“A rendição cognitiva à inteligência artificial”. Entrevista com Steven D. Shaw

Fonte: Unsplash

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25 Junho 2026

Steven D. Shaw, pesquisador na Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, dedica-se a pensar e examinar como as inovações tecnológicas, da inteligência artificial à genômica, transformam a psicologia e a sociedade contemporânea. Seu artigo mais recente causou grande repercussão. Aborda a “rendição cognitiva” em decorrência do uso da IA. Publicações em veículos como Time, The Economist, The New York Times, Forbes, BBC, The Wall Street Journal, Financial Times e Vox retrataram o conceito cunhado por Shaw.

A entrevista é de Paula Escobar, publicada por La Tercera, 20-06-2026.

Com base em um experimento, conduzido juntamente com Gideon Nave, o pesquisador identificou a tendência humana de renunciar ao próprio raciocínio e se render ao que a IA afirma como correto. Uma mudança no paradigma do conhecimento e do pensamento, com grandes consequências para a tomada de decisões e a cognição, afirma ele, via Zoom, ao La Tercera.

Eis a entrevista.

Como a IA está transformando a nossa intuição e raciocínio?

Durante muito tempo, utilizamos o modelo (de pensamento) de Daniel Kahneman, de duplo processo: o sistema um, de pensamento rápido; o sistema dois, de pensamento lento, no qual aplicamos o pensamento crítico ou criativo. Esse é, portanto, o processo dual: intuição e raciocínio. No entanto, com o avanço da IA na sociedade e a onipresença de seu acesso, agora temos a cognição artificial: cognições criadas pela IA, com as quais podemos interagir e às quais podemos delegar diferentes processos.

Em nosso artigo, afirmamos, em termos gerais, que a presença da IA em nossa tomada de decisões é tão poderosa que agora a definimos como um terceiro sistema: o sistema três, de cognição artificial. Sendo assim, agora temos o sistema um, rápido; o sistema dois, lento; e o sistema três, de cognição artificial.

E isso nos leva a esse conceito que vocês desenvolveram: a rendição cognitiva.

Há muito tempo dispomos de ferramentas que nos permitem delegar e automatizar certas tarefas cognitivas, como calculadoras ou buscadores na web. No entanto, a IA é diferente, pois pode gerar essas capacidades cognitivas artificiais e nos oferecer respostas com grande facilidade para uma ampla gama de tarefas. E podemos obter respostas e optar por segui-las quando quisermos.

A IA é muito boa em bastante tarefas estruturadas, certo? Mas há aspectos da vida que nem sempre têm uma resposta correta ou incorreta. A rendição cognitiva consiste, essencialmente, na ideia de que agora podemos delegar o processo de pensamento à IA, ou seja, adotar essas respostas como próprias e segui-las. Trata-se, portanto, da entrega da cognição à IA, de sua adoção e seguimento.

Contudo, nessa entrega cognitiva, a capacidade de decisão, o centro de controle do pensamento, não reside mais no cérebro. Está nessas capacidades cognitivas artificiais. E isso tem consequências bastante sérias.

Por quê?

Porque para participar do pensamento criativo ou crítico, temos que, como um músculo, exercitar ou utilizar esses componentes do nosso cérebro e pensar com atenção. E desenvolvê-los, por exemplo, por meio da nossa educação. Se caímos repetidamente no desleixo cognitivo, não exercitamos mais esse sistema dois, pois está desativado no sistema três.

As primeiras pesquisas indicam que a rendição cognitiva pode levar à perda de habilidades, como a dos médicos que perdem sua capacidade de diagnosticar o câncer. É uma situação extrema na qual a IA é tão poderosa que delegar tal habilidade a ela supõe a perda da capacidade humana.

E no campo educacional, caso nos entreguemos à rendição cognitiva, durante o processo de aprendizagem, quem realmente aprende? A IA é quem aprende, e pode ser que saiamos desse processo absolutamente sem essas capacidades cognitivas.

