio, à simpatia a antipatia, à piedade a crueldade, ao respeito o desprezo, em uma lista dupla sem fim. Aliás, em alguns casos, o mesmo sentimento encerra em si essas duas faces: na reação da raiva, pode-se esconder a raiva violenta, que é um vício capital, mas também o desdem pela injustiça, que é, ao contrário, uma virtude, como é atestado pela voz dos profetas bíblicos e do próprio Cristo com suas severas denúncias do mal.

O mesmo pode ser dito do ciúme que pode se transformar em inveja e na posse brutal, mas também é paixão amorosa, tanto que - como será visto - é atribuída ao próprio Deus, e no Cântico dos Cânticos é sinônimo de paixão ardente que floresce do amor (Ct 8.6) Um pouco na linha dessa duplicidade, não necessariamente antitética, escolhemos na série dos termos da nossa mini antologia, propor um título duplo.

Ao primeiro sentimento, que é o dominante e às vezes evoca até uma realidade estrutural da pessoa humana que nós não queremos examinar em sua plenitude e vastidão (vamos pensar, por exemplo, no "amor" ou no "medo"), associamos uma sua degeneração ("luxúria" para o “amor”) ou uma sua variação (o “temor” é sobretudo “respeito” e, por conseguinte, consciência do outro e da sua dignidade, ao contrário do puro e simples “medo”). Os termos intencionalmente não são homogêneos em termos de amplitude, porque resumimos de maneira sintética algumas categorias espirituais muito conhecidas e fáceis de entender, reservando mais espaço para alguns sentimentos menos considerados nos vários tratados teológico-morais. Além disso, de antemão pareamos às várias emoções ou sentimentos algumas nuances, como é evidente nos casos de "júbilo-alegria", "maravilha-espanto", "ódio-rancor", "tristeza-melancolia" e assim por diante.

Sob esse enfoque, se entende o surpreendente fenômeno do antropomorfismo aplicado à divindade pela Bíblia (mas também por outras religiões). Em 2014, realizamos uma breve pesquisa justamente sobre as emoções de Deus, publicada com o título sálmico Ride Colui che sta nei cieli (cf. Salmo 2,4 “Aquele que habita nos céus se rirá”). Portanto, também é possível uma "teologia das emoções e dos sentimentos que se abra não apenas à dimensão moral humana, mas também à dimensão divina transcendente, adotando o caminho clássico da 'analogia'". Como o Livro da Sabedoria sugere, "pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor" (Sab 13: 5). Para ele, portanto, também é possível voltar através de todo o arco-íris das experiências de sua criatura mais alta e "muito boa/bonita" (Gn 1:31), como é aquela humana, "à sua imagem" (1,27). E o ápice desse processo está na Encarnação, naquele homem-Deus, Jesus Cristo, que "sabe compadecer-se das nossas fraquezas, pois, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hb 4, 15).

À margem, observamos que em nosso perfil muito essencial, usamos com certa fluidez uma terminologia categórica que, na área da psicologia é, ao contrário, articulada. Nessa perspectiva, de fato, o "sentimento" tem uma ressonância menos intensa em relação à "paixão" e mais duradoura em relação à "emoção". Recordamos, então, como Umberto Galimberti observa, que "na psicologia o sentimento tem sido objeto de análise fenomenológica e de considerações específicas no âmbito da psicologia profunda". Outro âmbito relevante que não pertence ao itinerário proposto pelo alfabeto temático que agora propomos.

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