01 Setembro 2026
“Hoje, o conhecimento serve para qualquer coisa, mas não é para qualquer um. Vivemos na ilusão de que todo esse poder do conhecimento nos pertence. Na verdade, nós pertencemos aos senhores do conhecimento. O lema baconiano knowledge is power encerra mais verdade do que nunca”, escreve Hermann Bellinghausen, médico, escritor, poeta e editor mexicano, em artigo publicado por La Jornada, 31-08-2026.
Eis o artigo.
O tema é tão recorrente que nós, que nos queixamos, alarmamos e fazemos perguntas sérias, talvez anacrônicas e fora de lugar, já chegamos a entediar os outros. Hoje, enfrentamos mudanças tecnológicas que impactam tudo, das rotinas comuns e dos caprichos inúteis à exploração do conhecimento e à aplicação cósmica ou infinitesimal das capacidades humanas, potencializadas pela ampliação da mente ao delegá-la a máquinas e microcircuitos. Encontraremos um muro pela frente ou não há limites?
As gerações recentes nascem, a cada ano, mais imersas na nova matriz civilizatória global, falsamente igualitária ou emancipadora, mas que produz ilusões suficientes para que ninguém perceba isso, menos ainda aqueles que ocupam o último elo da cadeia alimentar, onde o homem é o lobo do homem. Como lhes ensinar o valor vital da comunidade humana e a dignidade do trabalho, do pensamento, da criação e do aprendizado real?
Dá a impressão de que as pessoas deixaram de aprender. Já não é necessário. Não me refiro apenas à educação formal ou familiar. Tornamo-nos impermeáveis aos ensinamentos da vida. Para que memorizar, entrecruzar ideias, elaborar análises, experimentos, reflexões e tirar conclusões? Basta pressionar algumas teclas físicas ou sublimadas para obter a resposta a qualquer consulta, inclusive psiquiátrica ou espiritual. Da mesma forma, perdemos o senso de orientação, mas o celular nos dita a rota. E somos localizáveis a qualquer hora! Que beleza.
Um conhecedor, um erudito de algo ou um simples aficionado por história, geografia, botânica, filosofia grega, literatura provençal, arqueologia ou matemática sabia coisas, memorizava-as e compreendia; podia combinar conhecimentos e percepções sensíveis, inspiração criativa, iluminação transcendental ou invenção prática. Conhecia as fontes e delas se nutria criticamente. Nada disso é mais necessário.
É possível obter 100% de aprovação em exames universitários sem saber grande coisa ou, absolutamente, nada. Basta “perguntar” a um dispositivo oferecido como guloseima para qualquer pessoa, e ele responderá mais rápido do que pensamos. Pensar é, a cada dia, menos necessário. Obtemos respostas sem esforço, por mais complexa ou incomum que seja a pergunta. E ainda que a resposta possa ser tosca ou errada, nós a consideramos válida, na crença de que é a melhor possível.
Sendo plataformas e sistemas (já se fala de forma aberrante de “ecossistemas”) que têm donos absolutos, e sendo eles algumas das pessoas mais corruptas e gananciosas do mundo, além das mais poderosas, não deveria surpreender que trapaceiem, manipulem dados e acionem os algoritmos conforme sua conveniência. Dinheiro, luxo e guerra são seus únicos interesses. Todo o resto deriva disso, simples assim, e de forma atroz. Já lavam aí, com afinco, a “imagem” daqueles que praticam a limpeza étnica, o genocídio e a humilhação contra povos inteiros. Quando não são eles próprios, seus clientes e sócios se encarregam do extermínio.
Hoje, o conhecimento serve para qualquer coisa, mas não é para qualquer um. Vivemos na ilusão de que todo esse poder do conhecimento nos pertence. Na verdade, nós pertencemos aos senhores do conhecimento. O lema baconiano knowledge is power encerra mais verdade do que nunca.
Apesar de ser promovida como autônoma e autossuficiente, a inteligência artificial (IA) depende paradoxalmente do trabalho humano, de um “exército” proletário em todo o mundo, principalmente no Sul Global, encarregado do “enriquecimento de dados”. As empresas “mantêm deliberadamente esses trabalhadores ocultos porque são o ingrediente secreto da IA”, afirma Antonio Casilli, autor de Esperando a los robots: Investigación sobre el trabajo del clic e coautor do documentário En las entrañas de la IA, em entrevista recente a Amy Goodman. Casilli estima que existam mais de 160 milhões de pessoas envolvidas no trabalho de enriquecimento de dados.
O conhecimento é uma indústria. Já não é nosso. Aliás, nem sequer somos donos de nós mesmos, de nossas ideias e de nossos segredos. Deixaram de nos pertencer o nome, o estado de saúde e a condição financeira, as paixões e as fobias, os afetos. Entregamos todas as informações sobre nossa pessoa, o que nos deixa completamente indefesos. E em vez de nos preocuparmos, acreditamos ter ao nosso alcance tudo o que nos interessa ou desejamos. De fato, essa indústria dita os “nossos” desejos. (Foi nisso que se transformaram aquelas necessidades que Ágnes Heller e Ferenc Fehér teorizaram com lucidez, extraindo o melhor de Marx.)
“Sabemos” o que a máquina diz, o que as redes e os meios de comunicação nos administram por via parenteral, o que as cúpulas militares e financeiras autorizam que se informe ou se investigue. Sob a aparência de que “sabemos” qualquer coisa, não sabemos nada. A humanidade, no ápice do conhecimento e da capacidade técnica e comunicacional, está mais ignorante do que nunca. A alienação do trabalho se tornou tão integral e subepidérmica que deixa pálidas as interpretações clássicas do materialismo histórico. Hoje, não sabemos. Fingimos, reagimos, obedecemos. É urgente pensar e lutar. Precisamos reencantar, para a juventude, os motivos da resistência.
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