Sobre os maiores riscos da IA, em geral, pensa-se que poderá se tornar tão poderosa que passará a fazer coisas por conta própria, sem controle humano. No entanto, seu trabalho demonstra que o risco está em perder capacidades humanas pelo uso.

Bem, a singularidade pode ocorrer de qualquer modo. Considero que continua sendo muito possível que a IA se torne tão poderosa que, de certo modo, tome seus próprios meios. Contudo, acredito que o que vem sendo subestimado, e o que nosso artigo começa a demonstrar, é esse lado humano de interagir repetidamente com a IA e ter uma tecnologia que treinamos e criamos para que seja tão semelhante e tão boa em muitos dos processos de pensamento aos quais estamos tão acostumados.

Sendo assim, penso que uma consequência imprevista dessa tecnologia é o efeito que terá em nossos próprios cérebros. Sempre se pensou em humanos contra máquinas, e nessas máquinas como entidades separadas. Porém, na realidade, a interação humano/computador, a conexão entre ambos, a delegação dinâmica e a forma como a externalização muda o nosso jeito de pensar também são parte fundamental de toda essa história.

Sabe-se que o ChatGPT e outros LLM cometem erros e “alucinam”. Como é possível que as pessoas os utilizem para tomar decisões sem um questionamento, como demonstra em sua pesquisa?

Penso que parte do problema está em que a precisão da IA é diferente para uma diversidade de domínios. Então, se você pergunta em domínios muito estruturados, como em algum tipo de análise de dados, problemas matemáticos ou coisas desse tipo, a IA irá dar essas respostas corretas com taxas muito, muito altas.

Se você está interagindo com a IA no trabalho e está realizando muitas tarefas estruturadas ou pedindo conselhos ao GPT para coisas onde há uma verdade objetiva, vai desenvolvendo esta confiança na IA ou no chatbot de sua preferência. E então pode ser fácil transferir essa confiança para outros campos em que a precisão da IA já não é tão boa.

Você desenvolveu essa confiança, seguiu as instruções da IA para tarefas específicas e pensa: “Está funcionando muito bem para o meu trabalho, por seguir estas indicações”. E então algumas pessoas passarão a recorrer à IA para a saúde mental ou para projetos criativos, como escrever, compor músicas ou coisas do estilo, onde não necessariamente há uma resposta estruturada ou correta, e a precisão não é tal.

E qual é a sua opinião a respeito do efeito emocional da tendência bajuladora ou sicofântica da IA?

Penso que é um dos maiores riscos atuais da implementação dos LLM. A bajulação ou sicofância é bastante perigosa porque pode atrair os usuários e possui certas propriedades viciantes. Se você recebe excelentes respostas em tarefas estruturadas, vai bem no trabalho e recebe bastante feedback positivo, em muitos sentidos, está reforçando e aprendendo a depender cada vez mais dessa tecnologia.

Portanto, penso que devemos ser muito conscientes e cuidadosos com a bajulação que está sendo produzida. Provavelmente, ter consciência é o primeiro passo, mas definitivamente não é o último. Penso que será necessário vermos como esses elementos do desenho da tecnologia serão modificados para, esperemos, beneficiar a humanidade, em vez da promoção de interesses comerciais ou a natureza capitalista das empresas que os desenvolvem.

Você disse que é apenas o começo da era da IA. Como imagina os próximos três, cinco ou dez anos?

O sistema três (de cognição) veio para ficar. A IA veio para ficar. Agora, é onipresente na sociedade. Todos a utilizam para diversos fins. Podemos observar em nossos experimentos, em nossas vidas, em nós mesmos, que essa rendição cognitiva está ocorrendo.

Muitas vezes, penso que isso ocorre, mesmo ainda existindo bastante fricção entre os dispositivos que usamos para interagir com o sistema três e nossos sistemas cognitivos. Precisamos pegar o celular e digitar. No entanto, a fricção entre nossos cérebros e o sistema três diminuirá à medida que essas interações humano/computador (IHC) se desenvolverem.

