29 Agosto 2026
Clara Usón dedicou um livro a Ana, a filha do general que se suicidou após descobrir os crimes cometidos pelo pai.
Clara Usón passou o dia de ontem recebendo mensagens. Muitos sentiram a necessidade de escrever para a autora espanhola após a morte de Ratko Mladic, "como se ela fosse da família", diz ela. Em 2013, após três anos de pesquisa, Usón dedicou seu livro, A Filha, publicado pela editora Sellerio, a Ana, a segunda filha do "carrasco bósnio", que cometeu suicídio em 1994, aos 23 anos, após descobrir os crimes do pai. "Ela atirou em si mesma com a arma favorita do pai, aquela que Mladic dizia que usaria para comemorar o nascimento dos netos. Acredito que a morte dela o levou ao massacre de Srebrenica: sabemos que ele chamou a operação contra as bases da ONU de 'Stella' um mês após o desaparecimento de Ana, a quem ele chamava de 'Stella'."
A entrevista é de Benedetta Perilli, publicada por La Repubblica, 28-08-2026.
Eis a entrevista.
Que impressão a morte de Mladic lhe causa?
Não nego, fiquei satisfeita porque ele era um homem verdadeiramente mau. Morreu na prisão. Não acredito na pena de morte, e é justo que tenha acontecido dessa forma.
O seu desaparecimento encerra um capítulo na história dos Balcãs?
Não, muitos ainda o consideram um herói. O presidente Vučić e pelo menos metade dos sérvios acreditam que ele foi julgado injustamente. O que aconteceu então foi um aviso: como frequentemente ocorre na história, quando os Balcãs tremem, a Europa deve se preocupar. A limpeza étnica realizada por Milosević e Mladić, a retórica sobre os muçulmanos nos ocupando, assim como tudo o que a extrema-direita diz hoje, já se dizia na década de 1990. Foram precursores.
Livro "A Filha do Leste", de Clara Usón (Teodolito, 2014).
Quem foi Mladic?
Um monstro, um dogmático, um homem cheio de contradições — é daí que vem o meu interesse. O maniqueísmo nunca me convenceu; é uma ilusão. Pessoas capazes das maiores atrocidades podem não ser puramente más. Ele foi justamente condenado por genocídio: personificava o dogma da pátria, da supremacia étnica. Mas dizem que Mladic também foi um bom comandante, um bom marido, um bom pai.
O que aconteceu depois que Ana morreu?
Ele e a filha se amavam muito, e o suicídio de Ana o assombrou por toda a vida. Durante os mais de 15 anos em que esteve foragido, antes de sua extradição, ele visitava regularmente o túmulo dela em Belgrado, bem protegido pelos sérvios. Ele chegou a acreditar que ela havia sido morta pela polícia; consultou médiuns, fazendo de tudo para evitar aceitar que ela havia se suicidado por causa dele e de seus crimes. Em seu testamento, ele pediu para ser enterrado no cemitério de Topčider, em Belgrado, perto de Ana. Das milhares de pessoas que matou, ele lamentou apenas uma: a de sua filha.
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O que restou dessa história?
Há muita frustração, especialmente porque o dogma aberrante do nacionalismo, personificado por Mladic, tornou-se dominante e corre o risco de se tornar o futuro da Europa, como já é o presente de Israel. A história não nos ensina nada: a única lição que parece nos ensinar é que nunca aprendemos nada com a história.
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