01 Setembro 2026
Mladic, o líder do cerco de Sarajevo e do genocídio de Srebrenica, morreu na prisão, mas uma onda de comemorações varreu a Sérvia.
O artigo é de Javier Biosca Azcoiti, publicado por El Diario, 01-09-2026.
Javier Biosca Azcoiti é mestre em Diplomacia e Relações Internacionais, especializado em geoestratégia e segurança internacional. Anteriormente trabalhou no 20minutos, Europa Press, Casa Turca e na embaixada da Espanha nos Estados Unidos (Washington, DC).
Eis o artigo.
Ratko Mladić, o infame carniceiro da Bósnia, morreu na semana passada, aos 84 anos, em sua cela em Haia, onde cumpria pena de prisão perpétua por genocídio. Horas depois, uma onda de homenagens ao general criminoso de guerra falecido varreu as ruas da Sérvia e da República Sérvia, a região sérvia da Bósnia. Quando um maníaco genocida se torna um herói?
“General, glória eterna. Obrigado”, dizia uma faixa exibida por torcedores do Estrela Vermelha de Belgrado durante uma partida contra o Viktoria Plzen na noite de quinta-feira. O time publicou uma foto da faixa nas redes sociais, mostrando os torcedores fazendo uma saudação militar. Cartazes e grafites homenageando o “herói” apareceram por todo o país, e alguns de seus apoiadores chegaram a marchar, cantando seu nome, pelas mesmas ruas onde Mladic cometeu os piores crimes, glorificando o genocídio: “Faca, arame farpado, Srebrenica”.
Mladić liderou o longo e sangrento cerco de Sarajevo, que durou 1.425 dias, na época o mais longo da brutal história da guerra moderna, deixando mais de 13.000 mortos. Pouco depois, ele entrou vitoriosamente na cidade de Srebrenica. Seus soldados distribuíam chocolates para as crianças, e as câmeras o flagraram acariciando a cabeça de uma delas, Izudin Alic. Enquanto isso, as forças de Mladić caçavam e assassinavam o pai de Alic e outras 8.000 crianças e adultos, em sua maioria muçulmanos, no pior massacre cometido em solo europeu desde o Holocausto.
O general era o braço militar de um triângulo formado por Slobodan Milošević e Radovan Karadžić. Milošević, presidente da Sérvia, havia reavivado a ideia da Grande Sérvia, uma espécie de nacionalismo fascista expansionista, e Karadžić, presidente da República Sérvia (Republika Srpska), era seu parceiro político na Bósnia. O primeiro morreu enquanto era julgado em Haia, e o segundo foi condenado e cumpre pena por genocídio e outros crimes de guerra.
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Vitimização
A Sérvia demonstra que a justiça não é o fim do ciclo. Os líderes criminosos foram julgados e poucos permanecem vivos, mas por trás de suas atrocidades reside algo muito mais amplo e persistente: o projeto da Grande Sérvia e seu nacionalismo irredentista. Seu caso serve de exemplo para Israel, embora com todo o respeito às diferenças. Se Netanyahu e seus associados forem condenados por genocídio e crimes de guerra, nada mudará nos territórios ocupados se as elites do país continuarem a defender sua ideologia ultranacionalista e irredentista da Grande Israel.
Na Sérvia, o projeto de extrema-direita foi derrotado — deixando dezenas de milhares de mortos em seu rastro — e hoje uma nova geração nacionalista e uma classe política que o utiliza para obter ganhos eleitorais e realiza malabarismos impossíveis para evitar apoiar abertamente crimes de guerra perante o resto do mundo estão tentando revivê-lo.
Em Israel, porém, essa ideologia tem guiado a política do país por décadas. Para muitos, desde a sua própria fundação. David Ben-Gurion, o primeiro-ministro do país, explicou isso em uma carta ao seu filho, que estava decepcionado com o plano de partilha da Palestina, considerando-o insuficiente. "Minha hipótese é que um Estado judeu ocupando apenas uma parte do território não é o fim, mas o começo [...] A criação de um Estado, mesmo que apenas em uma parte do território, representa um poderoso impulso aos nossos esforços históricos para libertar todo o país", escreveu ele. Netanyahu também demonstrou abertamente seu apoio ao projeto do Grande Israel, que claramente envolve a expulsão dos palestinos e a ocupação de países árabes vizinhos.
Há dois anos, eu estava escrevendo várias reportagens da Sérvia. Na Praça da República, principal ponto de encontro de Belgrado, surgiu um enorme grafite: "O único genocídio cometido nos Balcãs foi contra os sérvios". Logo acima, dezenas de grafites retratavam Mladic. A mensagem reflete a narrativa de vitimização que serve como um dos pilares do projeto da Grande Sérvia, promovido pelo infame Memorando da Academia Sérvia de Ciências e Artes, que compilou uma longa lista de queixas contra o povo sérvio na década de 1980.
Essa narrativa de vitimização também se aplica a Israel, que alega precisar expandir e ocupar o resto do mundo como a única maneira de garantir sua segurança. Se você substituir Israel por Sérvia no grafite, obterá o mesmo argumento que o governo Netanyahu repete sempre que é acusado de genocídio em Gaza.
“Bombardeie-os até que estejam à beira da loucura”
A ideia do Grande Israel é um conceito que remonta praticamente às origens do movimento sionista, mas foi vigorosamente revivido pelo governo mais radical da história do país. Oferece uma interpretação geográfica expansionista do Israel bíblico e baseia-se na supremacia étnica judaica no território, como se reflete na infame lei do Estado-nação judeu da atual administração. Neste fim de semana, Netanyahu reiterou na televisão: “Este é o Estado-nação do povo judeu. Outros têm direitos, mas acima de tudo, este é o nosso Estado-nação ”.
Entretanto, atrocidades continuam a ser cometidas em nome de uma ideologia radical. Os crimes notórios dos atiradores de elite em Sarajevo não são tão diferentes da caça a civis em Gaza com franco-atiradores e drones. Entre as ordens infames de Mladic, várias entraram para a história: “Ataquem os bairros muçulmanos; não há muitos sérvios morando lá. Bombardeiem-nos até que estejam à beira da loucura”. Bombardear um povo inteiro para subjugá-lo, como em Gaza. É precisamente o seu fanatismo que fez de Mladic um herói hoje. O mesmo fanatismo que domina a política israelense atualmente.
“Como especialista em atrocidades em massa, acredito que devemos ter cuidado na forma como tentamos entender ou explicar as ações dos perpetradores desses crimes. A mídia retrata Mladić como um monstro, um louco e o 'carniceiro da Bósnia'. Mas acho importante ressaltar que ele não era um psicopata”, escreve Olivera Simic, uma das principais especialistas em direito internacional e nos Balcãs. “Caracterizá-lo dessa forma minimiza sua responsabilidade criminal, bem como as estruturas que tornaram seus crimes possíveis.”
“Compreender como pessoas como Mladić foram capazes de cometer esses crimes é fundamental se quisermos aprender a evitar que se repitam no futuro. Um aspecto importante de tudo isso foi a enorme infraestrutura militar que o cercava. Ele sozinho não poderia ter cometido todas as atrocidades da guerra. Ele tinha um exército de pessoas que apoiavam suas decisões e agiam sob suas ordens”, escreve Simic.
O mundo não aprendeu a lição.
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