Assim, a próxima etapa, ao que parece, poderá ser algo como óculos com IA. Em vez de pegar o celular para escrever ou falar, esses óculos já processarão previamente as informações, utilizando IA para esse processamento externo. E, em seguida, o interior dos óculos oferecerá informações ou imagens que você poderá seguir.

Desse modo, com a redução da distância física entre nossos sistemas cognitivos internos e as cognições artificiais, as opções de delegar componentes específicos do pensamento, ou de se render, ficarão cada vez mais acessíveis e atraentes.

Então, o que vem a seguir?

Dependerá muito de como decidiremos integrar essas tecnologias à sociedade. Ao menos grande parte das evidências iniciais demonstra que se permitirmos a integração dos LLM e a redução ainda maior da distância entre nossos cérebros, essas tecnologias e nossas vidas, a rendição cognitiva pode se tornar ainda mais possível e atraente. Portanto, penso que devemos tentar desenvolver políticas e refletir com atenção sobre como incorporar essas tecnologias, antes que seja tarde demais.

Que medidas práticas devem ser tomadas? Em sua avaliação, devemos adotar uma postura de resistência?

Sim. Ou seja, não recorra automaticamente à IA para uma ampla gama de tarefas. Penso que o exemplo do GPS é muito bom. Às vezes, não pensamos com atenção sobre a direção que seguimos. Contudo, a questão é: se o GPS realmente o desviar do caminho, você continuará seguindo-o? Ou você não sabe para onde está indo ao usá-lo? E se você está bastante seguro de que deveria seguir em frente, então escolha seguir em frente, escolha seguir o seu próprio caminho...Talvez seja uma metáfora de como temos de incorporar controles e equilíbrios em nossos sistemas LLM.

É um exemplo de rendição cognitiva essa tendência atual de não ler textos ou livros completos, mas apenas fragmentos ou resumos produzidos por LLM?

Quando você insere um livro completo no ChatGPT e, em vez de lê-lo, lê apenas o resumo gerado pela IA, está anulando sua capacidade de pensar criticamente e de gerar suas próprias ideias sobre o conteúdo original (...). E desse modo nem se dá a oportunidade de desenvolver suas próprias intuições, pensamentos ou reflexões sobre o conteúdo, a partir do qual poderia construir uma perspectiva única, baseada em sua experiência de vida e em tudo o que acredita: sua moral, seus valores, sua identidade.

Quando você faz essa primeira leitura com um LLM, é como se a visse a partir da perspectiva de sua história de vida, que, na realidade, não é uma história de vida. Há, portanto, indícios de homogeneização do pensamento como resultado disso, uma vez que ao utilizar um LLM, você acaba vinculando seu modo de pensar ao do próprio programa. Com isso, você limita sua capacidade de pensamento crítico e de refletir sobre todas essas ideias únicas e valiosas que poderia ter se tivesse lido o livro por conta própria.

Para que tipos de coisas você nunca usaria a IA, especificamente para se proteger de perder suas capacidades de pensamento?

Sou um grande apaixonado por cinema, assisto a muitos filmes, e jamais veria um resumo. Nem sequer gosto de assistir a trailers, pois entendo que nossas expectativas influenciam em nossas experiências. Por isso, prefiro ir ao cinema, assistir ao filme pela primeira vez, compreendê-lo a partir da minha própria perspectiva, refletir sobre ele com atenção, analisá-lo criticamente e me conectar a ele.

O mesmo acontece com a música que produzo como hobby. Eu poderia delegar parte desse processo à IA, mas perderia algo fundamental para minha identidade e minha humanidade. E não quero isso. Cada decisão que tomo sobre a minha música é o que a torna minha. Cada ajuste, a escolha do microfone, a distância entre o microfone e o amplificador. Todas essas coisas são a minha impressão digital na obra de arte que é o meu trabalho, o meu sentido de identidade.

Portanto, não permitiria o uso da IA nesses campos e incentivaria outros a refletirem cuidadosamente sobre em que áreas ela é útil e em quais é contraproducente, em vez de utilizá-la indiscriminadamente para todos os tipos de coisas.

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