18 Junho 2026
A inteligência artificial só se tornará um motor de bem-estar para milhões de latino-americanos se houver uma colaboração público-privada sem precedentes e se os governos coordenarem esforços para reter talentos técnicos.
A opinião é de Carlos Molina, jornalista, em artigo publicado por El País, 17-06-2026.
Eis o artigo.
A resposta do meu chatbot foi esotérica, quase borgiana: "A inteligência artificial não é amiga nem inimiga da região em si, mas sim reflete e amplifica o que vê." À primeira vista, faltava contexto, mas não razão. Dadas as condições certas, a inteligência artificial (IA) pode salvar milhões de vidas com aplicações médicas oportunas, melhorar o futuro de milhões de latino-americanos em salas de aula e escritórios e, ainda melhor, alimentar toda a região com um uso mais inteligente da terra.
Enquanto os Estados Unidos debatem como aprimorar ainda mais a inteligência artificial e suavizar seu poder disruptivo para os milhões de cidadãos que a encaram com crescente desconfiança, a América Latina enfrenta uma questão fundamental, porém não menos essencial: essa tecnologia pode se tornar uma aliada ou uma inimiga do seu próprio desenvolvimento?
Na linguagem fria, porém valiosa, dos tecnocratas do desenvolvimento, podemos afirmar que a inteligência artificial representa para a América Latina um avanço tecnológico de tal magnitude que permitiria à região pular etapas inteiras de desenvolvimento de infraestrutura física que levaram décadas para serem implementadas em nações avançadas.
Exemplos desse impacto potencial começam a surgir em áreas críticas como saúde e educação, onde a IA demonstrou sua capacidade de transformar esses serviços essenciais, porém deficientes, na América Latina. Na área da saúde, diversos países expandiram o tamanho e a qualidade de suas redes públicas de saúde por meio da telemedicina com inteligência artificial e do uso de aplicativos móveis, em vez de equipamentos complexos e caros.
Na educação, a IA atua como assistente acadêmica em escolas com turmas numerosas, melhorando assim as oportunidades de aprendizagem para todos. Na agricultura, ela aumentou a produtividade das colheitas com menos água, beneficiando tanto os consumidores quanto o meio ambiente.
No entanto, se a América Latina aspira a fazer da inteligência artificial um suporte fundamental para o seu progresso regional — e não uma adversária — é imprescindível que a região resolva diversas questões pendentes em sua agenda de desenvolvimento.
Após dedicar vários anos à análise da dinâmica do desenvolvimento regional a partir de organizações multilaterais e, mais recentemente, com foco em IA, observei uma tendência recorrente: a América Latina tende a se integrar tardiamente às revoluções industriais, limitando-se a ser fornecedora de matérias-primas ou consumidora de inovações externas.
Com a inteligência artificial, o risco é semelhante, mas em uma escala exponencial. Se a região não assumir o controle de seu destino digital, a IA — longe de ser um motor de transformação profunda — poderá acabar sendo apenas mais uma ferramenta sofisticada de subjugação tecnológica.
Pendência?
Em primeiro lugar, é preciso abordar as limitações em termos de talento e infraestrutura. A América Latina é a segunda região mais jovem do mundo, mas sofre com deficiências históricas na qualidade da educação e no investimento em pesquisa e desenvolvimento. O acesso à internet de banda larga é limitado e, de acordo com o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial, a região carece de infraestrutura adequada de supercomputadores, vital para o funcionamento da IA.
O segundo grande obstáculo a superar é o emprego e a produtividade. Numa região onde o emprego informal ultrapassa os 50% em vários países, o desafio não é apenas substituir tarefas, mas também integrar a IA para aumentar a produtividade de milhões de trabalhadores independentes e PMEs que atualmente operam fora do sistema formal.
O terceiro obstáculo é cultural e está relacionado à identidade. Se instituições e empresas regionais forem governadas por algoritmos que não compreendem as idiossincrasias, expressões idiomáticas, história ou realidades linguísticas da América Latina, elas estariam, na prática, terceirizando sua autonomia cultural regional. A necessidade de soberania algorítmica regional em espanhol e português é fundamental.
Por fim, há o enigma da governança. Os governos latino-americanos precisam manter um delicado equilíbrio regulatório: como conceber estruturas éticas e regulatórias que protejam a privacidade dos cidadãos e a integridade democrática, sem sufocar a inovação local ou afastar o capital de risco de que os empreendedores tanto necessitam?
É evidente que essa rápida transformação não ocorrerá por inércia ou simplesmente pelo impulso do mercado.
É necessária uma visão nacional que reconheça que a tecnologia não é um setor isolado da economia, mas sim a base sobre a qual todo o desenvolvimento futuro será construído. Isso exige uma colaboração público-privada sem precedentes, na qual universidades locais, o ecossistema empreendedor e governos coordenem esforços para reter o talento técnico que, com muita frequência, migra para o Norte Global.
Em conclusão, e retomando a questão que deu origem a este artigo, a resposta mais precisa parece ser: a inteligência artificial só se tornará uma aliada estratégica para a região e um motor de bem-estar para milhões de seus habitantes se nossa capacidade de resposta estiver à altura do desafio.
O objetivo desta coluna é justamente fomentar esse diálogo essencial. Não por mera admiração pela tecnologia, mas por meio da reflexão crítica e da análise aprofundada que o desenvolvimento da América Latina exige. Convido você a participar dessa conversa.
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